Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

No fio da navalha


Com o devido respeito a Teixeira dos Santos e a Eduardo Catroga, não creio que o Governo e o PSD se tenham sentado à mesa para viabilizar o orçamento. Fizeram-no para salvar a face de Passos Coelho. Não sei se o conseguiram. Mas insisto em defender que o orçamento NÃO PODE ser chumbado: seria trágico de mais para um país que não sobrevive sozinho. Afinal, o que está por trás de tudo isto? Quem são os culpados? Como chegámos aqui?

 

Consultei estatísticas de uma década, mas o problema vinha lá muito de trás. Atribuindo ao PIB, a riqueza produzida num ano, o valor de 100, há muito que nos habituámos a gastar 110: os 10 a mais são dívida externa, correspondem à diferença entre importações e exportações e, no final deste ano, já descontados os créditos do país sobre o exterior, o seu valor acumulado deverá atingir 120. E vai continuar a subir. Não há país que aguente.

 

Na origem deste delírio consumista estão três entidades. O Estado perdulário, que gastou o que tinha e o que não tinha numa voragem de desperdício sem limites. A Banca gananciosa, que jogou com a estabilidade do euro para entrar num facilitismo despudorado que apenas visava maximizar os lucros. E as famílias sem cabeça, que foram nesta onda tresloucada e hoje estão afogadas em dívidas que não conseguem pagar. A culpa é de todos.

 

Acresce que há muita coisa escondida. Dos reportes que os governos fazem a Bruxelas apenas constam os défices e as dívidas da administração pública. Ficam de fora mais dois monstros sagrados do desperdício: o sector empresarial do Estado e as parcerias público-privadas. Voltemos à dívida de 120: se lhe juntarmos mais uns 40-50 pontos não andaremos longe da verdade. As culpas serão iguais, mas algumas são mais iguais do que outras.

 

A tudo isto veio juntar-se a crise. Não uma crise qualquer, mas a maior crise dos últimos 80 anos. Uma crise, de resto, singular: só incide sobre os ricos, afecta particularmente a Europa e Portugal é o elo mais fraco. E o inevitável aconteceu: os credores chamaram a si o controlo da situação. Quando eles nos dizem que o défice não pode exceder 4,6% do PIB, a nossa opção não é entre este número ou outro qualquer. É mesmo este - a bem ou a mal.

 

Estamos no fio da navalha. E agora?

  

 

SITUAÇÃO EXPLOSIVA

 

Dos défices externos...

 

(% do PIB)

 

 ...às dívidas globais

 

 (% do PIB)

 

   

 

 

*Valores estimados.

As nossas relações com o exterior revelam défices crónicos e incomportáveis. A diferença entre exportações e importações, sempre negativa, é mesmo das mais elevadas da Europa. E a estes défices juntam-se os das contas públicas, com nítidos sinais de descontrolo. É uma situação explosiva. Ou travamos este ritmo ou a dívida pública (interna e externa) e a dívida externa (pública e privada) vão tornar-se ingeríveis.

 

Fontes: Governo, Banco de Portugal.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

Comentários

JoseGuitarreiro , Estoril | 29/10/10 14:59
1 - O Min.Finan. é o pior que já vi em 65 anos, de contrário tinha sabido elucidar e convencer o Sócrates e os restantes ministros da trágica situação financeira do País, impondo-se um corte substancial na despesas e nos investimentos faraónicos. Desde o Governo de Ant. Guterres, que o PS adoptou uma politica, identica à da Grécia, de despesismo e de investimentos sem retorno, ou seja, o que era preciso era lançar dinheiro às pazadas para cima das Pessoas/professores, etc., sem a preocupação de haver contrapartidas na produção de bens e serviços, gerando fortes desequilibrios, ou seja, défices crónicos, sendo também esta a orientação do meramente Politico Teixeira Santos e C.ia.
2 - Do Danial Amaral (DA) tenho saudades do seu pendor técnico e imparcial de quando começou a escrever para o jornal "O Jornal". É pena que ele não tenha sabido esclarecer o Sócrates dos perigos da Politica de despesismo que estava a prosseguir, provocando um galopante endividamento do País, sem querer saber quem vai pagar, como e quando. Mas estou convencido que para além da ignorância em matéria de equilibri financeiro o PM pretendia, acima de tudo, era resolver a vidinha de todos quanto são próximos e do Partido, para isso os Construtores e Sucateiros são o ideal, daí sermos um País de betão, alcatrão... , sem rumo e sem destino, devido à incompetência e à falta de ética e seriedade.
O DA mais parece uma guarda avançada do BE, PCP e do PS, que são os arautos do despesismo e dos principais responsáveis pela situação do País.
3 - O PIB tem um valor em torno dos 167 Bi e a divida do Estado é de 143 Bi (85,6%), DA, diga-me quem vai pagar esta dívida e os juros.
4 - O Estado deveria ser uma Entidade de bem, com grande respeito pelos dinheioros dos contribuintes, gastar o estritamente necessário de forma rigorosa, a fim do País ter um OE, com impostos moderados, e com um saldo positivo (superavit) e assim amortizar a dívida.
Os Politicos e Jornalistas não têm formação suficiente para governar e para informar o País, uma base sólida em matéria financeira, económica, matemática, ética e humanista é indispensável.
JG

JTS , | 29/10/10 12:48
Para ajudar tdo isto foi emitido um aviso de terrorismo...
Em Janeiro cuidado ao ver a conta bancária ou recibo do ordenado....
Alberto Original , | 29/10/10 11:11
Diagnóstico correcto mas incompleto. Um povo necessita de lideres esclarecidos e com Visão. A cultura de um povo para mudar precisa ou de situações traumáticas ou de lideres com Visão e Carisma. O ultimo lider com Visão que tivemos foi Mário Soares que nos levou à UE. Depois disso foi só Oportunismo e Carreirismo.
Temos agora uma situação traumática, precisamos de lideres com Visão para aproveitar esta oportunidade para mudar os hábitos culturais de despesismo e de exigir todos os direitos do mundo e esquecer deveres.
Já dizia Kennedy, pensa no que podes fazer pelo teu país e não o que ele pode fazer por ti.

LOPES CARLOS , Bruxelas | 29/10/10 10:14
1. Caro Senhor Realista, foi um crescimento anémico desde 2000 até 2009 ( já bem comprovado ! ) e , no futuro, será um fraco crescimento potencial de 2011 a 2017 ( previsões da OCDE) , que nos conduzem a balanças cronicamente desiquilibradas e a um endividamente externo bruto gigantesco !
Não resolve iludir isto com medidas extraodinarias irrepetiveis !
2. Neste momento falta TEMPO a Portugal e sobretudo há um muito perigoso DEFICE DE CONFIANçA.

LOPES CARLOS , Bruxelas | 29/10/10 10:07
1. Estimado Senhor Realista, é evidente que A solução ideal seria o aumento da produtividade e da competitividade relativa . Como essa não foi a via seguida, sobrava o reajustamento feito pela do via desemprego estrutural de longa duração. É evidente, Ca
2. É bom falar de mealheiros e de finanças, mas choca que diversas entidades tenham ido ao estrangeiro financiar-se furando diversos limites e tectos. Brevemente, vamos conhecer diversos casos dado o aperto de certos controles.

Realista , Porto | 29/10/10 09:43
Artigo correcto e claro, como é habitual. Queria só acrescentar 2 comentários. 1- A afirmação com que abre o artigo - "fizeram-no para salvar a face de Passos Coelho" - está correcta. Dadas as circunstancias, PPC devia logo no inicio ter declarado que se abstinha e nunca, mas nunca, deveria ter declarado no Pontal que não admitia aumento de impostos. 2- Para <Lopes Carlos> e outros "financeiros": a juntar centimos no porquinho mealheiro nem em 100 anos vamos lá, a solução, a única solução, só pode estar no crescimento económico.

APATRIDA , | 29/10/10 09:28
MAS O SECTOR EMPRASERIAL É NECESSARIO PARA LA METER OS BOYS7GIRLS DO PS E PSD. AS PARCERIAS PUBLICO PRIVADAS SÃO NECESSARIAS PARA SUSTENTAR OS MESMOS PARTIDOS. QUANTO A NÓS ESTAMOS FEITOS AO BIFE

Terra das perguntas , | 29/10/10 07:55

EXmo Sr. Zé do Boné,

Está enganado, porque o nosso presidente há anos que escreve livros sobre o que referiu, e fartou-se de avisar, ou não foi?

Cavaco é hora de ir embora!

Zé do Boné , | 29/10/10 07:26
Do artigo cito:

"Na origem deste delírio consumista estão três entidades. O Estado perdulário, que gastou o que tinha e o que não tinha numa voragem de desperdício sem limites. A Banca gananciosa, que jogou com a estabilidade do euro para entrar num facilitismo despudorado que apenas visava maximizar os lucros. E as famílias sem cabeça, que foram nesta onda tresloucada e hoje estão afogadas em dívidas que não conseguem pagar. A culpa é de todos!"

Se há culpa vamos julgar os culpados e deixar os inocentes de fora !!!

LOPES CARLOS , Bruxelas | 29/10/10 07:10
1. Excelente artigo ,como sempre, dum Autor sério e independente.
2. Como sou pessimista, considero que a real divida externa bruta é maior do que a prevista pelo Ilustre Autor. Dado o inevitavel aumento de rigor no acompanhamento da execução orçamental e da divida externa , aproxima-se o dis em que todos nós vamos assistir à descoberta do real montante das dividas de algumas entidades. Até vamos ficar a falar holandês.
3. As proximas duas legislaturas vão ser muito severas para todos. Todavia , alguns conseguiram garantir, através de contratos, já criticados pelo Venerando Tribunal de Contas , pagamentos de dezenas de milhares de milhões de euros durante três longas décadas. Como e quando vamos libertar meios para cumprir tais contratos ? Não hveria melhor alocação desses meios
para segurar algum emprego e garantir algum retorno efectivo ? Para onde vamos ?

publicado por ooraculo às 17:45
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