Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

A outra dívida

Os episódios à volta da dívida soberana – os juros são ou não são comportáveis, vem ou não vem o FMI, saímos ou não saímos do euro – estoiraram com a resistência do país. Estamos em estado de choque. E com isso quase esquecemos a outra dívida, a externa: 510 mil milhões de euros, parcialmente compensados com 330 de créditos semelhantes, de que sobra uma dívida líquida de 180 mil milhões - 110% do PIB, uma loucura. Como sair disto?

Comecemos pelo princípio. A Zona euro no seu conjunto, nas suas relações com o exterior, tem uma balança praticamente equilibrada. Mas os países que a integram nem por isso: eles estão divididos em dois grandes grupos, os bons e os maus, incluindo nestes últimos os famosos PIIGS. Portugal é um dos maus, com défices da ordem dos 10% do PIB. E aqueles 180 mil milhões são o reflexo dos múltiplos desequilíbrios ao longo de várias décadas.

Chegados a este ponto, a tentação é procurar os culpados e "esfolá-los vivos", equilibrando as receitas com as despesas logo a seguir. Mas vamos ser razoáveis: o problema não é tão fácil assim e a própria dívida ainda vai ter de aumentar. A mensagem a passar é outra: precisamos de um plano eficaz, a não mais de cinco anos, para eliminar este défice. A dívida ficará para depois. Será o próprio crescimento económico a desembaraçar-se dessa missão.

Em teoria, este plano deveria ser fácil de gerir. Na área económica, é preciso aumentar a poupança para financiar o investimento, canalizar este investimento para os bens transaccionáveis e, no limite, aumentar a produtividade nacional. O destino dos produtos é indiferente: pode ser a exportação ou a substituição de importações. O problema está na área política: que fazer para sentar à mesa, e pôr de acordo, pelo menos o PS e o PSD?

Que a guerra comercial está ao rubro provou-o uma vez mais o G20, que no último fim-de-semana reuniu em Seul. Os EUA e a China acusaram-se mutuamente daquilo que ambos fazem: desvalorizações competitivas da moeda. E a Europa fez de mexilhão, apanhando por tabela dos dois lados.

Portugal ficou à margem desta guerra, sem deixar de estar em "guerra" com o mundo: a nossa balança externa tem de procurar o equilíbrio, ponto final.

A hora é de tudo ou nada.

 


NÓS E OS OUTROS

Equilíbrio instável...

 

(Balança corrente, % do PIB)

 ... barco ao fundo

 

 (Balança corrente, % do PIB)

 

Encarada no seu conjunto, a Zona euro tem uma balança comercial praticamente equilibrada. Mas no seu interior estão dois grupos antagónicos: de um lado, os excedentários, com particular destaque para a Alemanha e para a Holanda; do outro, os deficitários, com destaque para os PIIGS, de onde sobressaem a Grécia e Portugal. Fosse a Europa do euro uma zona solidária e não seria difícil universalizar o equilíbrio...

 

Fontes: Eurostat, The Economist.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

Comentários

«Jangada de Pedra» - Portugal e Espanha ensaiam "União monetária ibérica" , | 19/11/10 11:06
«Jangada de Pedra» é aquela célebre obra (publicada em 1986 - ano da adesão de Portugal e Espanha à então CEE) em que o Nobel Saramago ficciona a desagregação da Península Ibérica do restante continente europeu.

Nos últimos dias várias manifestações de opinião ditam o fim da zona euro - ou, pelo menos, a sua reorganização geográfica, política e económica, na qual não cabem as economias periféricas. Neste quadro, pergunto:

- E se Portugal e Espanha - integrados na mesma penínsla e num mercado ibérico comum, partilhando afinidades históricas, sociais, cultural e económicas, e, com desafios e interesses geopolíticos idênticos no mundo (África, América Latina, Europa) procurassem - de forma mutuamente vantajosa e respeitosa para ambas partes - definir os moldes de uma «União Monetária Ibérica».

«A Península parou o seu movimento de rotação, desce agora a prumo, em direção ao sul, entre África e América Central..., E a sua forma, inesperada para quem ainda tiver nos olhos e no mapa a antiga posição, parece gêmea dos
continentes que a ladeiam.» [pag. 310]

Xxx , | 19/11/10 09:53
Portugal é o Trás-os-Montes da Europa. Trás-os-Montes também só subsiste com a solidariedade das regiões mais ricas de Portugal. O mesmo tem que acontecer na UE ou então cada vez iremos ficar mais pobres.

Realista , Porto | 19/11/10 09:48
Concordo com o artigo - o Dr Daniel Amaral tem a noção de que é necessario planear o crescimento, ao contrario dos neolibs - mas gostaria de apresentar algumas discordancias. 1- Acabem lá com essa historia (teoria?) dos bens transaccionaveis e exportaveis. Nós temos que começar por reduzir importações,de petroleo, por exemplo, (que representa perto de 40%), mas tambem de produtos agrícolas e de pescas. Temos condições para isso. 2- Depois temos que aproveitar melhor as nossas potencialidades independentemente de estarem ou não no sector transaccionavel. O turismo ainda tem muito para crescer. O porto de Sines, por exemplo. Porque ninguem fala nele? 3- O nosso problema não é bem o desacordo entre PS e PSD. O nosso problema, ao contrario dos espanhois, por exemplo, é que o pensamento neolib é predominante no nosso país. E assim não vamos lá. No nosso país tem que ser o Estado a planear e a promover o crescimento.

Zé do Boné. , | 19/11/10 08:52
Exmo Sr. Daniel Amaral.

Acha expectável que países que produzem, tem industrias, sabem fazer coisas,exportam para o Mundo inteiro, alimentem países que o não fazem?

Acha que os milhões que foram injectados pela Alemanha já não voltaram para lá, na margem de lucro dos Mercedes dos BMW's e dos Audis que os portugueses ávidamente compraram e compram a crédito a perder de vista?

O Pai Natal na Economia ainda está para ser inventado....
publicado por ooraculo às 18:31
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