Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

Choques em cadeia

O Governo partiu de um crescimento de 0,2% e um deflator de 1,7% para calcular o défice de 2011: €8.097 milhões, 4,6% do PIB. Mas este cenário não é realista e deverá ser corrigido. Aceitemos o deflator e admitamos que o produto vai cair 1,3%. O resultado é um duplo efeito negativo em que um produto menor compara com um défice mais alto. Novos números: €9.216 milhões e 5,3% do PIB. O orçamento estoira e ninguém mais acredita em nós.

A vítima seguinte é o emprego. Estatísticas recentes apontam para 600 mil desempregados, 11% da população activa. É um quadro dramático, que só pode piorar. Daí a histeria colectiva que se apoderou da classe política, quando se soube que o INE vai alterar a sua metodologia de análise. Falou-se de "ocultação", de "manipulação", de chamar ao Parlamento o ministro da tutela! Afinal, o método é banalíssimo e existe em Espanha desde 2005.

Mas os cortes salariais não poderiam ficar para trás. Sindicatos afectos ao sector público decidiram inundar os tribunais com múltiplas acções, acompanhadas de providências cautelares, visando impedir aqueles cortes, por suposta inconstitucionalidade da medida. Presumo que o não consigam, nem que para isso se invoque o interesse público. Mas, se o conseguirem... Aqui não restam dúvidas: o rombo no orçamento será fatal. A troco de quê?

Se a inconstitucionalidade falhar, ainda temos o recurso à greve, que os nossos sindicatos não são de desistir facilmente. E a primeira imagem que me ocorre vem da Grécia: greves, paralisações, tumultos, o caos social. No último ano, o PIB grego caiu 4% e o desemprego atingiu 13%; e o défice e a dívida face ao PIB foram de 10% e 140%, respectivamente. A Grécia é hoje um plano inclinado a caminho do abismo. É esta a fonte de inspiração?

Enquanto isto, as famílias têm menos recursos para adquirir produtos mais caros; a dívida continua a subir e ninguém sabe como financiá-la; e as habituais sumidades desdobram-se em maledicência: o Governo não presta, as medidas estão erradas e os credores são uns imbecis. A receita do costume. Ninguém explica a estas cabecinhas tontas que a realidade é muito mais prosaica e se resume ao facto incontornável de não termos dinheiro?

Estamos a brincar com o fogo.

 

O DECLÍNIO EUROPEU

Défices orçamentais... (Défice, % do PIB)

 ..arrastam desemprego

 (Desemprego, % p. activa)

   


O percurso português é em tudo análogo ao da zona euro. Défices excessivos alimentaram dívidas, que provocaram juros, que desviaram recursos do que era essencial: investimento produtivo e crescimento económico. O resultado foi uma taxa de desemprego que hoje já excede os 10% da população activa, uma situação explosiva. Acima da média e piores do que nós estão a Espanha, a Grécia e a Irlanda.

 

Fonte: Eurostat

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

Henrique Neto , | 14/01/11 18:42
Sócrates, com a sua falta de sentido de Estado, a sua ignorância, o seu voluntarismo pacóvio, a sua teimosia irresponsável e, porventura mais importante, a sua falta de patriotismo e de convicção sobre o interesse geral, iludiu durante seis longos anos todos os reais problemas da economia através de um optimismo bacoco e inconsciente. Não o fez apenas por ignorância, mas para servir os interesses da oligarquia do regime, através da especulação fundiária e imobiliária, das parcerias público-privadas, dos concursos públicos a feitio, das revisões de preços e de uma miríade de empresas, institutos, fundos e serviços autónomos, além das empresas municipais. Regabofe pago com recurso ao crédito e sem nenhum respeito pelas gerações futuras.

Christine Lagarde e J-C Trichet , | 14/01/11 18:00


Crise não é da Zona Euro mas sim de alguns países europeus (irresponsáveis e sucateiros).

Daniel Bessa, Daniel Amaral , | 14/01/11 17:56
... é tudo igual. Gente que deixa o país mais pobre e mais frágil. Por razões "ideológicas", e muito "de esquerda". Palhaços.

Meu caro Dr. Daniel Bessa , | 14/01/11 17:53
Caro Daniel Bessa,
Se um método estatístico existe na Espanha não quer necessariamente dizer que seja bom... E nos restantes países desenvolvidos, como é?
O que é facto (e Daniel Bessa não aborda este "pequeno" pormenor) é que o novo método estatístico de medição do desemprego NÃO vai permitir comparações com as estatísticas relativas ao ano de 2010 e aos anos anteriores. É isto que o "engenheiro" (?) Sócrates parece pretender, aparentemente.
Curiosamente, já em 2008, a um ano das eleições, o Governo (?) Sócrates tinha alterado o método de contabilização dos desempregados, o que resultara, já na altura, na muito oportuna redução da taxa oficial de desemprego em um ponto percentual... Mas como em Portugal não há Oposição...

P-S: caro Daniel Bessa, contrariamente ao que ainda hoje disseram Sócrates e Teixeira dos Santos, a crise não é sistémica, não é "comum a toda a Europa". A nossa crise é uma crise portuguesa. Por isso mesmo, mais do que nunca, deixe que lhe diga o seguinte: este Governo (?) não presta mesmo. E já está há tempo demais no poleiro. Seis anos de coisa nenhuma... Lamento.

Caro Dr. Daniel Amaral , | 14/01/11 15:27


O senhor acha que o Governo Sócrates presta?!

Ao fim destes seis anos de porkaria?

Com 700 000 desempregados?

Com 700 000 jovens Portugueses forçados a emigrar nos últimos anos?

Com toda esta bagunça, ko.rrupção, desigualdade e pouca vergonha?

Com toda esta "engenharia" financeira chinesa, árabe, russa, venezuelana, bruxelense, frankfurtense, para disfarçar a burrice, a desonestidade e a incompetência do sr. Sócrates?

O senhor apoia a manipulação (nomeadamente eleitoral) de que o país foi vítima por parte deste "estadista"? Deste grande "pulhítico"?

Ora, ora, senhor Daniel Amaral.

Já não há mais desculpas esfarrapadas para o "eng." da treta Sócrates teimar no TGV espanholito e sucateiro , | 14/01/11 15:22


A Comissão Europeia admite a possibilidade de reafectar a outros projectos os fundos disponíveis para o TGV. Na sequência de uma pergunta formulada pelo eurodeputado Nuno Melo (CDS-PP) em Novembro, o Comissário europeu responsável pela Política Regional indicou agora que, "até à data, a Comissão não recebeu qualquer pedido oficial das autoridades portuguesas de reafectação dos fundos previstos para o TGV ou o novo aeroporto de Lisboa a outros projectos", mas analisará a questão se esta for levantada. "Se as autoridades portuguesas decidirem reafectar esses fundos, a Comissão estará disposta a examinar qualquer pedido de reprogramação das prioridades do Fundo de Coesão, tendo em consideração a justificação apresentada", indicou o Comissário.

abel d , lx | 14/01/11 14:40
Porque insistem estes tecnicos em ignora as causas : estados a substituir as instituições financeiras - porque nunca falam nisso - a fatura já somos n´s quea estamos a pagar

lucklucky , | 14/01/11 10:00
O Governo não presta e as medidas estão erradas. Não é preciso ser uma sumidade para perceber isto. É a receita desde sempre: défice > dívida aumento de impostos > défice > dívida > aumento de impostos ad eternum . A receita do PSD ao PS com o apoio das sumidades entre as quais o autor deste artigo

O IVA começou a 15% já vai em 23%
Ou seja a receita é sempre a mesma - aumentar impostos para pagar o Estado crescente, cada vez maior - ao Sr,Daniel Amaral não apoquenta o Estado cada vez maior. E depois escreve estes textos desesperados
como se não soubesse onde está o elefante.
Ou seja mudar algo na configuração do Estado népias, deve ficar tudo na mesma.
A lógica é fazer o mesmo que se tem feito sempre esperando ter resultados diferentes. A mim parece-me que quem pensa assim o seu lugar é no manicómio a partir de um determinado número de tentativas.

Xxx , | 14/01/11 09:17
Não temos dinheiro, mas só para algumas coisas.

Já agora... , | 14/01/11 09:04

Mais uma medida:

- Harmonização do IRC da Banca com as restantes empresas.Porquê taxas diferentes para a Banca e para as empresas?
publicado por ooraculo às 18:50
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