Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

O peso dos salários

Leitor, sorria. Parece que o FMI já não vem e foi substituído pelo eixo Berlim-Paris, liderado pela senhora Merkel. Creio que ficámos a perder. Alvos no horizonte: a idade de reforma passa para os 67 anos; os défices e as dívidas terão limites constitucionais; e os salários deixam de estar indexados à inflação. Não sei se, depois disto, ainda somos um país independente. Mas hoje só vou falar de salários, cujo conceito parece que ainda ninguém percebeu.

Consideremos um país com o emprego estabilizado, onde a um PIB de 100 correspondem 50 de encargos salariais. Se, no ano seguinte, a produtividade aumentar 3% e os preços 2%, o PIB sobe para 105. E, a haver equilíbrio nas contas, o normal é que os salários aumentem também 5%, passando a 52,5 e assegurando o mesmo peso relativo. Em suma: a correcção dos salários não se faz apenas com a inflação, mas com a

inflação e a produtividade.

Sucede que as contas equilibradas são um fenómeno raro. Como regra, os países poupam de menos, consomem de mais e passam a vida a endividar-se. A contrapartida está no pequeno grupo de outros países que se especializam em excedentes. Na Europa do euro há dois extremos: de um lado, a Alemanha, que acumula reservas; do outro, Portugal, que acumula dívidas. Como este cenário é insustentável, teremos de gerir os salários de outra maneira.

Acresce que o peso dos salários no PIB atinge em Portugal uma dimensão inusitada, acima dos 50%, excedendo os equivalentes da Alemanha e da Zona euro e sendo superado apenas pelos da França e da Dinamarca. Reparem que eu não digo que os salários são altos em termos absolutos. Seria uma ignomínia. Digo que eles são altos face ao produto, porque temos uma produtividade paupérrima. E sem o antídoto salarial não podemos competir.

O tema dos salários é muito sensível, porque mexe com a vida das pessoas. E eu já me habituei às inúmeras mensagens daqueles leitores que, tomando como exemplo o seu próprio salário, me perguntam indignados: com que então ‘x' euros é muito? Claro que não. Mas a pergunta está mal posta. Estes leitores tendem a confundir o salário de que precisam com aquele que a economia lhes pode dar. E uma discussão a este nível não leva a lado nenhum.

Preparem-se para o pior.

 

O MAL PORTUGUÊS

 

Gastos excessivos...

(Salários/PIB (%))

...endividamento louco

(Balança corrente, % do PIB)

   

Embora os nossos salários sejam baixos, o seu peso no PIB excede a média da Zona euro e é mesmo superior ao da Alemanha. Justificação óbvia: temos uma produtividade paupérrima. Esta não será a única razão, mas é principalmente por isso que chegámos a este desequilíbrio louco: estamos a endividar-nos ao ritmo de 10% do PIB em cada ano. Só há duas saídas: ou melhoramos a produtividade ou baixamos os salários...

Fonte: Eurostat.

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

 

Comentários

1 | 2 | »»

PéGelado , VNGaia | 11/02/11 17:40
"Só há duas saídas: ou melhoramos a produtividade ou baixamos os salários..."

A.Ferreira , Aveiro | 11/02/11 15:52
Sr.Dr. Daniel, permita a pergunta de um ignorante. Importa-se de explicar porque é que a produtividade dos portugueses(em Portugal,claro) é baixa?! São os trabalhadores que são madraços ou será que é ao patronato que este "status quo" se mantenha?
Trilema , | 11/02/11 14:04
Embora longe da realidade, admitamos que , com excepção dos marajás e da pobreza marginal, os restantes portugueses tem uma vida condigna com a salário que ganham e sem necessidade de se endividarem. Poderíamos então dizer: os salários são os adequados às necessidades e ao custo de vida, pelo que o desequilibrio global da economia deriva do baixo valor do produto final que esses salários produzem.
E de que depende o valor do produto final produzido?
Depende do tipo de investimento que é realizado. Parece evidente que os investimentos em betão, em call-centers, em centros comerciais, em supermercados,etc., bem como os investimentos realizados no estrangeiro sem quaisquer sinergias com a produção nacional, não acrescentam grande valor aos produtos que produzimos.E se simultâneamente deixámos destruir as actividades com algum valor acrescentado a troco de subsídios, pior ficámos.
Por isso a alternativa, no actual enquadramento económico, é entre conseguir que alguém realize uma dúzia de grandes investimentos produtivos no país, capazes de vender o suficiente para tapar o buraco do défice comercial externo (20 mil milhões em 2010) ou acietar empobrecer continuadamente.
ESta última alternativa tem uma dificuldade: a distribuição do mal aos bocadinhos nunca dura demasiado tempo.

É Cego... , | 11/02/11 11:42
O seu artigo mostra bom tacto... mas é cego!
Não considera a grave questão de que sem uma melhor REDISTRIBUIÇÃO DE RENDIMENTOS não há JUSTIÇA SOCIAL.
Sempre atento , Coimbra | 11/02/11 11:24
Caros leitores e comentadores, na minha opinião não é só o facto de os salários serem baixos, mas sim o aumento do custo de vida em Portugal desde a entrada do Euro. O que é certo é que o custo de vida aumentou mais do que a média dos salários pagos, daí que as pessoas não têm visto as suas finanças a melhorarem. Com uma crise internacional as coisas agravaram-se. Em relação à produtividade remeto à actual situação do nosso código do trabalho que está no cerne da nossa falta de produtividade. Ao termos um emprego para a vida isto tende a criar vícios no trabalho e acabamos por não dar lugar a pessoas mais produtivas para aquele trabalho. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensam uma alteração no código do trabalho pode contribuir para a rotatividade dos trabalhadores. O emprego para a vida acabou e quem não se ajustar a esta nova situação não se consegue vencer nem ajudar o país a sair desta situação.

Paulo Silva , | 11/02/11 10:59
O problema está mal colocada, se a produtividade é baixa é porque os salários dos Portugueses também o são. Alguém está motivado para trabalhar com salários de miséria? Com € 500,00 por mês os Portugueses preocumpam-se não com o modo como poderiam produzir mais, mas sim como é que vão conseguir alimentar os filhos. Gostaria de ver a produtividade deste senhor se tivesse pois um salário de € 500,00.

Realista , Porto | 11/02/11 09:13
O artigo não traz nada de novo, a não ser a afirmação de que a solução FMI seria melhor que a ajuda Berlim-Paris. Admira-me que o autor diga uma coisa destas. Olhe, pergunte aos gregos e aos irlandeses se estão satisfeitos. NÓS PRECISAMOS DE AJUDA MAIS FLEXIVEL E MAIS PONTUAL. A questão da indexação ou não de aumentos salariais à inflação é um pormenor, im fait-diver.

LOPES CARLOS , Bélgica | 11/02/11 08:21
1. Infelizmente para os Portugueses há uma terceira "saída" ( desemprego estrutural em larga escala).
2. Infelizmente vem aí a inflação que "ajudará " a retirar poder de compra aos Cidadãos Comuns.
3. Como eliminar ( tardiamente e sem o favor dos ventos) os nós górdios que estrangulam o nosso Desenvolvimento Economicop e Social ?
4. Os "ruidos" surgem de muitos lados, mas nada de consistente se vislumbra.

Viriato , | 11/02/11 07:36
Grande Daniel!!! força, aguardamos já o próximo artigo.
mais um , Lisboa | 11/02/11 00:41
De facto podemos falar de baixa produtividade pois nada produzimos. Transformá-mos o tecido produtivo em serviços sem retorno a curto e médio prazo face aos investimentos realizados, porém temos de pagá-los. Os consumidores do Mundo moderno querem bens de consumo como é transmitido e comunicado pelo status quo politico a consequência está à vista e andamos sempre a inventar para jsutificar tais desvios. Agora é a produtividade! Não será antes o excesso de impostos directos e indirectos? Mandatos de administrações 3 a 5 anos? Crescimentos acima de 2 digitos nos resultados da banca e grandes empresas públicas monopolistas? Excesso de empregados políticos nas privadas? Haja paciência... a perda de valores nos últimos 35 anos tem sido isso sim a grande responsável

 

 

 

 

publicado por ooraculo às 18:11
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