Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

A travessia do deserto

 A maior crítica que se pode fazer ao orçamento está na ausência de uma estratégia que vise o crescimento económico e a criação de emprego. E não faltam vozes capazes de definir este modelo: acréscimo do investimento e da produtividade, melhoria da competitividade, aposta forte nas exportações. Palmas para os seus mentores. Sugiro apenas que, antes de todo este entusiasmo, coloquem a si próprios esta pergunta: e como é que isso se faz?

A execução deste OE-2011, já aprovado na generalidade, envolve três grandes riscos: o risco de uma entrada em recessão, que só o Governo não quer ver; o risco de incumprimento do défice, com esta recessão implícita e as "ajudas" do PSD; e o risco de colapso do Serviço Nacional de Saúde, devido aos cortes impiedosos a que foi sujeito. Os orçamentos seguintes garantem desde já uma certeza: os défices previstos vão implicar sacrifícios adicionais.

De facto, uma projecção para 2013 põe a nu o que é a vertigem das nossas dívidas, a pública e a externa, da ordem dos 85% e 140% do PIB, respectivamente. Ambas precisam de ser corrigidas e ninguém sabe como fazê-lo. No primeiro caso, temos de passar de défices a excedentes orçamentais. E, no segundo, temos de cortar ainda mais nos salários. Eis o cenário para uma década: recessão, estagnação ou, na melhor das hipóteses, crescimento lento.

Mas a política não pára. Em 2011 vamos ter eleições, presumivelmente ganhas pelo PSD. E entra em cena Passos Coelho, para quem estes problemas são meros reflexos de um Governo incompetente e autista. É bom que assim seja. Porque lhe permite aprender duas coisas: que afinal não era tão fácil como pensava; e que também ele não tem soluções. Admito que, lá para o final de 2011, já se procure substituto. Vai ser um ano perdido.

É aqui que entra o professor Cavaco, entretanto reeleito, a dar voz à sua famosa magistratura activa: um Governo monopartidário não funciona e vamos ter de o alargar. O PCP e o Bloco, pelas posições conhecidas, estão fora de causa. E o próprio CDS poderá vir a aderir ou não. Mas há dois partidos que o "interesse do país" vai obrigar a entender-se: o PS e o PSD. Vão ter de ser eles, de mãos dadas, a fazer esta travessia do deserto.

É isto ou o caos.

 

ECONOMIA MARCA PASSO

Baixo crescimento...

(Valores anuais)

 ...grandes dívidas

(% do PIB)

   

 

*Triénio 2011-13 com números assumidos pelo autor.

 

O défice orçamental vai ser corrigido, mas não chega. E o défice externo vai prosseguir a sua louca caminhada para o abismo. Isto significa que, ao chegarmos a 2013, vamos deparar-nos com dois monstros glutões: a dívida pública e a dívida externa. Os nossos credores não vão perdoar, impondo-nos novos processos de consolidação. E o crescimento só pode ser uma miragem. A economia vai marcar passo - e não há alternativa.

 

Fontes: Governo, Banco de Portugal.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

Manuela Arcanjo , (Semanário Sol, 5/11/2010) | 05/11/10 17:48

(Semanário Sol, 5/11/2010) "Manuela Arcanjo, ex-ministra de António Guterres, diz que no lugar de Teixeira dos Santos se demitia, pois o ministro das Finanças não deve avalizar políticas sabendo que levarão ao desastre. E acrescenta que «há muito que não temos política económica». A ex-secretária de Estado do Orçamento e antiga ministra da Saúde critica o OE - Orçamento do Estado para 2011, classificando-o de irrealista, exagerado em medidas e pouco rigoroso. E diz que jamais estaria na posição do ministro das Finanças: já se teria demitido. Em entrevista, Manuela Arcanjo fala de falta de autoridade financeira de Teixeira dos Santos e garante que a tentaram corromper quando era ministra."

O sr. Daniel Amaral nunca esboçou uma criticazinha ao "engenheiro" do seu coração nestes seis anos... , ficou caladinho que nem um rato de 2004 até hoje... | 05/11/10 17:04


... mas agora o sr. Daniel Maral permite-se afirmar que o Passos Coelho vai ser escorraçado até ao fim do ano. Curioso.. Ó sr Daniel Amaral, e que tal confiar que pode vir um governo competente que acabe com a manipulação e incompetência do seu queriso e tão brilhante "engenheiro" Sócrates? Que acabe com a bagunça e arbitrariedade criminosas na gestão dos dinheiros públicos, por exemplo?

antonio , Lisboa | 05/11/10 16:29
Concordo com algumas das afirmações do Dr., mas já não concordo com a questão de um ano perdido até a união dos dois maiores partidos, acho que já perdemos muitos por causa destes Senhores e vamos perder muitos mais. Nenhum deles me parece interessado seriamente em resolver o problema do país. Parece-me que continuam a olhar para o seu (deles) umbigo e muito pouco preocupados com os Portugueses. A prova é que medidas para suster o desemprego e o crescimento economico so se houve falar em palavras soltas sem projectos concretos, nem que fosse a 10, 20 ou 30 anos, mas havia um rumo.Como estão todos preocupados é com eleições, pois são politicos profissionais e precisam do tachito quer ganhem quer percam vai ser muito dificil fazerem projectos com pés e cabeça para serem realizados a mais de 4 anos. Quase todas as medidas tomadas são avulsas e sempre com uma intenção: quando ha eleições satisfazemos os votantes com medidas populares, quando passam as eleições satisfazemos os lobbys, e todos aqueles que lhes podem garantir um emprego. Quando a coisa aperta e vem de fora então temos que satisfazer os Companheiros Europeus, sempre sem discutir com nenhuns, a serio, o que se pretende para este pequeno país (temos menos habitantes que as maiores cidades europeias).

Sócrates = palhaço mafioso ao serviço de interesses políticos e empresariais espanhóis , MAFIOSO, RUA ! | 05/11/10 11:47


Alguns dos compinchas do Sócrates já começaram a ser inquietados pela Justiça. Finalmente. Ao fim de seis longos anos. Mas a procissão ainda vai no adro. Falta essa falsa empresa privada que é a EDP do sr. Mexia e o roubo sistemático a que procedeu e continua a proceder à custa de todos os Portugueses com as criminosas vantagens de que beneficia e que lhe foram concedidas pelo Sócrates e as suas ruinosas tarifas "feed-in" (em contrapartida, a EDP estoirou milhões e milhões de euros em propaganda pró-Sócrates, sobretudo no ano de 2009, ano de eleições). Falta também o BES. Falemos um pouco do BES: em todos os momentos de apuro do "engenheiro" Sócrates o sr. Ricardo Espírito Santo Salgado veio a terreiro defender a sua dama e manipular a imprensa. Ainda há dias veio todo sisudo reclamar austeridade. Depois de há dois anos o seu Banco (cuja sede se encontra no Luxemburgo...) ter sido salvo com o dinheiro e o aval de todos os contribuintes Portugueses...Também ele gastou milhões em publicidade institucional pró-Sócrates. Qual o retorno para o BES? Tudo… Ao BES nada é recusado. Mas vou dar apenas um exemplo: o BES gere ilegalmente (de forma não declarada, sem que ninguém pague impostos) os dinheiros da petrolífera venezuelana PVDSA, retirados da Venezuela clandestinamente a mando do Hugo Chavez e com a conivência de Sócrates. Não acreditam? Pois investiguem um pouco, "tuguinhas" ingénuos e acomodados...

Maria do Porto , PORTO | 05/11/10 10:07
(CONCLUSÃO do meu comentário anterior)


7. Imposição legal de fixar os Spreads máximos da Banca a 1,5 pontos percentuais, para investimentos ou apoio de tesouraria das empresas e empresários. Lançamento maciço de Dívida Pública Interna, que substitua a Dívida Publica Externa através de Dois mecanismos:
- Portugal paga actualmente, e com tendência para agravamento, taxas de juro da Dívida Publica a 6%.

- os Certificados de Aforro deveriam a ser remunerados a 4% brutos; dever-se-ia lançar Obrigações do Tesouro à mesma Taxa, impedindo a Banca de lhes aceder.

Estes dois mecanismos podem ser lançados pela Junta de Crédito Público e FICAR FORA DA ESPECULAÇÂO FINANCEIRA! Efeitos breves: maior poupança das famílias, maior liquidez do Estado, menores importações financeiras.

(Isto é, o Estado português passa a ser devedor dos Portugueses – e não de financiamento estrangeiro. Os Portugueses vêem as suas poupanças rentabilizadas.)


Estas propostas são de um grande ECONOMISTA, que podia salvar o país!

Mas o Dr. Mattos Chaves tem um defeito imperdoável, que o impede de ser ouvido: é um homem da DIREITA, próximo do CDS/PP...
E enquanto o país continuar a ostracizar este partido, as "soluções" velhas, gastas, estafadas, continuarão a vir do PSD...

Maria do Porto , PORTO | 05/11/10 10:04
Ora aqui vão sugestões objectivas do Dr. Mattos Chaves, para promover o crescimento económico, e financiar o país com menor recurso ao exterior. Não é simples, mas é realizável. Só não são levadas a termpo porque este grande senhor é próximo do CDS/P, e não dos tais 2 partidos que se alternam no Poder...
1. Re-Industrializar o país, em áreas de produção pouco passíveis de deslocalização: a Industria é criadora de emprego de cariz muito mais duradouro e estável do que no sector terciário;

2.Criar um Mecanismo REAL de apoio e financiamento a Novos Projectos, que analise os méritos do projecto e do seu Promotor, e os financie e acompanhe a 100%, evitando a sangria de novos empreendedores (que têm ido para o estrangeiro implementar as suas ideias por falta de apoio REAL na sua terra)

3. Corrigir Assimetrias do Território, pela dotação do eixo interior Vila Real de Sto António/Bragança com estruturas de Comunicação rodoviária e ferroviária, com ligação às vias transversais já construídas (resultado: maior mobilidade às população e aos empresários nas suas ligações ao litoral e aos mercados internacionais)

4. Exploração do Mar Territorial e o Mar Económico Exclusivo (juntos, são 3 Milhões de km2). Para isso: rearmar as Marinhas de Pesca, de Transporte de Mercadorias e a de Guerra! (Defender os nossos recursos económicos da exploração indevida de estranhos, e defender o território de várias ameaças, como a imigração ilegal, o tráfico de pessoas, de droga, e de armamento para destinos árabes,...)

5. Recuperar e Especializar os Portos Nacionais, nomeadamente: Viana do Castelo, Leixões, Lisboa, Setúbal e Sines, dotando-os dos sofisticados meios de movimentação de bens e manipulação de cargas (reduziria os custos de exploração, tornando-os mais atractivos para os operadores internacionais - podemos ser a maior plataforma logística e de transporte da Europa!)

6.Reorientar o Turismo para um "Turismo de Pessoas com Dinheiro" com as inerentes poupanças em desgastes, e os evidentes benefícios em receitas....

7. Imposição legal de fixar os Spreads máximos da Banca a 1,5 pontos percentuais, para investimentos ou apoio de tesouraria das empresas e empresários. Lançamento maciço de Dívida Pública Interna, que substitua a Dívida Publica Externa através de Dois mecanismos:
- Portugal paga actualmente, e com tendência para agravamento, taxas de juro da Dívida Publica a 6%.

- os Certificados de Aforro deveriam a ser remunerados a 4% brutos; dever-se-ia lançar Obrigações do Tesouro à mesma Taxa, impedindo a Banca de lhes aceder.

Estes dois mecanismos podem ser lançados pela Junta de Crédito Público e FICAR FORA DA ESPECULAÇÂO FINANCEIRA! Efeitos breves: maior poupança das famílias, ma

Carlos , Lisboa | 05/11/10 09:30
O diagnóstico que faz é claro embora repetido por todos nós economistas já com mais de 20 anos de experiência.
Neste país, já o disse várias vezes é que nós temos execlentes CEO's a cortar custos mas não temos tantos como seria desejável a angariar proveitos.
A mesma coisa relativamente aos comentaristas e o Dr. Daniel Amaral sofre do mesmo mal. Diagnostica bem mas o que sugere para melhorar a situação do País?
LOPES CARLOS , Bruxelas | 05/11/10 09:18
1. Mais uma vêz um excelente artigo !
2. Seja qual for o Governo, vai ser muito dificil governar Portugal até 2013. E depois de 2014 será uma tarefa quase "impossivel".
3. Na verdade , nos proximos 8 anos Portugal vai ter de ultrapassar uma série de obstáculos : identificação de inumeras dividas ocultadas , correcção de muitos tectos legais furados por inumeras Entidades de diversos niveis, pagamento de dezenas de milhares de milhões de euros em PPPs,etc. Tudo isto num quadro de fundo caracterizado por um desemprego estrutural maciço, uma quebra do rendimentos nacionais disponiveis e uma quebra do PIB.
4. As medidas previstas desde 2/2/2006 vão MESMO ser aplicadas ( as tais medidas "exóticas") e a unica escapatoria provisoria vai ser enormes reescalonamentos da divida externa ( publica e privada).
5. Não adianta misturar as dificuldades internacionais e europeias com os nossos erros e deficiencias estruturais bem nacionais. Não é sério .

Mandrake , | 05/11/10 09:03

Sr. Daniel Amaral.

Passo a citar da sua crónica:

" Mas há dois partidos que o "interesse do país" vai obrigar a entender-se: o PS e o PSD. Vão ter de ser eles, de mãos dadas, a fazer esta travessia do deserto".

Mas não foram estes dois partidos com a ajuda do CDS, que mandaram este país para a insolvência?

Realista , Porto | 05/11/10 09:00
Concordo mais uma vez com o artigo. Queria acrescentar duas notas. 1- Esquecemo-nos frequentemente, e o autor parace tambem ter esquecido, que estamos no meio de uma crise internacional e que os nossos problemas e possiveis soluções dependem mais de terceiros que de nós. Por exemplo, andamos todos aflitos a tentar relacionar o aumento dos juros da dívida com o orçamento. Ora a subida foi generalizada e tem explicações que não se relacionam co Portugal. A Espanha vendeu ontem dívida (creio que a 3 ou 5 anos) a juros quase no seu máximo. Começo a pensar que se aproxima o fim do euro ou, pelo menos, do euro actual. 2- Passos Coelho tem revelado uma impreparação aflitiva, reconhecida aliás, pelos seus camaradas mais velhos do PSD. Não basta querer-se ser PM e fazer umas declarações estudadas de vez em quando. Mesmo para o PSD o melhor seria esse tal governo do bloco central que desse mais estabilidade ao país e mais experiencia a PPP.

Lápis Azul , | 05/11/10 08:49

Exmo Sr. Daniel Amaral.

As suas crónicas valem pelo diagnóstico, mas e a terapeutica?

Crescimento económico como?

Com empresas de serviços?

Com Bancos e sucedaneos?

Equidade fiscal onde anda (veja-se o caso dos Bancos) ?

A industria em Portugal está moribunda lamentávelmente,porque neste país ganha mais um carteiro que um torneiro mecanico.

Porque neste país de corporaçõezinhas e de parolismos balofos um engravatado é um "Dr",

Porque neste país os noticiários enchem-se de de Bancos e sucedaneos, de "futebois" e companhia.

"Com papas e bolos continuam a engar-se os tolos".

Estou plenamente de acordo consigo, que isto só pode dar tragédia e talvêz bem maior que a grega...
publicado por ooraculo às 18:16
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