Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

Mundo louco

FMI, projecções para 2011. A economia mundial vai crescer 4,4%, média ponderada das economias emergentes (6,5%) e das economias avançadas (2,5%) e sintoma nítido de que a recessão de 2009 já se ultrapassou. No primeiro grupo, destaque para dois colossos asiáticos: a China e a Índia. No segundo grupo, o insólito: os Estados Unidos, mesmo com défices e desemprego, vão crescer o dobro da Eurolândia. O mundo virou de pernas para o ar.

Peguemos no caso da China, com taxas de crescimento da ordem dos 10% ao ano. Com esta ‘performance', salários de miséria e uma taxa de poupança que não tem paralelo em todo o mundo, o país vai acumulando reservas colossais que necessitam de aplicação. E os sinais vão aparecendo: o poder económico está a deslocar-se para Leste; e os fundos de Leste preparam-se para "comprar" a Europa. Não sei se os europeus já se aperceberam disso.

Num outro plano, os preços do petróleo e dos produtos alimentares voltaram a disparar, sugerindo o regresso da inflação. Não a inflação tradicional, associada ao sobreaquecimento económico, que os países corrigiam subindo as taxas de juro. É uma inflação específica, que reflecte o excesso da procura sobre a oferta daqueles produtos, em particular na China. Ainda não se sabe como lidar com isto. Mas sabe-se que as últimas recessões começaram assim.

Enquanto isto, os EUA e a Europa não se entendem sobre a melhor forma de ultrapassar a crise. A Europa aposta no rigor orçamental e no controlo da dívida; os EUA preferem aumentar o défice para relançar a economia - mesmo que a dívida pública já atinja a soma astronómica de 14 triliões de dólares, próxima do PIB. O facto é que a História parece dar razão ao Tio Sam: o PIB ‘per capita' excede em 34% o equivalente europeu e continua a distanciar-se.

Pertencendo nós ao grupo das economias avançadas, é com estes dois blocos que devemos comparar-nos. E a comparação não poderia ser mais frustrante. Peguemos num trabalhador americano médio e façamos a sua produtividade por hora igual a 100: o indicador homónimo da Zona euro é de 85 e o português de apenas 48. Eis a imagem de Portugal ao espelho: uma produtividade paupérrima e confrangedora. A mais baixa da Europa.

Como é que vamos sair disto?

 

CHOQUE DE CULTURAS

 Países emergentes...

(PIB, variação (%)

 

 ..assaltam o poder

(PIB, variação (%)

   

 

*Estimativas. **Projecções

 

Com a recessão de 2009 até a economia mundial bateu no fundo, o que nunca acontecera neste século. Mas as economias emergentes apenas abrandaram o passo, retomando a marcha logo a seguir. O caso da Europa é ‘sui generis': caíu muito mais do que os EUA e, na hora da retoma, fá-lo a um ritmo que é apenas metade do dos americanos. Já Portugal parece um caso perdido: vamos passar vários anos a marcar passo...

 

Fontes: FMI, Banco de Portugal.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

JTPacheco , | 04/02/11 14:52
A Europa Ocidental e a América do Norte têm um problema de crescimento global que só se irá agravar se não for atacado e que resulta da transferência progressiva da produção de bens transaccionáveis para os países emergentes.
Durante anos temo-nos agarrado à ideia de que isso se passa apenas com as industrias de baixa tecnologia e de mão de obra intensiva e que iríamos conseguir manter o domínio nos sectores tecnologicamente mais avançados e nos serviços.
A realidade mostra no entanto que, com o aumento dos níveis de educação e o crescimento dos mercados internos dos países emergentes, estamos também a perder as vantagens competitivas nesses sectores.
Nesta altura, a grande diferença que ainda existe entre as economias ocidentais e os países emergentes reside no elevado poder de compra (relativo) que ainda mantemos e que nos permite manter um mercado com um potencial desproporcionadamente maior do que a nossa população mas, se não fizermos nada para proteger esta última linha de defesa, vamos assistir impotentes à erosão inexorável desse poder de compra, suportando subsídios cada vez mais reduzidos para um desemprego em crescimento exponencial, enquanto as empresas se vêm forçadas a deslocalizar para sobreviver.
Esperamos (e bem) remunerações, níveis de protecção, direitos, etc., superiores ao que esses países agora disponibilizam mas, ao fazê-lo, estamos a fazer com que as nossas empresas concorram com armas desiguais e enfrentem o dilema: deslocalizar ou fechar.
Aceitamos a lógica de mercado e não podemos (nem devemos) barrar a entrada a bens de países terceiros. Mas podemos (e devemos) impor regras de concorrência que obriguem esses países a elevar a respectiva fasquia.
Impor uma certificação que ateste que são cumpridos determinados patamares de remuneração, horários de trabalho, direitos laborais, protecção à família, etc., ajudaria a aproximar as regras, com a vantagem de estarmos a nivelar por cima, ou seja: Ajudamos a impor condições socialmente mais justas nos países emergentes e defendemos o nosso emprego, o nosso nível de vida e a protecção social que consideramos essencial.
Se não reagirmos rapidamente, o efeito bola de neve que iremos sentir com a combinação de redução de receitas ficais, pela perda de rendimento e aumento de despesas social pelo aumento do desemprego será avassalador e muito mais rápido do que poderíamos esperar.

Elementar , | 04/02/11 14:34
Porque é a produtividade paupérrima e confrangedora em Portugal:
1º) Porque o país se especializou durnate décadas em produções de de baixo valor acrescentado de que resultava um baixo valor acrescentado/habitante ( um operário que produz alpargatas e t-shirts não cria o mesmo valor que um operário que constroi reactores nucleares ou produtos químicos sofisticados);
2º) Mesmo essas produções de baixo valor acrescentado, quando entrámos para a CEE, foram em parte dizimadas: as que se destinavam ao mercado interno pela concorrênciae das importações provindas da europa a partir de empresas com maior escala, e as que se destinavam tradicionalmente à exportação para a europa pela abertura desta às importações concorrentes dos países do 3º mundo;
3º) Empurrados para o desemprego os portugueses activos que não emigraram procuraram sobreviver à sombra do Estado( função pública, reformas antecipadas), subsídios vários), em pequenos negócios próprios e no sector de bens não transaccionáveis.Tudo soluções individuais que fizeram baixar ainda mais o nosso nível global de produtividade;
4º) Quanto à produtividade do capital investido, porque a rentabilidade dos sectores de bens transaccionáveis se tornou muito baixa e mesmo negativa, pelo efeito das importações a baixos preços no mercado interno e pela concorrência de países terceiros nos nossos mercados tradicionais de exportação pela liberalização do comércio, os investimentos, públicos e privados, foram canalizados para o sector de bens não transaccionáveis (obras públicas, habitação, centros comerciais, supermercado, etc). Tudo sectores com baixo nível de valor acrescentado, o que afundou ainda mais a nossa produtividade global.
Em que é que isto tudo resultou? Em enormes défices comerciais externos todos os anos e numa gigantesca dívida externa. Como não poderia deixar de ser.
Uniter Colors of Benetton e o apoio à subversão política na China , | 04/02/11 12:00
Com o objectivo de proteger o emprego na Europa. Com o imperativo social e humano de reclamar mais direitos de cidadania e melhores condições de trabalho na China... eis duas prpostas de subversivas:
1.incentivar os governos da Europa a se unirem no patrocínio velado a grupos e partidos defensores dos direitos humanos e de formas democráticas de governo que estejam - ou se queiram envolver - em actividades subversivas ao regime comunista chinês.
2. promover campanhas - ao estilo da United Colors of Benetton - que, por via do choque da mensagem, descredibilizem o regime do Pequim e desincentivem a compra de produtos chineses

joão , | 04/02/11 10:15
caro jose, fx, os serviços mínimos bancários garantem o acesso a uma conta bancária e cartão de débito por um custo máximo anual de 1% do SMN

jose , fx | 04/02/11 08:33
...batendo as asas pela noite calada... vêm em ban.dos,com pés de veludo...» OsVampi.ros do Século XXI:A Caixa Geral de Depósitos (CGD) está a enviar aos
seus clientes mais modestos uma circular que deveria fazer corar de vergonha os administradores - principescamente pagos - daquela instituição bancária.A carta da CGD começa, como mandam as boas regras de marketing, por reafirmar o empenho do Banco em oferecer aos seus clientes as melhores condições de preço. qualidade em toda a gama de prestação de serviços,
incluindo no que respeita a despesas de manutenção nas. contas à ordem.
As palavras de circunstância não chegam sequer a. suscitar qualquer tipo de ilusões, dado que após novo. parágrafo sobre racionalização e eficiência da gestão de. contas, o estimado/a cliente é confrontado com a. informação de que, para continuar a usufruir da isenção da. comissão de despesas de manutenção, terá de ter em cada. trimestre um saldo médio superior a EUR1000, ter créditode vencimento ou ter aplicações financeiras associadas à. respectiva conta. Ora sucede que muitas contas da CGD, designadamente de pensionistas e reformados, são abertas por imposição legal. É o caso de um reformado por invalidez e quase. septuagenário, que sobrevive com uma pensão deEUR243,45 - que para ter direito ao piedoso subsídio diário de EUR 7,57 (sete euros e cinquenta e sete cêntimos!) foi forçado a abrir conta na CGD por determinação expressa da Segurança Social para receber a reforma. Como se compreende, casos como este - e muitos são. os portugueses que vivem abaixo ou no limiar da pobreza -não podem, de todo, preencher os requisitos impostos pela CGD e tão pouco dar-se ao luxo de pagar despesas de manutenção de uma conta que foram constrangidos a abrir para acolher a sua miséria. O mais escandaloso é que seja justamente uma instituição bancária que ano após ano apresenta lucros fabulosos e que aposenta os seus administradores, mesmo quando efémeros, com «o.b.s.c.e.n.a.s» pensões (para citar Bagão Félix, Eduardo Catroga), a vir exigir a quem mal consegue sobreviver que contribua para engordar os seus lautos proventos. É sem dúvida uma situação ridícula e vergonhosa, como lhe chama o nosso leitor, mas as palavras sabem a pouco quando se trata de denunciar tamanha indignidade. Esta é a face brutal do capitalismo s.e.l.v.a.g.e.m que nos servem sob a capa da democracia, em que até a esmola paga taxa. Sem respeito pela dignidade humana e sem qualquer resquício de decência, com o único objectivo de acumular mais e mais lucros, eis os administradores de sucesso. Medita e divulga... Mas divulga mesmo por favor...

LOPES CARLOS , Bélgica | 04/02/11 07:12
1. É evidente para todos que a Ásia ( RP CHINA e India) é o motor da Economia Global. A primeira analise que li, antevendo isto, foi escrita pelo Prof. Adriano Moreira, há muitos anos atrás. Quando a RP CHINA ultrapassará os EUA ?
2. Em 17/3/2009, o Prof. Krugman disse a uma plateia de escassos 60/70 interessados que o mais grave da crise financeira global é que estava a " ocultar" uma série de crises larvares ( água, alimentos, energia, sociais,etc). Depois digam que eles não avisam. Infelizmente, poucos os querem ouvir. É muito mais cómodo nada ouvir, nada ver, nada dizer.
3. Salientem-se as profundas diferenças de produtividade entre a Alemanha, a França e a Bélgica , por exemplo, nos dominios do agro-alimentar ( abate e corte de porcos e vacas), que motivaram uma queixa em Bruxelas . Claro que é necessário mais convergencia economica , mas também é necessario repensar o chamado Mercado Interno ,no interesse concreto de todos os Europeus .

publicado por ooraculo às 17:59
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