Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

A questão salarial

Admitamos que o objectivo dos salários é manter o poder de compra e que este varia com a variação dos preços. Quando e como é que devem ser corrigidos? No início de cada ano, tendo como base a inflação esperada? Ou no fim de cada ano, à luz da inflação que efectivamente se registou? Resposta: depende do gosto de cada um. Em boa verdade, nenhum dos métodos satisfaz.

A inflação é em regra positiva, ou seja, os preços sobem. Deste modo, ao optar-se pela inflação esperada, ganham os trabalhadores e perdem as empresas, porque recebem logo de início o que deveriam receber ao longo do ano. Inversamente, ao optar-se pela inflação efectiva, ganham as empresas e perdem os trabalhadores, porque deveriam pagar ao longo do ano o que só pagam no fim. O ‘timing' correcto seria então o meio do ano, tendo como base na inflação anual.

Mas há razões que aconselham o final dos anos. Primeiro, porque é mais lógico: um trabalho paga-se depois de feito e não quando se inicia. Depois, porque se protegem os trabalhadores: a inflação prevista é em regra "adoçada" pelos governos e, uma vez aceite, dificilmente se consegue corrigir. Mas este é um ano esquisito para opções deste género. É que as inflações de 2009 e 2010, sendo ambas de 0,8%, têm sinais diferentes - foi negativa a primeira, admite-se positiva a segunda.

Acresce que a produção é habitualmente crescente, devido ao acréscimo dos factores produtivos e às melhorias de eficiência. E, havendo melhorias que são ganhos puros, é legítimo que os trabalhadores beneficiem deles. Aqui entra o azar dos Távoras: em 2009, a produtividade também caiu. Logo, para corrigir os salários de 2010, os dois elementos que existem são negativos: 0,8% de deflação e 0,7% de ineficiência produtiva. Que fazer?

Os números não deixam dúvidas. Nos últimos dez anos, o peso salarial no PIB subiu três pontos para os 53%: os salários cresceram mais do que deviam. E a dívida externa foi multiplicada por três, ultrapassando os 100% do PIB: gastámos o que tínhamos e o que não tínhamos. Sendo assim, e em nome da coerência, os salários deveriam baixar pelo menos 1,5%. Fica-me apenas uma dúvida: ao sacrificarmos o emprego não deveríamos fazer o mesmo ao capital?

 

 

 

publicado por ooraculo às 00:30
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