Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

O euro está em risco

 Bruxelas, 01 de Janeiro de 1999. Um grupo seleccionado de onze países assume o enorme desafio de criar o euro, que viria a entrar em circulação três anos depois. Portugal é um deles. Para trás tinham ficado os chamados "critérios de convergência", associados a indicadores os mais diversos que foi preciso respeitar: finanças públicas, flutuações cambiais, taxas de juro e estabilidade de preços. Passaram quase 12 anos. Que balanço é possível fazer?

Vou ser selectivo. A nossa produtividade era da ordem dos 50% da média e não melhorou. E o nosso rendimento ‘per capita', corrigido da paridade de poder de compra, era de 72% da média e assim se mantém. Mas, na zona euro, o peso dos salários no PIB estabilizou e o nosso subiu. E o seu comércio externo está equilibrado e o nosso com défices de enlouquecer. Não se pense que o euro falhou. Fomos nós que não o soubemos aproveitar.

Ao endividamento louco veio juntar-se a maior crise dos últimos 80 anos. E o Governo perdeu o controlo das finanças públicas, ao mesmo tempo que as oposições se entretinham a dar tiros nos pés. Masoquismo puro. Hoje estamos num beco sem saída: os mercados já não confiam em nós; as taxas de juro dispararam; e eu não vejo alternativa que não seja seguir os exemplos da Grécia e da Irlanda para evitar a bancarrota. Aqui entra o FMI.

Agora respirem fundo. Em países com problemas iguais aos nossos, a principal medida a adoptar pelo FMI é a desvalorização da moeda. Mas ele não pode desvalorizar o euro, nem isso resolveria o que quer que fosse. E Portugal não pode ser expulso, porque os tratados o não permitem. Que fazer? Só vejo uma saída. O FMI, que é muito nosso amigo, vai fazer-nos uma proposta que nós não podemos recusar: seremos nós a pedir a exclusão.
Quer isto dizer que a saída é inevitável? Não. Apenas que o risco existe. E, a concretizar-se, seria o pior que nos poderia acontecer. Já nem falo do descrédito para a classe política. Falo sobretudo da economia e das pessoas: desvalorizações impiedosas, cortes abruptos nos salários, uma dívida externa arrepiante. As contas são fáceis de fazer: se a dívida for de 100 e a desvalorização de 30%, a dívida dispara para 100/0,7=143. Como vamos pagar?

Coitados dos nossos netos.

 

MEDIOCRIDADES

Baixa produtividade...

(Produtividade/hora, UE=100)

 ...baixo rendimento

(PIB ‘per capita', UE=100*)

 

 

A produtividade do trabalho em Portugal é igual a 56% da média da Zona euro e a 47% da dos Estados Unidos: as diferenças são abissais e sem indícios de melhoria. Quando se passa aos rendimentos ‘per capita', e uma vez queo nosso nível de preços é mais baixo, o confronto melhora um pouco, mas ainda assim ficamos a 73% e 54% dos outros, respectivamente. Em matéria de desempenho somos um país de medíocres.

Fonte: Eurostat.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

Uma nova moeda ibérica? , | 26/11/10 17:12
População: Portugal: 11.317.192 hab.; Espanha: 46.661.950; União Ibérica:57.979.142 (ranking UE: 5º - Alemanha, França, Reino Unido, UIbérica - 2009)

Falantes Português Espanhol: 608 Milhões (Inglês: 508 Milhões)

PIB UIbérica: 1.606.371 Milhões USD (FMI 2009 - ranking global: 8º)

Trocas comerciais Portugal - Espanha (%) (2005)
Portugal - exporatações para Espanha: 25.9% do total (ranking: 1º).
Portugal - importações oriundas de Epanha: 29% do total (ranking: 1º)
Espanha - exportações para Portugal: 9.4% do total (ranking: 3º)
Espanha - importações oriundas de Portugal: 3.3% do total (ranking: 8º)

Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Iberismo

Em vez da UE, eles preferiam o renascimento do Bloco de Leste , | 26/11/10 11:32
Entretanto, os comunistas não páram de reivindicar, na Assembleia da República por mais distribuição disto, daquilo e daqueloutro, assim como aumento do que já existe distribuido, de que são exemplos subsídios das mais variadas espécies.
Fazem-no movidos exclusivamente por motivos demagógicos e populistas, visto que é muito simples e politicamente correcto, como agora se diz, fazer de Pai Natal e oferecer o que não se tem e muito menos se sabe aonde o ir buscar.

Foi com gestão ruinosa igualmente que todos os Estados comunistas da defunta Europa de Leste implodiram.
Não ficaria mal a estes deputados comunas da AR um pouco mais de contenção e vergonha nas propostas despesistas que apresentam.

ALGUMA DÚVIDA ? , | 26/11/10 11:14
" O EURO ESTÁ EM RISCO " diz a notícia.
Não foi sem motivo que as Agências de "Rating" andaram todo este tempo a deitar mais achas para uma fogueira que já era grande.
Têm-no feito, claro está, a expensas dos interesses dos EUA, o seu País.

Alguma dúvida ?

Xxx , | 26/11/10 09:59
De facto não temos nada a ver com a Irlanda. Eles têm rendimentos e uma produtividade muito mas muito superior à nossa.

Realista , Porto | 26/11/10 09:29
Não, não, não! Desta vez o autor, com o qual concordo muitas vezes, acordou mal disposto. Ainda aceito, embora não aposte, que a entrada do FMI seja inevitavel, mas essa história de sair do euro...não! E atrevo-me a fazer uma sugestão. SE O FMI VIER, PORTUGAL DEVE ACEITAR AS "MALDADES" QUE ELE VAI RECOMENDAR MAS COM UMA CONTRAPARTIDA: QUE NOS APOIEM COM INVESTIMENTO. QUE NOS AJUDEM A FAZER A AEROPORTO, A FAZER O TGV, A DESENVOLVER SINES, ETC. Porque o nosso verdadeiro problema está aqui: parámos no tempo, nos últimos 10 anos, enquanto os outros paises andaram para a frente. Na vizinha Espanha, da qual tambem se diz que vai ter que recorrer ao FMI, os investimentos públicos abrandaram mas não pararam. Ainda este ano vão inaugurar a ligação AVE Madrid-Valencia. Mas lá o investimento público é uma questão pacífica entre todos os partidos.

joão , | 26/11/10 08:54
tenho uma ideia melhor, a alemanha que saia do euro e depois quero-os ver a exportar alegremente à custa de uma moeda subvalorizada pela manutenção dos países periféricos na união monetária.

LOPES CARLOS , Bruxelas | 26/11/10 07:24
1. O EURO sobreviverá. Há muitos Estados a nivel global que querem um EURO forte e independente face a um US DOLLAR declinante .
2. Apenas desejam o fim do EURO aqueles que são contra a integração monetária e económica europeia. Todavia, importa criar novos mecanismos financeiros e outros , com sanções severas para os prevaricadores. E, sobretudo, uma verdadeira coordenação rconomica, financeira e fiscal a nivel europeu. Basta de "meias-doses" !
3. Desde 2003 vários Professores Universitários , incluindo o Sr Prof Cavaco Silva ( U.C.P.), tinham alertado para os riscos dum comportamento inadequado de Portugal dentro da Zona do Euro e respectivas consequências economicas, financeiras e sociais. Data de 2/2/2006 o aviso solene do Prof. Olivier Blanchars ( FMI). Avisados estavam todos ! Mas eles todos escolheram outros caminhos. Eles lá sabem porquê .

LOPES CARLOS , Bruxelas | 26/11/10 07:05
1. Tenho a maior admiração pelo Autor, mas não concordo com a totalidade do Artigo de Hoje.
2. Separando águas : a Economia Global vai bem ( empurrada pela Parceria RP CHINA/U. INDIANA ; a Economia Europeia já está em muitos Sectores em fase de recuperação embora a um nivel baixo e com algumas fragilidades em certos mercados ; Portugal não soube aproveitar bem as oportunidades oferecidas pelos Fundos Europeus e pela própria Zona do Euro.
3. Concordo inteiramente com o Autor num ponto : coitados dos nossos netos !!!
4. Como vai ser o nosso futuro próximo ? Vai ser muito movimentado e sobretudo vai sofrer algumas acelerações . Lembrem-se do caso irlandês : ainda no dia 12 de Novembro de 2010, apesar de rumores "fiáveis" de que um pacote de 80 mil milhões de euros estava a ser negociado, toda a gente em Bruxelas e Dublim negava a necessidade de um bail-out. Viu-se no dia 19 à noite ( estas coisas são sempre ao fim de semana, já com os bancos encerrados).
5. Durante anos a fio, quem referisse a divida externa ou o défice era ridicularizado por analfabetos ou ignotantes.
6. A saida do Euro , seria uma regressão para Portugal. Em todos os campos . E faria aria a nossa vida quotidiana ( alimentação, combustiveis,etc) um caos.
publicado por ooraculo às 18:38
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