Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010

O emprego solidário

O director-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, a propósito desta crise maldita que já destruiu 30 milhões de empregos em todo o mundo, definiu aquilo que considera serem as três prioridades do momento: criar emprego, criar emprego e criar emprego. Assino por baixo. A dimensão deste flagelo, sobretudo nas economias a que chamamos avançadas, é hoje o problema mais grave com que vamos ter de nos confrontar. Que fazer?

Imaginemos um país com 10 milhões de residentes e 6 milhões de população activa, dos quais 5,4 milhões estão empregados e os restantes 600 mil (10%) no desemprego. E admitamos que as partes se punham de acordo para cortar 10% nos salários e no tempo de trabalho, fazendo a compensação com mais emprego. A produção seria a mesma, com os mesmos custos, e os 600 mil desempregados seriam todos absorvidos.

Chamar-lhe-íamos emprego solidário.

Claro que estou a simplificar. As coisas não são tão fáceis assim. Mas isso não invalida que, no essencial, a tese seja defensável: em situações de crise grave no mercado de trabalho, como é esta em que vivemos, os que têm tudo deveriam sacrificar uma parte para oferecer àqueles que não têm nada. Esta seria, de resto, uma solução transitória: logo que a retoma voltasse, com mais procura, repor-se-iam os valores iniciais - agora com um emprego mais alto.

O país imaginário de que falei acima não se afasta muito da realidade portuguesa. E o modelo preconizado não se esgota na criação de emprego. Poderia actuar antes disso, quando a crise chegasse, obstando a que houvesse despedimentos. Condição prévia: a flexibilidade nas leis laborais - exactamente a condição que os nossos sindicatos sempre rejeitaram. Compreendo as razões, mas penso que o tema deveria ser debatido em sede de concertação social.

Uma última nota para situar os EUA e a Alemanha. Os americanos privilegiaram os apoios orçamentais à economia; os alemães preferiram controlar os défices e defender o emprego. Hoje comparam-se os números e o contraste é demolidor: o défice público na Alemanha é de 3% do PIB e nos EUA de 12,5%; e enquanto o desemprego alemão é idêntico ao que existia antes da crise (7,5%) o americano disparou para quase o dobro (10%).

Um país vale o que valerem as suas opções.

 

AMÉRICA VS. ALEMANHA

Políticas diferentes...

 

(Saldo orçamental, % do PIB)

....diferentes resultados

 

(Desemprego, % da p. activa)

   

Os EUA privilegiaram os estímulos à economia e chegaram a um défice de 12,5% do PIB. A Alemanha seguiu o caminho inverso e ficou-se pelos 3%. Os reflexos no mundo laboral não poderiam ser mais antagónicos: a Alemanha tem o mesmo desemprego que tinha antes da crise; os EUA elevaram-no para quase o dobro. Méritos da Alemanha: reduziu os horários para aumentar o emprego e o PIB está a crescer mais de 3% ao ano.

 

Fonte: Eurostat

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


 

Comentários

EU GAMADOR , | 12/11/10 14:51
Quero declarar que sou o maior Democrata do Mundo , desde que :

- isso me permita dar pon tapé na PEI DA a tudo o que possa achar que me está a impedir LIBERALMENTE de acumular Riqueza :

e também que a democracia se chame NAZI / Fascismo

S. Martinho, Daniel Amaral e a Economia , | 12/11/10 12:19
Finda a seara e a vindima - fervido o mosto, aberta a bica... apanha-se a "fagulha", atea-se o fogo, assam-se as castanhas, prova-se a pinga. É um recordar do calor do verão. É dia de extravagância e de folia!

Mas, quem foi S. Martinho? Conta a lenda que no norte da Gália um jovem soldado romano (337 d.c.) enquanto fazia a ronda viu um mendigo perdir-lhe esmola. Como não trazia dinheiro e o dia era de gélido inverno, o soldado desembainhou a espada e cortou a sua capa em duas, que partilhou com o mendigo. Ao partir, o sol radiou, e, do frio e chuvoso dia inverno se fez verão... o "verão de S. Martinho! (Conta-se ainda que este episódio foi sucedido de uma visão, que o fez santo).

O que Daniel Amaral vem propor nesta quadra é que sejamos como S. Martinho. e que partilhemos a nossa capa. Pois só dessa forma, para lá da generosidade do gesto, as nuvens dissipar-se-ão (e o sol de novo brilhará na nossa Economia).

Breve ensaio sobre Amor e Poder , | 12/11/10 11:31
Caro, Daniel Amaral, as suas palavras encerram o que há de mais libertador no universo: o AMOR!. Contudo, como o "reino" que apregoa "não é deste mundo", há entre o voto celestial do amor e o poder material das formas latentes, um conflito...

"Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro." - Carl Gustav Jung. Porque, "O amor é um conflito entre nossos reflexos e nossas reflexões." - Magnus Hirschfeld

E, no entanto, considerai... "Na raiz de quase todas as misérias materiais e, sobretudo, morais, está uma falta de amor, uma fome de afeição que não foi satisfeita. - Georges Arnold

- Desta forma, por incompreendido ou inconsequente que se afigure o seu artigo, não se resigne...

"O amor é a força mais subtil do mundo"- Mahatma Gandhi. " [...] É o nosso estado natural quando não optamos pela dor, pelo medo ou pela culpa" - Willis Harman e Howard Rheingold. Portanto, "Nunca lamente uma ilusão perdida, pois não haveria fruto se a flor não caísse ". - Thaysa M. Dutra. Pois, "O amor é uma flor delicada, mas é preciso ter a coragem de ir colhê-la à beira de um precipício aterrador." - Storm (João Teodoro Woldsen)

- Mas serão, em súmula, suas palavras vãs, deprovidas de propósito e carentes de acção?
Ora, que outro fim poderemos dar à nossa existência senão a incessante busca pela FELICIDADE? "Para fazer uma obra de arte não basta ter talento, não basta ter força, é preciso também viver um grande amor" - Mozart. E só "Um coração feliz é o resultado inevitável de um coração ardente de amor" - Madre Teresa

E, no limite, há a esperança: "Um sonho sonhado sozinho é um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade." - Raul Seixas.
Para cumprir o sonho, um (o único) ensinamento: «Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei!» (Jo 13, 14)

Lito D'Almada , Almada | 12/11/10 11:26
Caro EN GANADOR, se ficou entusiasmado experimente ler o livro. Chama-se Galaxia 8 - O Planeta Espelho, e foi editado pela Verbo em 1980. Verá como gostaria de viver num mundo assim! Claro que nem tudo são rosas! Por exemplo não precisava de dinheiro no banco porque não tinha nada para comprar. As máquinas eram controladas por um aparelho Estatal Humano com um exército próprio que não deixava ninguem pôr o pé em ramo verde, etc. etc., Só lendo...! Mas não sei se num futuro, não iremos para qualquer coisa a tender para este género quando as máquinas se sobrepuserem aos humanos!

EN GANADOR , PORTO | 12/11/10 10:51
Caro Lito D,almada,

Esse tal "Planeta Espelho" era mesmo os que os portugueses sonham! Eh pá! Maravilha! As máquinas trabalharem por nós, e nós a vermos a conta bancária a subir - ESPETÁCULO!
Agora a sério.....partindo do princípio que as máquinas tudo faziam e que se distribuia correctamente as receitas, sobra aqui o tal velho problema - QUEM É QUE GERIA AS MÁQUINAS? E será que esses gestores não se iriam deslumbrar com tamanho poder dos Deuses? Finalmente, e recordando um velho filme conhecido "2001 Odisseia no espaço" - Será que as máquinas não se poderiam revoltar com tamanha escravidão ingrata?

Lito D'Almada , Almada | 12/11/10 09:57
Uma vez li um livro que se chamava "O Planeta Espelho"! Nunca esqueci o seu conteudo! E cada vez penso mais naquele sistema quando tentam utilizar o desemprego como a causa principal do sistema! Pois, no Planeta Espelho, ninguem trabalhava, mas não faltava nada a ninguem. Tudo era feito por máquinas. Elas dominavam a situação e geravam o suficiente para todos sem precisarem do esforço humano! Claro que isto é surreal, e cheira a ficção. Mas se aprofundar bem a questão e olhar para as novas tecnologias cada vez mais avançadas, talvez não esteja a fugir assim tanto de uma possivel realidade! É preciso é que as máquinas desenvolvam e produzam bastante que chegue para todos, e principalmente que seja bem distribuido!

Realista , Porto | 12/11/10 09:44
Já é a segunda vez que o autor aborda este assunto e ele é de facto importante. Com a entrada em força da China, com os seus 1.300 milhoes, na prodição industrial global é evidente que se vão perder (já estão a desaparecer) muitos dos empregos do ocidente. Mesmo quando ultrapassarmos a crise actual muito do desemprego actual vai manter-se. E é por isso necessario começarmos a falar em redistribuição do trabalho, tal como antes falávamos em redistribuição da riquesa. E a solução já aí está, só que muito mal explicada e defendida: A FLEXIBILIDADE LABORAL. É preciso vencer o conservadorismo (para não dizer dictadura) dos sindicatos. E, pensando bem, porque é que toda a gente tem que trabalhar 8 horas por dia e 5 dias por semana? Se eu quiser trabalhar apenas 4 horas e ganhar 50% ha algum mal nisso? <Lopes Carlos> fala do caso da Holanda. Eu sempre estive convencido que o baixo desemprego holandês está relacionado com o trabalho a tempo parcial e com a flexibilização.
MAS DISCORDO TOTALMENTE DO ÚLTIMO PARÁGRAFO DO ARTIGO. NÃO SÃO AS POLÍTICAS DESSA SENHORA MAS SIM O ESPÍRITO E CULTURA DOS ALEMÃES QUE EXPLICAM O SUCESSO (ACTUAL) DA ALEMANHA.

EN GANADOR , PORTO | 12/11/10 09:42
Quando se fala de liberalizar os despedimentos, isto é logo apelidado de Nazis e Fascistas!
Com um povinho tão retrógrado e medroso, qualquer coisa que se tente fazer para alterar algo que está mal, torna-se quase impossível. Vêja-se os casos seguintes:

-Despejos imediatos por falta de pagamento das rendas
-Liberalização de despedimentos
-Prisão efectiva para gestores de cargos públicos por corrupção (e privados também)
-Pesadas penas por desprezar as regras de concorrência (telecomunicações, energia, combustíveis, banca, etc)
-Responsabilização CRIMINAL A "ENTIDADES REGULADORAS", que não exercem as suas competencias, quando evidente a sua inoperãncia (veja-se os casos dos combustíveis, dos arredondamentos da milésima por pate da banca, etc)
-Responsabilização CRIMINAL DOS MAGISTRADOS em casos aberrantes de atrasos processuais - UM PAÍS EM QUE OS TRIBUNAIS FUNCIONAM PÉSSIMAMENTE, COM ATRASOS CONSTANTES E "PRESCRIÇÕES DUVIDOSAS", NÃO PERMITE QUE SE VIVA EM DEMOCRACIA ABSOLUTA, POIS A IGUALDADE DE DIREITOS É VICIADA! Não é este o modelo de democracia e liberdade que se pretende! A democracia é o resultado prático de todos os mecanismos do Estado - Não se pode cingir a um enunciado de palavras na Constituição.

Xxx , | 12/11/10 09:30
Esta proposta iria diminuir bastante mais a já baixa produtividade em Portugal. Ora este senhor passa o tempo a pregar contra a baixa produtividade. Em que é que ficamos? Parece que ninguém sabe muito bem o que fazer.

O FIM DO TRABALHO . , | 12/11/10 08:10

Basta ler o livro de Jeremy Rifkin :

- "The End of the Work" (existe tradução em brasileiro),

Para ficarmos perplexos como com muitos anos de antecedencia este economista "mal-amado", previu com exactidão onde nos levaram as politicas socias e económicas que abraçamos.... E as soluções preconizadas pelo mesmo.

trucla , | 12/11/10 07:55
Ó Sr. Amaral... isso é tudo muito bonito... se funcionasse! Em primeiro lugar, a rigidez no mercado de trabalho nunca permitiria que isso acontecesse, uma vez que os empregadores dificilmente conseguiriam a flexibilidade para fazer as coisas dessa forma (vá lá convencer os políticos a adoptar medidas de flexibilização laboral, mesmo que temporárias!). Em segundo lugar, há um problema de produtividade - semelhante esquema poderia ter implicações muito negativas no output por trabalhador, uma vez que, por princípio, os novos entrantes teriam uma produtividade mais baixa do que os já empregados. Aliás, e é estranho que não se lembre, temos uma experiência recente e parecida bem perto de nós: foi na França. Tratou-se da semana de trabalho de 35 h, e foi um fracasso monumental!
Ah! E obviamente existe o problema de convencer os que já estão empregados a prescindir de 10% dos salários, mesmo com redução do tempo de trabalho! Enfim, com propostas irreais destas não vamos lá. O caso da Alemanha é especial e deve ser enquadrado num contexto que o autor omitiu, nomeadamente no que diz respeito ao peso do sector exportador na economia Alemã (vs. EUA, por exemplo). Eu sei que o espaço da coluna é pequeno, mas uma coisa é resumir, outra é sobresimplificar...

LOPES CARLOS , Bruxelas | 12/11/10 07:39
1. Os dois unicos Estados europeus com menos de 4°/° de Trabalhadores desempregados são a HOLANDA e a AUSTRIA . O que têm eles em comum: Flexisegurança.
2. Refiro-me à Flexisegurança à séria, integral , que exige no primeiro ano um sério investimento. Na Holanda , a introdução da Flexisegurança custou um suplemento social de 100 milhões de euros. Mas valeu bem a pena. Perguntem aos Trabalhadores Holandeses !
3. Atenção, não me estou a referir a uma mini-flexisegurança baseada quase só na adaptabilidade.

LOPES CARLOS , Bruxelas | 12/11/10 06:49
1. Artigo muito bem elaborado e fundamentado.
2. O Trabalho " Abrigado" ou Emprego no "Terceiro Sector" pode ser uma resposta util em tempos de desemprego estrutural de longa duração.
3. Porém, algumas distorções do Mercado Interno ( grandes diferenças nos custos unitarios de cada hora trabalhada e encargos acessorios, regras ambientais, direito do trabalho, OGMs, custos logisticos, etc) podem contribuir e têm contribuido para "redistribuir" o trabalho no interior da UE-27. Uma analise mais fina , permite detectar "novas especializações nacionais " no interior mesmo de cadeias de valor acrescentado como, por exemplo, com Estados a criar animais e outros Estados a tratar de tudo o que é abate industrial e tratamento das carcassas de bovinos e porcinos e operações subsequentes.
4. Acresce que nos ultimos anos, temos assistido a nivel global à maior operação de redistribuição das horas trabalhadas de toda a Historia da Humanidade ( ascenso do Oriente e declineo dos EUA e do Japão)

publicado por ooraculo às 18:21
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