Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Teste ao crescimento

É verdade que o OE-2011, de uma violência desconhecida, não abre a porta nem a uma pontinha de esperança. E, desse ponto de vista, é um orçamento mau. Mesmo que seja o possível. Mas já não há pachorra para a quantidade de sábios que vêm agora dizer que há muito vinham a apontar soluções e ninguém os ouviu. Eles avisaram! Eles disseram! E que poção milagrosa era essa? Adivinhem: o crescimento económico. Pois. E qual o caminho para lá chegar?

Falemos então de crescimento. De acordo com o FMI, a economia mundial deverá crescer este ano 4,8%, média ponderada das economias avançadas (2,7%) e das emergentes (7,1%). Mas a evolução das primeiras é desequilibrada: crescem razoavelmente os EUA (2,6%) e o Japão (2,8%); cresce muito pouco a Eurolândia (1,7%); e cresce ainda menos Portugal (1,2%). Resumindo: nós somos o mais pobre dos ricos. Antes fossemos o mais rico dos pobres...

Estes números são do domínio público. Mas, muito mais do que os números, é importante responder a esta pergunta: porquê? Porque investimos pouco e mal. E a produtividade sofre com isso. Imaginem um professor e um cábula fazendo contas, o primeiro sem apoio e o segundo munido de calculadora: o cábula vence o professor. Não é o trabalhador que não presta. Ele simplesmente não dispõe da melhor "calculadora"para trabalhar.

A julgar pela forma como o orçamento foi concebido, parece claro que a procura interna vai degradar-se, contribuindo negativamente para o crescimento do produto. Daí que a grande aposta esteja agora nas exportações. Não tenho nada contra, mas gostaria de fazer dois reparos: o bom andamento recente é ilusório, porque parte de uma base muito baixa; e, no valor líquido, que é o mais importante, não se notam melhorias significativas.

Seja como for, e pelo menos nos tempos mais próximos, não vejo saída para o crescimento económico que não passe pela procura externa. E, para isso, temos de procurar as medidas mais adequadas para o conseguir. Selecciono três: a desvalorização da moeda, que pressupõe a saída do euro; a redução do custo fiscal aos exportadores, que agrava o défice orçamental; e o já tradicional corte nos salários, que transfere o odioso para os trabalhadores.

Querem fazer o favor de escolher?

 

ECONOMIA SOFRE

Produzir de menos...

(PIB, 2004=100)

 ...endividar de mais

(Comércio externo, % do PIB)

   

Os EUA crescem menos do que a média mundial, a Europa menos do que os EUA e Portugal menos do que a Europa: somos os mais pobres dos ricos e ninguém percebe porquê. Num outro plano, exportamos um terço do que produzimos, importamos dois quintos desse produto e vivemos alegremente acumulando défices: somos uns viciados em endividamento. Agora dizem-nos que está tudo errado. Economia sofre...

Fontes: FMI, Banco de Portugal.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

Realista , Porto | 03/12/10 13:22
Acho o último parágrafo muito.... teatral e muito....trágico. Apetece-me acrescentar mais uma alternativa às 3 que o autor apresenta: deitar ao mar os neoliberais portugueses. Mas, vendo bem, esta tambem não é uma alternativa muito válida: o país ficava practicamente deserto, já que "eles" estão em maioria. Num país pequeno e sem grande cultura de empreendedorismo, o desenvolvimento económico tem sempre que passar pelo estado. E não tem que ser forçosamente incompatível com a redução do defice: recorram às ppp ou a concessões directas. Eu tambem costumo ler com atenção os comentários de <Lopes Carlos>, até porque vêm de Bruxelas e, nos tempos que correm, tudo que vem de Bruxelas é sagrado. Diz ele (mais uma vez) que temos que fazer as "reformas necessarias". Eu já ouvi isto mil vezes. Por favor esclareça-me uma coisa: que reformas? A privatização da saúde e do ensino? E isso leva ao crescimento? Mesmo que passe a ficar mais dinheiro na mão dos privados isso leva ao crescimento? São os privados que vão fazer o aeroporto? E, por amos de Deus, o aeroporto é necessario, já devia ter sido construido ha muitos anos. O mesmo para o TGV. Toda a Europa tem TGV. Querem perder o apoio a fundo perdido da UE (varias centenas de milhºoes)? Querem perder o financiamento em condições vantajosas do BEI? Meu Deua dai luz a quem a não tem!

Como fazer: FMI combinado com Bruxelas, ou, um Ditador à moda de Roma Antiga! , | 03/12/10 12:31
- Caro D. Amaral, e, como fazer isso que propõe?
Na Roma Antiga, em tempos de emergência (derrotas militares, revoltas, fome, calamidades) o Consul indicava o «ditador» que após a aprovação do Senado, era então investido de poderes absolutos, por um período de tempo limitado (o tempo necessário para se por em marcha as medidas estruturais que todos reclamam, mas, por impopulares, ninguém deseja assumir e menos cumprir!)
No actual quadro político não se vislumbram soluções. Por uma razão obvia, a actual democracia é a reprodução tardia de um modelo político "novecentista" - o Parlamento é representado por partido, os partidos opõem ideologias, as ideologias confrontam classes, o confronto de classes é útil em tempos de prosperidade e de redistribuição de riqueza - corrói o Estado em tempos de calamidade, empobrecimento e desunião! A forma de democracia mais perfeita seria aquela a que à face da ameaça (défice, endividamento, desemprego, empobrecimento, falência, perda de soberania) se opõe o rosto de quem governa - e o corpo coeso de quem é governado! É hora de avançarmos da actual farsa políticopartidária para a eleição «face-a-face», de quem é do comum-cidadão representativo e por esta mole responde aos seus anseios e debilidades.
«Face-aface», no médio/longo-prazo significa: 1. Criação de «circulos eleitorais regionais e uninominais» (qq cidadão, c/ escolaridade mínima, s/ cadatro criminal e xxxx assinaturas, c/ ou s/ apoio de associações políticas, poder ser candidato e eleito). 2. O debate sobre as «Regiões» - e os problemas reais das populações - ser efectivamente debatido no parlamento. 3. O Chefe de Governo (e a equipa ministerial) ser eleito por voto directo e universal (à semelhança do PR). 4. Programa eleitoral conter metas e objectivos devidamente definidos - e o não cumprimento significar a impossibilidade de recandidatura, segundo veto PR e ratificação Judicial (Tribunais de Contas e Constitucional). 5. Abertura de 2ª câmara - c/poderes consultivos, por forma a melhor serem auscultados os movimentos e associações políticas e civis). 6. PR com tutoria sobre forças armadas, políciais e serviços autónomos de informação e estatística do Estado; 7. Trinvirato: combinação dos poderes do PR (veto, dissolutivo); Governo (executivo, iniciativa legislativa); Senado/Parlamento (voto, proposta legislativa).
No palno imediato, o próximo PR eleito deve: A) propor um Governo de «Unidade Nacional». B) Frustado A. Reunir-se com as Forças Armadas e Policiais. Dissolver a Assembeleia da República. Nomear um «Ditador», não eleito», por um período limitado. Reunir um grupo de Constitucionalistas e avançar para a "idealização" de um modelo de democracia «face-a-face», como acima

Eduardo , Faro | 03/12/10 10:34
Bravo!!!!!!!

zedosbois , lx | 03/12/10 10:32
DEVEMOS é produzir bens mais complexos que se consigam vender mais caro, como fazem os alemães.
Hoje vendemos X a 100 com 80 de custo de produção, bx produtividade

Se amanha se conseguir vender XXX (bem muito mais complexo) por 400 e os custos subirem para 200 então aumentamos a produtividade certo... e podemos pagar salários mais elevados...

Como se faz? Falar com os clientes, observá-los... dar mais do que querem

Partidocracia , Porque não cresce? | 03/12/10 09:58
A economia cresce pouco por causa de 2 coisas: (1) excessivo peso do estado na economia; (2) péssima qualidade da governação, a todos os níveis. A solução, a longo prazo, passa por arranjar melhores governantes - que é o mesmo que dizer: mudar o sistema eleitoral de modo a que os deputados deixem de ser escolhidos pelas partidárias. Só com uma mudança qualitativa dessa natureza os melhores da nossa sociedade se sentirão atraídos para a governação sem serem anatemizados por passarem para o "outro lado".

LOPES CARLOS , Bruxelas | 03/12/10 07:44
1. Não vale a pena fazer chover no molhado.
2. Ou se fazem as reformas estruturais inadiaveis ou não se fazem.
3. Se nada se fizer, o REAJUSTAMENTO será feito via DESEMPREGO.
4. Os Portugueses devem ser convidados a DECIDIR que MODELO/VIA querem. Mas devem decidir após terem a informação veridica sobre a REAL situação economica e financeira do País.
5. Temos mesmo de mudar de vida ou de paradigma ou lá como lhe queiram chamar.

miguel , | 03/12/10 04:00
"Antes fossemos o mais rico dos pobres..." Esta afirmação não foi feliz. Se a ideia era dizer que gostaria de estar do lado dos países emergentes, com um crescimento superior a 7.1%, então a ideia não é, outra vez, feliz.

Tem perfeito conhecimento que é muito giro ter um crescimento robusto, mas isso não significa nada se a riqueza per capita for praticamente nula. Apesar de tudo, e por muito que argumentasse, é preferível crescer pouco, não crescer ou até decrescer (com todas as consequências negativas que daí advêm) a ter um PIB/per capita de um país desenvolvido (mesmo que seja um pobre país desenvolvido).

Se o austeridade não pode ser um fim a atingir, o crescimento económico, por si só também não. Se discordar desta afirmação, está implicitamente a concordar, que preferiría a riqueza per capita de um país como o brasil ou india ou até china.
publicado por ooraculo às 18:21
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