Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

Os credores e nós

Quando Portugal aderiu ao euro assumiu o compromisso de manter um défice e uma dívida face ao PIB não superiores a 3% e 60%, respectivamente. O que pressupunha um crescimento nominal do produto da ordem dos 5% ao ano. De facto, com um PIB inicial de 100 e uma dívida de 60, os valores seguintes seriam de 105 e 63, o que mantinha o peso relativo nos 60%. Mas o compromisso falhou e o que hoje temos é um país afogado em dívidas. Que fazer?

Números redondos, o PIB de 2010 terá atingido €168 mil milhões, a que terão correspondido 140 mil milhões de euros de dívida pública, 83% do produto. Sendo óbvio que esta dívida é incomportável, e que terá de ser corrigida, a questão que se nos coloca é a de saber como. Para efeitos de raciocínio, vou desdobrá-la em duas: uma dívida normal - 100 mil milhões de euros e 60% do PIB; e uma dívida excepcional, ou intrusa - 40 mil milhões de euros e 23% do PIB.

Comecemos com a dívida normal. Para que a regra dos 60% face ao PIB seja cumprida, a taxa de crescimento desta dívida não poderá exceder a taxa de crescimento do produto. Nunca! Nem que para isso tenhamos de responsabilizar pessoalmente o ministro das Finanças. Se, por hipótese, o crescimento nominal do PIB em 2011 for de 3%, o défice face ao PIB não poderá exceder 60%x3%=1,8% - algo como três mil milhões de euros, muito menos do que o previsto.

A dívida intrusa, por definição, está a mais e merece um tratamento diferente. Admitamos a amortização em 20 anos, através de 20 prestações anuais e iguais de capital e juros e uma taxa de 5% ao ano. O dispêndio anual seria da ordem dos 3,2 mil milhões de euros. E, ao juntarmos as duas, precisamos de excedentes orçamentais ao longo de 20 anos. Claro que podemos melhorar o cenário, com um prazo maior ou uma taxa mais baixa. Mas alguém acredita nisso?

Agora respirem fundo. Acham que o modelo de gestão atrás preconizado seria exequível em condições normais? Não. Ele provocaria uma contracção de tal ordem na procura interna que levaria ao colapso do crescimento económico e do emprego. Seria um desastre total. A senhora Merkel, tão atacada por toda a gente, afinal tinha razão: em casos como o nosso, se não quiserem arriscar tudo, os credores terão mesmo de prescindir de uma parte...

E se não o fizerem?

 

O FALHANÇO EUROPEU

 Défices excessivos...

(Défice, % do PIB)

...dívidas incomportáveis

 (Dívida, % do PIB)

 

   

 

*Estimativa.

 

A União Europeia impôs aos aderentes ao euro duas regras preciosas: o défice e a dívida não poderiam exceder 3% e 60% do PIB, respectivamente. Mas a maioria dos países ignorou-as logo a seguir. E o descalabro nunca mais parou. No final de 2010, apenas 4 dos 16 países do euro tinham uma dívida inferior a 60% do PIB. Portugal foi na onda. Mas ainda hoje o nosso défice e a nossa dívida não se afastam dos valores médios europeus.

 

Fonte: Eurostat.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

Alberto Original , | 07/01/11 16:53
Sr. Realista (Porto) - estou de acordo com o seu comentário, mas há uma diferença muito grande no que respeita a Portugal. Na ultima década, não houve crescimento económico e o que houve foi com base em procura interna, com exportação maciça de divisas para o estrangeiro (ó problema não é só a divida publica, pois a divida externa total já vai em 300% do PIB). Esta sangria não pode continuar, então o crescimento só com base em exportações nunca vai conseguir compensar a falta de procura interna. Ou seja acredibilidade de Portugal pagar a divida é ZERO. O mesmo não se passa com os outros países que referiu, França Alemanaha Itália . Já a Espanha, estou de acordo consigo, foi contagiada!

700 000 desempregados e 700 000 Portugueses forçados a emigrar nos últimos anos , | 07/01/11 15:45

Alegre é um desertor, um bufo e um traidor à Pátria. Um pateta abaixo de cão.

Cavaco é um inútil bacoco, um pacóvio desacreditado, que todos os dias se enterra mais e mais.

Cavaco tem sido nestes últimos seis anos de desgraça, e continua a ser, o melhor seguro de vida do repug.nante "engenheiro" sucateiro Sócrates, o menino de ouro e Pinocchio ko.rrupto incompetente que deu cabo de Portugal e que continua a manipular gente como certos editorialistas do Diário Económico.

LOPES CARLOS , Bélgica | 07/01/11 10:11
1. Estimado Senhor Realista ( Porto), eu resido e trabalho há mais de 22 anos na Bélgica. Mas, por favor, não escreva " a Bélgica do Sr. Lopes Carlos. Respeito muito a Belgica , mas eu nasci e vou ser enterrado em Portugal, a minha Patria.
2. As criticas que faço ao desempenho economico, financeiro e social de Portugal não significam menos amor pela minha Patria. Apenas queria um pouco mais de justiça social , menos desigualdade social e um pouco mais de qualidade de vida. Merecemos mais enquanto Povo. Temos de mudar de paradigma.Para sobreviver num Mundo Global.
3. Acresce, estimado Senhor Realista ( Porto), que concordo com a linha geral do seu artigo. As respostas paras a crise(s) não são apenas nacionais. São também europeias e até globais.

Realista , Porto | 07/01/11 09:43
Concordo com o artigo e de uma maneira geral com todos os comentarios já on-line, incluindo o do "homonimo" Realista. Mas eu queria salientar um aspecto do problema que é muitas vezes esquecido e que está traduzido na última frase do artigo, já em letra miuda - "Mas ainda hoje o nosso défice e a nossa dívida não se afastam dos valores médios europeus". Pois é meus amigos: o nosso (terrivel) problema faz parte de um problema mais amplo, de toda a Europa e do mundo ocidental. E a solução, e eu não sei qual vai ser, terá que ser uma solução europeia ou mesmo mundial. Eu não nego o problema, já disse que concordo com o artigo, mas lembro que a dívida da França é quase igual à nossa a da Alemanha pouco menor é,, a da Italia e da Belgica (a Belgica do Sr Lopes Carlos), a do Japão, a dos EUA, por exemplo, muito maiores que a nossa. Excepcional neste panorama é a dívida de Espanha, que nem sequer chega aos 60% do PIB. E contudo a Espanha é incluida dos PIGS e nos "paises periféricos" e tambem está a ser atacada pelos tais "mercados". Porquê? EM RESUMO: NÃO DEVEMOS IGNORAR A GRAVIDADE DA SITUAÇÃO PORTUGUESA, MAS TAMBEM NÃO DEVEMOS PERDER DE VISTA QUE OS NOSSOS PROBLEMAS SÃO PROBLEMAS DE TODA A EUROPA E DE TODO O OCIDENTE!

LOPES CARLOS , Bélgica | 07/01/11 07:53
1. Desde 2000 Portugal tem crescido, mas a um ritmo muito fraco. Até 2017, Portugal continuará a crescer, mas sempre a um ritmo anémico. O fosso entre Portugal e a média do resto da UE-27 vai alargar-se.
2. Curiosamente, muitos Portugueses não "acreditam" na crise : basta comparar os levantamentos bancários da semana antes do Natal e da semana após o Natal de 2009 e 2010. É o PORTUGALSEMPREEMFESTA ( EXPO, EURO 2004, SUBMARINOS,CONSUMO PRIVADO,etc,etc).
3. O nosso endividamento externo bruto é demasiado pesado. A nossa poupança doméstica tem de aumentar.
4. Seria necessario uma mudança do discurso politico para justificar as medidas que terão de ser tomadas nos próximos meses.
5. Mesmo que Portugal fizesse tudo o que devia mesmo fazer ( o que traria evidentes problemas politicos internos) , o recurso ao apoio fraterno da EUROPA , de que somos parte integrante e activa, afigura-se necessário e não é nenhuma desonra nacional.
6. Se Portugal não fizer o que é imperioso fazer e não pedir ajuda no quadro natural , o quadro europeu onde nos inserimos legitimamente, então funcionará o modo de ajustamento estrutural previsto por O. BLANCHARD em 2/2/2006 : DESEMPREGO DE LARGA ESCALA.
7. Escolham !

Bravo , Lisboa | 07/01/11 01:03

Os governantes têm tranquilizado muitos portugueses, com discursos que visam encobrir o futuro: o nosso défice e a nossa dívida não se afastam dos valores médios europeus.

Não há nenhum problema em um Estado europeu endividar-se. O verdadeiro problema está na capacidade de um Estado, que viveu durante anos a fio viveu muito acima das possibilidades, assegurar o cumprimento de elevados montantes de capitais que outrora pediu emprestado. Ora, como Portugal praticamente não cresceu ao nível económico nos últimos 10 anos e como não se antevê boas perspectivas para os próximos 5 e 10 anos, torna difícil garantir o pagamento aos credores. Nem há mais margem de manobra para voltar a aumentar impostos ou taxas. Estamos numa tremenda embrulhada.

A concessão de grandes volumes de crédito a um baixo preço (juro) e a entrada no euro, estão agora a repercutir-se na vida dos contribuintes. O pior está certamente para vir.
Realista , | 07/01/11 00:36
Porque é que neste País temos que aceitar tudo como se não tivesse solução ? ou se fosse impossível de executar ? Estou inteiramente de acordo com a solução preconizada pelo autor deste artigo, pois o único caminho é a redução da despesa que nos possa conduzir a superavits orçamentais (em vez de deficits) de forma a reembolsar a dívida em excesso. No entanto eu acrescentaria aos tais 20 anos pelo menos mais 3 ou 4 que nos permitam eliminar completamente o deficit, face à situação actual suposta de mais de 7%.
Para terminar ... promovam a aprovação de medidas a sério de combate ao despesismo (exº assinem e divulguem a petição de combate à currupção, que julgo estar no site do Correio da Manhã) será mais uma forma de responsabilização dos políticos e vão ver que não precisaremos de tanto tempo para tratar do doente !!!!!!!!!! Este País só lá vai se remarmos todos para o mesmo lado, coisa que sem justiça é impensável.

anarca , | 07/01/11 00:13
Isso é areia a mais para a camioneta politica. Eles não vão além do "avie-se quem puder".
publicado por ooraculo às 17:52
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