Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
A crise e a ética

As projecções são do FMI. A economia no mundo vai crescer
3,5% em 2012, média ponderada dos crescimentos das economias avançadas (1,4%) e
das economias emergentes (5,7%). Dito de outro modo: o contributo das economias
emergentes será de 80%, contra apenas 20% das economias avançadas. Só a China
contribui com cerca de 35% do total. No lado oposto está a Zona euro, com um
contributo negativo, enquanto Portugal se afunda cada vez mais.

 

O papel dos países ricos merece reflexão. Os EUA e o Japão
ainda deverão crescer cerca de 2%. Mas a Eurolândia cai a pique: crescimento
inferior a 1% na França e na Alemanha, recessão em Espanha e em Itália, o fundo
do poço na Grécia e em Portugal. E mesmo quando o FMI arrisca projecções até
2017 nada disto melhora: a Europa do euro parece definitivamente condenada a
ficar para trás. A política do híbrido ‘Merkozy’ redundou em tragédia.

 

Num outro plano, a inflação aproxima-se dos 2% e as taxas de
juro continuam baixas – um cenário que deveria promover o crescimento. Não é o
caso. Já o défice da balança corrente está a baixar pelos piores motivos: a
queda da procura externa e o consequente afundamento das importações. Mas o
problema mais grave está no desemprego, na casa dos 15%, mais de 800 mil
pessoas. Não me surpreenderia se até final do ano se atingisse um milhão.

 

Com isto chegamos ao famoso Pacto Fiscal, que o Governo já
ratificou e obviamente não vai cumprir. É só esperar pelos próximos capítulos.
A Grécia é uma tragédia… grega. A Irlanda espera pelo resultado do referendo de
31 de Maio. E François Hollande sempre disse que o seu objectivo era
“renegociar” o tratado. Era! Mas esbarrou numa parede chamada Angela Merkel: o
tratado “não é renegociável”. Não, não e não! Como é que se sai disto?

 

Foi com este pano de fundo que analisei o Documento de
Estratégia Orçamental para 2012-16. O quadro é idílico: variação do PIB superior
a 2% a partir de 2014, balança corrente e de capital positiva logo a seguir,
défice orçamental na vizinhança de zero, etc. Desculpem, isto não é uma análise
económico-financeira; é um atentado à ética e à moral. O documento não é
credível. E o Governo, desgraçadamente, continua a enganar os Portugueses.

 

Até quando?

     

d.amaral@netcabo.pt

 

 

 

 

 



publicado por ooraculo às 16:29
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Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
A partilha do bolo

O Eurostat, partindo dos rendimentos das famílias, calcula a
relação entre os 20% mais altos e os 20% mais baixos da UE. Em Portugal, esta
relação é de 5,6, contra 4,9 da zona euro, o que compara com 6,9 em Espanha e
3,5 na Suécia e na Noruega. E, associado aos rendimentos, define o conceito de
limiar da pobreza, que é igual 60% da mediana do rendimento por adulto.
Portugal é um dos países mais pobres e que mais injustamente distribui.

 

Num outro plano, e com o mesmo objectivo de medir as
desigualdades na distribuição dos rendimentos, a OCDE utiliza o chamado
coeficiente de Gini. Basicamente parte-se de uma hipótese teórica em que todos
os indivíduos tivessem um rendimento igual (0) para uma outra em que todo o
rendimento se concentrasse num só indivíduo (100): a desigualdade é tanto maior
quanto maior for o valor calculado. Os gráficos abaixo quantificam os valores.

 

A maior desigualdade na distribuição está nos EUA, com um
coeficiente de 38. O que confere com a ideia que todos temos dos americanos: um
grupo restrito de iluminados acumula fortunas colossais. Ainda assim,
tratando-se da economia mais rica do mundo, será sempre possível evitar a
miséria extrema. O Japão, com um coeficiente de 33, tem uma desigualdade
superior à da zona euro, que andará pelo coeficiente 30, próximo do valor
alemão.

 

É aqui que Portugal destoa. O seu rendimento ‘per capita’ é
dos mais baixos da Europa e, para ajudar à festa, a injustiça na distribuição
dos rendimentos é das mais elevadas. Com um coeficiente de 35, compara com os cerca
de 30 da Alemanha, da França e da Espanha e com os 25 da Noruega. E já foi pior
do que é hoje. Com o país mergulhado numa recessão profunda, e às voltas com
problemas de toda a ordem, este não será o menos importante.

 

Sendo o bolo tão pequeno, é óbvio que uma partilha injusta
agrava ainda mais a situação dos mais pobres. E os governos têm a obrigação de
ser sensíveis ao problema. Há duas maneiras de o fazer: pela via salarial e
pela via fiscal. Os acréscimos salariais têm de privilegiar os que têm menos. E
o agravamento de impostos tem de penalizar os que têm mais. A forma como
distribuímos o pouco que temos é algo de que deveríamos envergonhar-nos.

 

Estará este Governo à altura?     

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

 

 

 



publicado por ooraculo às 15:36
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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
O empobrecimento

Sendo mais ou menos consensual que o ataque à crise passa
pelo crescimento económico e a criação de emprego, dediquei os últimos artigos
a falar sobre o tema. E não foi difícil chegar a esta conclusão: o crescimento,
sendo indispensável, tem custos; e esses custos, que no essencial estão ligados
a salários mais baixos e a impostos mais altos, acabam por afectar o nível de
vida das populações. É altura de explicar melhor estes conceitos.

 

A diminuição dos rendimentos pode ocorrer de duas maneiras.
Uma é através do corte directo: foi o que sucedeu com a suspensão dos subsídios
de férias e de Natal. A outra é através de uma eventual saída do euro: a
posterior desvalorização da moeda, associada à ilusão monetária, reduz o poder
de compra quase sem darmos por isso. Já o aumento de impostos, em regra o IVA,
ocorre na compensação de uma hipotética desvalorização interna.

 

Mas será que não havia alternativa, já que os nossos
salários são muito mais baixos do que a média europeia? Infelizmente, não. O
peso dos nossos salários no PIB é de 50%, contra, por exemplo, 47% em Espanha,
42% em Itália, 34% na Grécia. E isso acontece devido à nossa baixíssima
produtividade. Enquanto esta produtividade não melhorar, seja de que forma for,
não vejo como poderemos competir sem baixar os custos unitários de produção.

 

Esta poderá ser a chave da vertigem de Passos Coelho quando
fala do ‘timing’ para o retorno dos subsídios desviados: 2014? 2016? Total?
Parcial? A resposta é simples: será quando e o que for possível. Como é óbvio,
o primeiro-ministro está ao corrente da realidade, mas não é capaz de o
assumir: o esbulho dos subsídios foi para sempre – com a eventual excepção de
uns trocos no ano de eleições. Neste ponto todos os governos são iguais.

 

Daqui resulta que o empobrecimento é inevitável. Depois dos
desequilíbrios, para que todos contribuímos, vamos ter de nos ajustar a uma
nova realidade que adivinho penosa: o próximo equilíbrio, quando ocorrer, vai
situar-se a um nível mais baixo. Não há alternativa. E os que não acreditam só
podem estar mal informados. Ainda assim, admito que a situação possa ser
melhorada, através de uma mais justa distribuição da riqueza produzida.

 

Voltarei a este assunto. 

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

        

 

 

 

 

 

 

 

 



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Sexta-feira, 20 de Abril de 2012
Os custos do crescimento

Voltemos ao tema do crescimento, partindo de um PIB igual a
100 e uma dívida pública igual a 110. Se o PIB crescer à taxa de 2% ao ano em
volume e outro tanto em preço, ao fim de 20 anos será de 220. E se à dívida juntarmos
um défice de 0,5% ao ano, todos os anos, ao fim de 20 anos será de 125. Logo, a
dívida cairá para 57% do PIB, apenas à custa do crescimento económico. É o lado
cor-de-rosa. Mas como é que se cresce? E a que preço?

 

As projecções do Banco de Portugal para 2012 são
elucidativas. O PIB vai cair 3,4%, devido a uma queda da procura interna
(-6,5%) que não é compensada pela subida da procura externa (3,1%). E a
primeira está associada às actuais políticas de austeridade: queda abrupta do
consumo e colapso do investimento. Não havendo razões para admitir que a
austeridade vai acabar, sobretudo nos anos mais próximos, só nos resta a
procura externa.

 

Depois do colapso de 2009, a procura externa tem evoluído
favoravelmente. E nos três meses terminados em Fevereiro de 2012 as exportações
cresceram à taxa de 10% ao ano, contra uma descida de 6% nas importações. Mas o
défice da balança corrente continua a não descolar dos 10% do PIB, o que esbate
o optimismo anterior. Enfim, se é verdade que a solução passa pela procura
externa, as exportações terão de subir muito mais. Por que vias?

 

Se a Europa do euro fosse solidária, a resposta seria fácil.
Os países com excedentes comerciais aumentariam a procura interna, abrindo
espaço às exportações dos países deficitários. Sucede que a Alemanha não quer,
ponto final. E os amigos vão atrás. Donde, a esta luz, os países como Portugal
não têm hipóteses: as exportações de um lado são importações do outro e todos
os objectivos nesta área se anulam entre si. O modelo não funciona.

 

Não conseguindo maximizar as exportações para a zona euro, teremos
de fazê-lo para outros mercados. E aqui entra a componente preço, que teremos
de baixar. Só vejo duas maneiras de o fazer: a primeira é sair do euro e
desvalorizar a moeda; a segunda é insistir na desvalorização interna que já
ensaiámos sem sucesso. Traduzindo, o que nos resta é baixar os salários e/ou
aumentar os impostos. Dito de outro modo: o crescimento tem custos.

 

Mas é ele que cria emprego!

 

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publicado por ooraculo às 15:28
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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
O novo tratado

Ponto da situação. Dos 27 países que integram a UE apenas 25
subscreveram o novo pacto orçamental, prometendo ratifica-lo internamente. Mas
a Irlanda já disse que vai realizar um referendo, que deverá ocorrer no próximo
dia 31 de Maio. E François Hollande, candidato á presidência da França, também
nunca escondeu que pretende renegociar o tratado para nele incluir o tema
“crescimento”. Duas areias na engrenagem? Vamos admitir que não.

    

Este tratado veio baralhar alguns cálculos, ao introduzir os
conceitos de “PIB potencial” e de “défice estrutural” e limitando a 0,5% a
relação entre este défice e aquele produto. Como já expliquei em artigo
recente, PIB potencial é o produto que se registaria se houvesse uma plena
utilização de todos os factores produtivos. Como não há, ele é em regra
superior ao PIB efectivo. Nada a opor, não fosse a extrema dificuldade em o
calcular.

 

Se bem se recordam, aquando das negociações para a entrada
no euro exigiu-se a todos os países que limitassem o défice a 3% e a dívida a
60%, ambos face ao PIB. O que tinha implícito um crescimento nominal do PIB não
inferior a 3% ao ano. Mas quase todos incumpriram. Hoje admito que sejam mais
rigorosos: o défice não poderá exceder 0,5% do PIB; e a parte da dívida que
exceder os 60% do PIB terá de ser eliminada a um prazo de 20 anos.

 

Estava à espera de uma discussão acalorada sobre estas
exigências, mas ninguém ligou. O que se tem discutido é apenas se elas devem ou
não ser inscritas na Constituição. Eu entendo que não. Os limites ao défice e à
dívida têm implícitos tratamentos diferentes: a dívida é uma tendência; o
défice pode ser maior ou menor, desde que a tendência se mantenha. E as sanções
pelo incumprimento são de tal modo gravosas que o melhor é evitá-las.

  

Projectemos então os números, admitindo à partida um PIB de
100 e uma dívida de 110. Se o PIB crescer à taxa de 2% ao ano em volume e outro
tanto em preço, o PIB nominal ao fim de 20 anos será de 220. E se o défice for
de 0,5% ao ano, todos os anos, a dívida acumulada será de 125. Então a dívida
face ao PIB cairá para 57%. Aqui têm: a solução está no crescimento económico,
até hoje tão vilipendiado. E a própria inflação pode ajudar.

 

Que diz a isto o Governo?

 

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publicado por ooraculo às 14:37
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Quinta-feira, 5 de Abril de 2012
'Troika', ano 1

Estávamos na segunda metade de 2008. Veio a recessão, entrámos em contramão e o Governo caiu. Pelo meio chegou a ‘troika’. E o Governo que se lhe seguiu entrou a matar: aumentos brutais dos impostos, encarecimento dos bens e serviços, cortes impiedosos nos salários e nas pensões. A propósito de pensões: também absorvemos o fundo dos bancários. Só as gorduras do Estado continuaram gordas. Encerradas as contas, como estão os resultados?

 

A actividade económica caiu a pique e, a confirmar-se a recessão de 3,4% prevista pelo Banco de Portugal em 2012, atingiremos no final deste ano o mesmo nível a que nos encontrávamos no início do século. É também a maior recessão dos países da União Europeia, logo a seguir à da Grécia. Podemos consultar todas as estatísticas disponíveis e afirmar sem receio: esta é a crise mais grave de que há memória desde os últimos oitenta anos.

 

Estas crises, como se sabe, arrastam o desemprego. Em 2011 estavam desempregadas 706 mil pessoas, 12,7% da população activa, e este número deverá subir para 880 mil em 2012. Admitindo uma população activa idêntica, aquela taxa vai aproximar-se dos 16%. Mas atenção! Estamos a falar de valores médios do ano. Como a tendência é para subir, no final do ano serão decerto muitos mais. Eis um cenário de que os políticos deveriam envergonhar-se.

 

Resta-nos o défice e a dívida do Estado. Em 2011 comprometemo-nos com um défice de 5,9% do PIB. Conseguimos um valor mais baixo, mas à custa do fundo de pensões da banca. Sem ele o défice teria chegado aos 7,8%. Para 2012 o compromisso é de apenas 4,5% e, sem o recurso a mais medidas extraordinárias, o mais provável é que o limite venha a ser furado. Com que consequências, não sei. Ou melhor: tenho um ‘feeling' que prefiro não revelar.

 

Poderia ser de outro modo? De início, não. O resgate foi imposto e não nos deram alternativa. Mas, à medida que se foi percebendo que o modelo era suicida, deveríamos ter tido o cuidado de propor algumas medidas que aliviassem o programa. O Governo não quis. Ele foi tão insensível, tão anti-social, que fez questão de proclamar bem alto o objectivo que o motivava: idolatrar a ‘troika' - e ir mesmo além do que a própria ‘troika' exigia.

 

O resultado está aí.

 

BARCO AO FUNDO

 

Da recessão...

(PIBreal, 2008=100)

...ao desemprego

 (Desemprego, %p.a.)

 Já se pode dizer: o primeiro ano da ‘troika' fica associado a um dos períodos mais negros de que há memória em Portugal. A riqueza produzida caiu a pique e assim deverá continuar até ao final de 2012. E o emprego, em queda constante, já está ao nível dos anos 90. No mesmo plano, também não há memória de o desemprego ter  subido tanto e tão depressa. Hoje, à nossa frente, só já estão a Grécia e a Espanha. É o caos social.

Fontes: Eurostat, Banco de Portugal.

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Daniel Amaral, Economista
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publicado por ooraculo às 18:07
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Segunda-feira, 2 de Abril de 2012
Baile de máscaras

Primeiro foi o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, apanhado por
uma câmara indiscreta à conversa com Vítor Gaspar: se precisarmos de um
qualquer ajustamento ao programa, poderemos contar com eles.

Depois foi Olli Rehn, vice-presidente da Comissão Europeia, desta vez em
sinal aberto: a Europa gosta muito de nós e jamais nos deixará cair. Então é
oficial: na hipótese improvável de um segundo resgate, Bruxelas está connosco!

 

Sucede que, à luz do discurso português, nada disto faz sentido. Portugal
subscreveu e está a cumprir o programa que a ‘troika' exigiu. O
primeiro-ministro aderiu com entusiasmo ao modelo e faz mesmo questão de o
ultrapassar pela direita. A Europa que regularmente nos visita só nos mima com
elogios. E a ida aos mercados, algures entre a Primavera e o Verão de 2013, não
passa de uma formalidade. Para quê esta ajuda que ninguém pediu?

 

Os números são claros. No final de 2012, a dívida pública andará pelos 110% do PIB. E o que precisamos de financiar é apenas o défice deste ano mais a parcela da dívida acumulada que se vence em 2013. É verdade que, por má-fé, todas as agências de ‘rating' nos classificam como lixo. Mas alguém duvida de que os investidores vão acorrer em massa e que o financiamento se fará com uma perna às costas e a uma taxa de juro de fazer inveja?

 

Ultrapassado este ponto, resta-nos o compromisso orçamental: a parte da
dívida que exceder os 60% do PIB - neste caso os restantes 50%, no valor de €85
mil milhões - terá de ser amortizada em 20 anos, através de outras tantas
prestações anuais e iguais. Nada que nos meta medo. Face à pujança da nossa
economia, não será difícil passar estes défices a excedentes e depois elevá-los
a €4,25 mil milhões por ano, mais juros, durante 20 anos.

 

Aqui têm. A disponibilidade de Bruxelas, embora gentil, é irrelevante. E o
simples facto de a anunciarem só serve para criar a ilusão de que poderemos
precisar de ajuda, o que não é verdade. Deixo aqui uma sugestão ao Governo:
prepare uma conferência de imprensa, chame a ‘troika' e as agências de ´rating´
e, recorrendo àquela máxima que assombrou o mundo, atire-lhes à cara com tudo o
que não queremos - nem mais tempo nem mais dinheiro.

Vamos arrasar!

 

EVOLUÇÃO DA DÍVIDA

Dos poderosos...

(Dívida pública, % PIB)

...aos resgatados

 (Dívida pública, % PIB)


  
  
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
  
  
  
 
  
 


  
 

Fonte: Eurostat.

Se exceptuarmos a Irlanda dos primeiros anos, ninguém cumpre os 60% do PIB
como limite ao endividamento. Mas a tendência é claramente crescente a partir
de 2008, quando a crise começou. Ainda assim, existe uma diferença abissal
entre países como a Alemanha e a França, que têm conduzido o processo, e os
três países intervencionados. A Grécia, de resto, sem o 2º resgate, chegaria
este ano aos 200% do PIB.

____

Daniel Amaral Economista

d.amaral@netcabo.pt

 



publicado por ooraculo às 18:36
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Sexta-feira, 23 de Março de 2012
Grécia, resgate 2

Partamos de 2008, quando a crise começou. A Grécia entrou em recessão, o trivial para a época, mas a taxa de desemprego ainda era gerível.

Já a dívida pública parecia descontrolada, ao atingir 113% do PIB, a maior da UE. Com a economia em queda livre, todos se lembram do que se passou a seguir: a Grécia foi objecto de uma operação de resgate e viria a arrastar na onda a Irlanda e Portugal. Mais de três anos depois, que é feito da Grécia?

 

Tenho à minha frente os indicadores de 2011 e a imagem é desoladora. O PIB, em recessão permanente, chegou aos -7%, batendo no fundo do poço. A dívida pública disparou para os 163% do PIB, um número sem paralelo na Europa. E a taxa de desemprego, da ordem dos 20% da população activa, já se aproxima da lendária Espanha. Se o objectivo era salvar a Grécia, temos de concluir que o objectivo falhou: ninguém salva ninguém através da asfixia.

 

O colapso grego levou ao resgate 2. Síntese do plano: com uma dívida global de €355 mil milhões, €206 dos quais ao sector privado, obteve-se um perdão "voluntário" de €103mM e, a partir daqui, assumiu-se que a dívida baixaria para 120% do PIB até 2020. As contrapartidas do Governo seriam, para além do mais, o congelamento dos salários, a extinção dos subsídios de férias e de Natal e a eliminação de 150 mil empregos do Estado até 2015.

 

Não sei como é que se chegou àqueles 120% do PIB, nem isso é importante. Queria apenas recordar que, de acordo com o pacto fiscal recentemente aprovado, os estados-membros da UE comprometeram-se a isolar a parte da dívida que excedesse 60% do PIB e eliminá-la nos próximos 20 anos, através de 20 prestações anuais e iguais. Como é que tudo isto se articula com o plano anterior? Como é que uma Grécia falida vai cumprir? E se não o fizer?

 

Volto à minha tese: por detrás disto tudo está uma enorme hipocrisia. Claro que a Grécia não vai cumprir nada, porque nada daquilo é exequível. E a Europa sabe disso. Do que ela está à espera é apenas do momento ‘x' - aquele momento em que a Grécia reconhecerá isso mesmo e, em face disso, pedirá ela própria para sair do euro. A que se seguirá, por parte da Europa, o habitual elogio fúnebre: "Que pena! Eram tão simpáticos, os gregos!"

 

Quem vem a seguir?



publicado por ooraculo às 17:08
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Sexta-feira, 16 de Março de 2012
Regresso ao futuro

Partamos de 2012, admitindo um PIB de
€173 mil milhões (mM) e uma dívida pública de €190 mM, igual a 110% do PIB, e
projectemos estes números a 20 anos.

Se os orçamentos estiverem sempre
equilibrados, sem défices nem excedentes, e o PIB crescer à taxa de 2% ao ano
em volume e outro tanto em preço, em 2032 o PIB sobe para €382 mM e a dívida
mantém-se nos €190 mM, agora reduzida a 50% do PIB. Falamos de algo exequível
ou de mera utopia?

 

Comecemos com a actual estrutura. Para
um PIB igual a 100, consumimos 85 e investimos 18; os 3 a mais correspondem a
défice externo e traduzem a diferença entre importações (37) e exportações
(34). Este desequilíbrio já foi maior, situando-se ao longo de vários anos à
volta de 7-10% do PIB. Ainda assim o esforço deve ser prosseguido,
transformando estes défices em excedentes, até eliminar o endividamento
acumulado. Não vai ser fácil.

 

Projectemos agora para 2032 uma
estrutura idêntica à que tem hoje a Alemanha. Nesta caso, para um PIB igual a
100, o consumo é igual a 77 e o investimento igual a 18; os 5 em falta
correspondem ao excedente externo e traduzem a diferença entre exportações (46)
e importações (41). A alteração é profunda: vai de um cenário de endividamento
a um outro de acumulação de reservas. E o que é necessário fazer para se
atingir um resultado destes?

 

Comecemos com a procura externa. O peso
das exportações no PIB é hoje de 34% e terá de passar para 46%, o que pressupõe
uma taxa de crescimento anual média de 5,6%, 1,6 pontos acima do crescimento do
produto. Sucede que o acréscimo de exportações arrasta consigo um acréscimo de
importações, embora a uma taxa que se admite mais baixa. O seu peso no PIB terá
de passar de 37% para 41%, o que pressupõe um crescimento médio anual de 4,6%.

 

Passemos à procura interna. O peso do
investimento no PIB é de 18%, antes e depois, sugerindo uma taxa de crescimento
igual à do PIB, 4% ao ano. Já o consumo cai de 85% para 77% do PIB, fazendo
descer aquela taxa para 3,5%. Estes 3,5% deverão estar alinhados com os
acréscimos conjuntos do emprego e dos salários, o que é de uma enorme violência
para os trabalhadores. Mas não sabíamos já que era assim, com este modelo ou outro
qualquer?

 

Este futuro vai doer.

 

Gráfico:

 

ESTRUTURA DO PIB

Da procura interna...

...à procura externa


  
  
  
 
  
  
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
  
  
  
 


  
  
  
 

Portugal precisa de crescer. E de
alterar a estrutura do produto. Pontos fortes a introduzir no modelo: melhorar
a qualidade do investimento e substituir consumo por exportações. O ponto de
partida (2012) reflecte a actual situação portuguesa; o ponto de chegada (2032)
corresponde ao que é hoje a estrutura alemã. O objectivo envolve enormes
sacrifícios e não parece exequível a um prazo mais curto. Estaremos
disponíveis?


____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.p

 



publicado por ooraculo às 17:49
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Sexta-feira, 9 de Março de 2012
A crise ao espelho

Com a procura interna a cair a pique, é hoje consensual entre os analistas que a saída para a crise passa pela procura externa, através do aumento das exportações líquidas. Mas, para exportar mais, precisamos também de produzir mais, o que significa melhorar a produtividade. E, assegurada a produção, teremos também de vendê-la, melhorando a competitividade, em qualidade e o preço, nos mercados internacionais. Como é que se faz tudo isto?

 

Situemos o problema. Para uma produtividade/hora nos EUA igual a 100, a zona euro produz 84 e Portugal apenas 48. Mas se medirmos a produtividade/pessoa, com os EUA de novo igual a 100, a zona euro baixa para 76 enquanto Portugal sobe para 53. Leitura óbvia: os europeus trabalham menos do que os americanos, mas os portugueses trabalham mais do que quaisquer dos outros. Por que é que em Portugal se trabalha tanto e se produz tão pouco?

 

Estamos a falar de produtividade e não se vislumbra uma resposta fácil. Uma hipótese possível é sermos menos competentes: um confronto entre os diferentes níveis de escolaridade aponta nesse sentido. Outra hipótese é estarmos menos bem organizados: a ausência de investimento e a fraca qualidade de certas empresas podem ser uma justificação. De uma coisa podemos estar certos: não é por falta de horas trabalhadas que Portugal não produz.

 

Daqui passamos para a competitividade. Se o nosso objectivo é exportar mais, só temos uma saída: é ser competitivos em qualidade e em preço. E, assumindo que a nossa qualidade é pelo menos igual à dos outros, os preços só podem ser reduzidos de duas maneiras: com uma melhor organização das empresas e com salários mais baixos dos trabalhadores. Lamento dizê-lo, mas prevejo um ataque impiedoso aos custos salariais unitários de produção.

 

É aqui que tudo se complica. Como se sabe, os salários nominais não podem ser reduzidos. No limite, podem ser congelados, o que significa uma queda real igual à inflação. Mas isto não chega. E mais do que isto só é possível abandonando o euro, recuperando uma moeda própria e procedendo depois à sua desvalorização. Eis o drama: se a saída do euro é uma tragédia e precisamos de melhorar a competitividade, como é que melhoramos a competitividade sem sair do euro?

 

Gráfico:

PRODUTIVIDADE

Uma tragédia...

(P/hora, EUA=100)

...sem fim à vista

(P/pessoa, EUA=100)

 

A produtividade/hora da zona euro não chega a 84% da dos EUA e, em termos relativos, tem vindo a descer. E a equivalente portuguesa não chega a 50% e tende a estabilizar. Já a produtividade/pessoa agrava o cenário da zona euro, mas melhora o português. Conclusão: os europeus trabalham menos do que os americanos e os portugueses mais do que quaisquer deles. Sendo assim, por que é que produzimos tão pouco?

Fonte: Eurostat.

Daniel Amaral Economista
d.amaral@netcabo.pt



publicado por ooraculo às 15:49
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