Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

Contas a martelo

Pressionado por Bruxelas, o Governo assumiu o compromisso de, em 2010, reduzir o défice público para 7,3% do PIB, algo como €12.544 milhões. Nunca nos disse qual era o valor do PIB, e muito menos a forma como o calculou. Mas é óbvio que ele é dedutível a partir do défice: €171.836 milhões. O pior vem a seguir: este valor está sobreavaliado, ao admitir um crescimento nominal de 4,8% face a 2009 que hoje se sabe ser impossível. E agora?

Presumindo não ser capaz de respeitar o compromisso, o Governo foi bater à porta da PT, propondo-se absorver o seu fundo de pensões a troco da transferência para o Estado da responsabilidade de pagá-las. Números avançados: primeiro, o encaixe seria de €2.600 milhões; mais tarde, passou para €2.800 milhões; e uma avaliação actuarial da Towers Watson, na base de uma taxa de desconto de 4%, fixou o valor em €2.418 milhões. Assunto encerrado.

Foi entretanto publicada uma execução provisória do OE-2010. Elementos novos: as despesas foram acrescidas de €1.001 milhões, devido à compra de dois submarinos de que o Governo se "esquecera"; e as receitas incluem mais €1.882 milhões, oriundos de "parte" do fundo da PT. Admitindo que o défice de 7,3% se mantém, é óbvio que ele só foi possível graças a este diferencial positivo de €881 milhões. Mas... que é feito dos €536 milhões que restam?

Passemos ao OE-2011, que prevê um défice €8.097 milhões, 4,6% do PIB. De acordo com o Governo, o PIB em 2011 deverá crescer 0,2%. Mas os cálculos foram feitos no pressuposto de uma queda de 0,7%. E as projecções sugerem que ele caia pelo menos 1,3%. Não se riam, que a coisa é séria! Além de que o PIB implícito naquele défice continua sobreavaliado. Deixem-me adivinhar: é o remanescente do fundo da PT que vai tapar o buraco? E isso chega?

Mas há mais. Aquando daquela bravata do PSD, que "exigiu" cortar €550 milhões à despesa para viabilizar o orçamento, o Governo só aceitou porque não tinha alternativa. Mas não cortou nada, porque não tinha onde: apenas cativou umas verbas e depois se veria. Talvez se descobrisse uma concessão, uma privatização, um fundo qualquer... Pergunta mazinha, associada à PT: se já estoirámos com as pensões, como vamos pagar aos pensionistas?

Está tudo doido.

 

FINANÇAS PÚBLICAS

Cobrança normal...

(Receitas, % do PIB)

...gestão suicida

(Despesas, % do PIB)

   

Ao contrário do que se imagina, as nossas receitas orçamentais, no essencial oriundas de impostos, não são excessivas. Pelo contrário: elas são inferiores às alemães e bastante inferiores à média da Zona euro. E, excepção feita ao ano de 2010, em que o Governo "exagerou" para tentar combater a crise, também não têm subido face ao PIB. O nosso grande problema está nas depesas, que não conseguimos controlar.

Fonte: Eurostat.

_____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

mariaber , Lisboa | 18/02/11 17:51
Estou completamente de acordo com o seu comentário,só que quando pergunta aonde o estado vai descobrir mais algum fundinho para resolver o problema ,que é por demais evidente,alerto para os fundos de pensões dos bancos que vão ser as próximas vitimas

Sócrates é um vigarista ao serviço de interesses empresariais e políticos espanhóis , | 18/02/11 13:22
Estado diminui défice vendendo imóveis a si mesmo. A empresa pública Estamo foi a maior fonte de receitas do Estado em 2010, tendo comprado mais de metade dos imóveis que o País vendeu nesse ano, escreve hoje em manchete o "Jornal de Negócios". De acordo com o "Jornal de Negócios", a Estamo comprou imóveis ao Estado no valor de 290 milhões de euros, o que implicou uma redução do défice orçamental em cerca de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB). O jornal acrescenta que a informação é proveniente do próprio Ministério das Finanças, num relatório entregue ontem no Parlamento, segundo o qual a empresa Estamo comprou 60% do total dos imóveis vendidos pelo Estado em 2010.

FG , lisboa | 18/02/11 13:15
O Dr. Daniel Amaral deixou de ser respeitável intelectualmente por nos seus artigos optar pela apresentação de dados errados para extrair as conclusões políticas que lhe interessam.
No artigo anterior afirmava que a receita em 2010 vinda do FP da PT era 2.800MM (apontei esse erro num comentário meu) e agora vem dizer que na verdade foi 1.882MM.
UM ERROZITO DE 1.000MM DE EUROS !
Hoje repete e maximiza os erros, nomeadamente:
1. O PIB2010 previsto não é 171.836MM, mas sim 170.838.2MM;
Mais UM ERROZITO DE 1.000MM DE EUROS !
2. O Defice2010 previsto não é 12.544MM , mas sim 12.440.8MM;
Mais UM ERROZITO DE 100MM DE EUROS !
(CF a 2ª Notificação do Reporte do defice da
dívida das Administrações Públicas...INE 28 SET2010);
Depois há-de o Dr. espantar-se de o INE ir reportar 6.9% de defice e não os 7.3% que aqui assume !
E agora? , Coimbra | 18/02/11 11:34
Pois é.. Este desgoverno que existe já não tem cura! Estamos a entrar no efeito bola de neve.. Cada vez precisamos mais de nos endividar e a juros altíssimos.. Cada vez que é necessário receita vamos buscar sem ter certeza de pagar ou se vamos prejudicar o futuro daqueles que ainda não nasceram..
As ideias para cortar nos gastos já são poucas e o puxar pela receita está condenado pelo aperto.. A única viabilidade é virem os de fora injectar uns milhões.. O problema é quando estes vierem, se somos capazes de mudar de rumo para melhor, ou se acontece tudo outra vez..

ppp , | 18/02/11 11:29
Poruqe razão o endividamento de portugal a partir de 2005 é muito superior à soma dos défices a a partir do mesmo ano ?? Um doce para quem souber a resposta.

Realista , Porto | 18/02/11 09:55
Mas afinal o que pretende o autor com este artigo? Aqui e agora já não interessam para nada os calculos do PIB e do defice. O problema já não está nas nossas mãos (alguma vez esteve?) mas sim em Bruxelas. Claro que vamos precisar de ajuda. E das duas uma, ou "levamos" com aquela ajuda "burra" com que levaram os gregos e os irlandeses, ajuda que lhes foi metida pela garganta abaixo, ou beneficiamos de um tipo de ajuda mais flexivel que os alemães tardam em disponibilisar. Ha quem entende que temos que esperar pelas eleições alemãs de Março. Ha que entenda que os alemães estão à espera que Portugal peça ajuda, para depois definir o novo modelo de ajuda. Pelas movimentações recentes parece que esta última hipotese é a mais provavel.

LOPES CARLOS , Bélgica | 18/02/11 07:21
1. O Sr. Dr. Daniel Amaral mais uma vêz coloca os pontos nos is. E sempre de forma fundamentada.
2. Transparencia, rigor e redução nitida das despesas são alguns dos parametros dum caminho estreito que temos de prosseguir durante muito tempo.
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publicado por ooraculo às 17:59
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