Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

O grande desafio

Quando o orçamento para 2011 foi aprovado na generalidade, abrindo as portas a um entendimento entre o PS e o PSD, escrevi nesta coluna que ele envolvia três grandes riscos: o risco de uma entrada em recessão, que só o Governo não queria ver; o risco de incumprimento do défice, associado a este recuo da economia; e o risco de colapso do Serviço Nacional de Saúde, devido aos cortes impiedosos a que fora sujeito. A perspectiva mantém-se.

Foi pois sem surpresa que li o último relatório da Comissão Europeia sobre Portugal. O Governo acredita que o PIB vai crescer 0,2%, a Comissão acha que vai decrescer 1%. E enquanto o nosso deflator é de 1,7%, o dela é de apenas 1,3%. A diferença está num duplo agravamento do défice: em termos absolutos, porque a receita é menor; e em termos relativos, porque compara com um PIB mais baixo. Estou solidário com os números da Comissão.

Acresce que também os juros implícitos deverão ser corrigidos. Nos últimos tempos, as obrigações do Tesouro a 10 anos foram emitidas a uma taxa próxima dos 4%, que compara com os 7% recentemente exigidos. Dependendo dos mercados e da maturidade das dívidas, creio ser prudente interiorizar que a média vai subir. E com isso gerar uma espécie de círculo vicioso: sobem os juros, que acrescem às dívidas, que fazem subir os juros ainda mais.

É à luz deste quadro que a Comissão Europeia diz o óbvio: para cumprir o défice de 4,6% do PIB em 2011 o Governo vai ter de recorrer a medidas adicionais. E o pânico instalou-se. Que medidas? Aumentamos ainda mais os impostos? Reduzimos ainda mais os salários e as pensões? Seria apostar na ruptura, porque ninguém em Portugal compreenderia. O Governo vai ter de pegar na despesa e fixar um objectivo único: cortar, cortar, cortar.

Tudo isto acontece numa fase particularmente difícil. Há ministros que já não falam com os secretários de Estado. Ministros que falam e são desmentidos logo a seguir. E ministros que perderam por completo o controlo da situação. Resta-nos o guardião do templo, um ministro excelente, que chegou a parecer esgotado e hoje volta a dar mostras de estar politicamente renascido: Teixeira dos Santos. Não sei se chega. O risco de incumprimento é enorme.

Estamos preparados?

 

DESEQUILÍBRIOS

Défices excessivos...

(Saldo orçamental, % do PIB)

 ...dívidas crescentes

(Dívida pública, % do PIB)

   

 

Os desequilíbrios orçamentais não são um problema exclusivamente português, e muito menos europeu. São um problema das economias ditas avançadas, com destaque para os Estados Unidos e o Japão. Mas isso não deve servir-nos de desculpa à inércia. Os limites definidos aquando da entrada no euro - 3% para o défice e 60% para a dívida - deveriam ser respeitados e não estão a sê-lo. Estamos todos a pagar por isso.

Fonte: Comissão Europeia.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

LOPES CARLOS , Bruxelas | 10/12/10 13:51
1. O desafio luso tem de ser visto no contexto duma zona euro com alguns casos de finanças publicas em situações menos positivas e revelando desiquilibrios entre as economias.
2. O proprio BCE aponta fragilidades no sector bancario da zona do euro, dadas as necessidades de refinanciamento. Fazer previsões mesmo a 2 semanas vai ser dificil, segundo alguns.

Realista , Porto | 10/12/10 13:12
Artigo pacífico. Toda a gente de bom senso está de acordo. Mas qual é a saída afinal? As medidas de cortes cegos do FMI/FEEF tambem não levam a lado nenhum. Alguem acredita que é a flexibilidade da legislação laboral que vai resilver o problema? Na Grecia estas medidas não têm resultado. Na Hungria o governo resolveu prescindir do FMI. Embora com culpas proprias, nós estamos a ser vítimas da crise financeira mundial. Agora a Moody's está a preparar-se para fazer um down-grading dos bancos portugueses. Ora os bancos portugueses foram dos poucos que não alinharam no negocio de activos tóxicos nem em bolhas imobiliarias. Os bancos europeus estão inflaccionados (vejam o caso dos bancos irlandeses) e os portugueses não. O preço das casas na Irlanda, em Espanha, no UK, não tem sustentação. Então as famílias não têm a riqueza que pensam ter e os bancos que fizeram hipotecas não têm o equilibrio que os balanços querem demonstrar. Em Portugal têm. Porquê esta perseguição aos bancos portugueses? Eu vou dar a explicaçãp. PORQUE NESTA CORRENTE ESPECULATIVA AO EURO PORTUGAL È AGORA O ELO MAIS FRACO. Não o que estÁ PIOR MAS O QUE É MAIS FRAGIL.
LOPES CARLOS , Bruxelas | 10/12/10 12:21
Esta manhã enviei um curto comentário sobre este excelente artigo do Sr. Dr. Daniel Amaral, um dos melhores dos vossos Colaboradores.. Ele esteve on line algumas horas. Um amigo meu informou-me que ele tinha sido retirado. Porque motivo ??? O que se passa ???

Teixeira "Errata" dos Santos , o moço de fretes do "engenheiro" Sócrates | 10/12/10 12:10


"Um ministro excelente", diz Daniel Amaral...

Isto diz tudo sobre o polvo que a todos os níveis impede a democracia de funcionar em Portugal.





publicado por ooraculo às 18:26
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