Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

O pós-orçamento

 O ambiente de cortar à faca desanuviou-se um pouco com a proposta do OE-2011. O Governo propõe-se atingir o défice de 4,6% do PIB que Bruxelas exigia; o esforço maior vai ser feito à custa da despesa, como o PSD desejava; e Passos Coelho deixou de ter argumentos para aquela postura errática que já não convencia ninguém. É verdade que continua a manter o folclore de umas exigências tontas, mas isso passa-lhe. Vamos ter orçamento. E depois?

Como enquadramento macroeconómico, o Governo assume uma queda de 2,5% da procura interna, em consequência do comportamento negativo do consumo e do investimento. Mas a sua confiança nas exportações é de tal ordem que, ainda assim, ele admite que o PIB venha a crescer 0,2% em volume. Convenhamos que é uma aposta arriscada. A menos que o Governo disponha de informações que nós não temos, o cenário mais provável é de recessão.

Do confronto entre os números resulta que o défice cai 2,7 pontos para os 4,6% do PIB, como estava previsto. Mas só na despesa há um corte de 3,5 pontos, o que não se percebe. A explicação está nos detalhes: os submarinos e o fundo de pensões da PT, mais o ‘timing' em que foram assumidos, viraram estes números de pernas para o ar. Aceito a tese de que dois terços foram cortados à despesa e um terço acrescido à receita, o que parece razoável.

Embora acredite que o PIB venha a crescer 0,2% em 2011, o ministro das Finanças esclareceu que, como medida de precaução, calculou a receita fiscal no pressuposto de uma queda de 0,7%. Penso que foi uma boa opção. Mas pode não chegar. A generalidade dos analistas admite uma recessão maior. E, nesse caso, como reagirão os mercados? Teixeira dos Santos dá uma resposta arrepiante: "Não vejo por onde ir se os mercados exigirem mais".

É aqui que entra o pós-orçamento. A viabilização que se adivinha não assegura a estabilidade política, e o PSD há-de querer eleições já em 2011. Mas não é seguro que as ganhe. E muito menos que o faça com maioria absoluta. Numa altura de crise gravíssima, por um período indeterminado, seria excessivo pedir ao PS e ao PSD que se sentassem a uma mesa, identificassem os principais problemas e oferecessem ao país uma solução conjunta?

O país agradecia.

 

NO FIO DA NAVALHA

Défice tremido...

(% do PIB)

 ...dívida segura

(% do PIB)

   

 

O OE-2011 aponta para um défice de 4,6% do PIB, como toda a gente pretendia. Mas não é seguro que ele venha a ser atingido: há números polémicos, outros subavaliados e uma recessão no horizonte que o Governo preferiu não assumir. Seguro mesmo é que a dívida vai continuar a aumentar: serão 86,6% do PIB no final de 2011, uma loucura só em juros. Ou o PS e o PSD se entendem ou o problema não tem solução...

 

Fontes: Governo, Banco de Portugal.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


 

Comentários

 

LOPES CARLOS , Bruxelas | 22/10/10 13:20
1. Caro Senhor Realista : louvo a sua persistencia , ao acompanhar, com muita regularidade , os assuntos da nossa res publica.
2. Mas, os nossos problemas a partir de 2011 , num quadro muito mais severo a nivel europeu , serão sempre de financiamento : como financiar o serviço da divida, como financiar o pagamento parcial da nossa divida externa, como financiar as PPPs ( dezenas de milhares de milhões de euros), como responder a "imprevistos",etc.
3. O Senhor Realista já aqui reconheceu os problemas da produtividade e da competitividade relativa que vão criar os tais défices da balança.
4. Se o Senhor Realista analisar objectivamente as conclusões dos recentes estudos franceses e belgas no sector agro-alimentar compreenderá quais as actuais distorções à concorrencia no quadro do Mercado Interno.
5. O EURO é a nossa melhor defesa e obriga-nos a algum rigor.
6. Se Portugal voltar à moeda nacional , talvêz chamada o o PELINTRÃO, será a quebra do poder de compra dos Trabalhadores e será a destruição dos depositos e poupanças da classe média. Seria o fim do nosso País e a perda total da nossa soberania.

João Santos , | 22/10/10 12:16
Sr. Realista... o Euro é a melhor coisa que alguma vez nos aconteceu.

Se não estivesse no Euro, havia de ver como elas mordiam.

Realista , Porto | 22/10/10 11:45
Agora que o OE 2011 parece que vai ser acordado, é altura de começarmos a pensar e a discutir dois problemas mais importantes. 1- A falta de crescimento económico e o defice comercial (export - import). Estes é que são os problemas principais. Como resolvê.los? 2- A Europa está doente. Não é só Portugal. O autor diz que o nossa dívida vai atingir em 2011 86,6% e que isso é muito complicado. Mas... e a Italia e a Belgica, por exemplo, para alem da Grecia da Irlanda, da Espanha. O "PEC" que os ingleses se propoem implementar é terrivel. Só a anafada da Sra Merkel é que vai ter um crescimento acima dos 3%. Temos que começar a pensar no fim do Euro.

Prof. Pardal. , | 22/10/10 08:29

Ingredientes que tem faltado para viabilizar este país_

1- ÉTICA.

2- Sentido de Serviço Público, por todos aqueles que o deviam prestar á causa pública.

3- Justiça e equidade fiscal.

Para terminar e não menos importante:

4 - Honestidade.
publicado por ooraculo às 18:51
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