Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

Ilusionismo

As exportações estão na moda. Sempre que se fala de crise, e da melhor forma de a combater, lá vem o antídoto que todos utilizam como refrão: exportar, exportar, exportar. Longe de mim pôr em causa esta atitude voluntarista, que tem todo o mérito e deve ser prosseguida. Seria um desmancha-prazeres. Mas não contem comigo para branquear os comportamentos de todos quantos, a pretexto de tudo o que é meritório, se entretêm a vender ilusões.

Consideremos a nossa estrutura produtiva, vista do lado da procura. A um PIB igual a 100, correspondem 88 de consumo e 19 de investimento, o que soma 107; os 7 a mais são dívida externa e reflectem a diferença entre importações (35) e exportações (28). Foi o acumular destes desequilíbrios externos, ao longo de muitos anos, que levou ao endividamento louco que hoje quase nos asfixia. E precisamos desta imagem para perceber as seguintes.

Os números do INE sobre o comércio externo de 2010 não estão completos. Eles só mostram os bens, não os serviços. Mas admitamos que a evolução dos dois foi análoga: as exportações aumentaram 15,7% e as importações apenas 10,5%. Um resultado excelente? Não. Apenas sofrível. Como as importações pesam mais, o saldo continuou negativo e ainda maior do que no ano anterior. A tese do "excelente" ignora uma das variáveis da equação.

Também o comportamento dos mercados não ajudou grande coisa. Um dos nossos objectivos era a diversificação. E de facto conseguimo-la, mas em escala reduzida: as exportações para o mercado extracomunitário subiram apenas três pontos para os 27%. Claro que há mérito, mas sabe a pouco. Em contrapartida, o preço do petróleo voltou a subir feito doido; e para isto não há antídoto nenhum. Em suma: marcamos golos de um lado, sofremos golos do outro.

Nota final. A melhor via para analisar a dependência externa não é balança comercial, mas a balança corrente, que inclui os rendimentos e as transferências. O nosso historial da balança corrente aponta para défices anuais da ordem dos 10% do PIB; e no último ano não deve ter andado muito longe disso. É o défice mais alto da Zona euro, sabiam? Eis a mensagem que prevalece: no final de 2010, estávamos ainda mais pobres do que um ano antes.

Não vendam ilusões.

 

UM MAR DE DÍVIDAS

 Do défice externo...

(% do PIB)

 ...à balança corrente

(% do PIB)

A nossa balança comercial tem sido cronicamente deficitária, com as importações a excederem em muito as exportações. E, de cada vez que se faz um esforço em busca do equilíbrio, fica a ideia de que nos esquecemos de uma das variáveis da equação: o que conta é o saldo, não apenas o que exportamos. Quando a tudo isto se juntam os rendimentos pagos ao exterior, ficamos com o quadro completo: um mar de dívidas...

Fonte: INE, Banco de Portugal

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

O problema , | 25/02/11 16:54
O problema é que para se conseguir produzir alguma coisa cá, tem de se importar!
Quase não há produção. É tudo transportes e serviços.
Sebastião , | 25/02/11 14:17
O défice comercial externo de Portugal foi de 20 mil milhões de € em 2010: 4,4 mil mihões de € (22%) gerados no comércio com países extra-comunitários e 15,6 mil milhões de € (78%) gerados no comércio com os restantes países da união europeia.
O defice extra-comunitário entenede-se já que é da exclusiva responsabilidade das importações de petróleo pois ainda se não descobriu petróleo no país,
Já as razões para o défice com os restantes países da união europeia não foram ainda explicadas pelos economistas, que se limitam a repetir até à náusea a ladaínha da falta de produtividade/competitividade/reformas estruturais. O que, evidentemente, nada explica.
Seria útil que que essas razões fossem claramente explicadas. E não são difíceis de encontrar.
Silva , | 25/02/11 11:48
Sempre que esta questão se levanta os comentários caem sempre no mesmo: "Não comprem nada para diminuirmos as importações!"... Não seria mais sensato dizer: "Não comprem mais do que aquilo que podem comprar; comprem made in Portugal; é preciso produzir mais coisas em Portugal!"...???
É que nós não vivemos no séc. XV, precisamos de coisas, e a Economia precisa de girar. Não podemos é pô-la a funcionar a toque de empréstimos. É simples.
Ze da Silva , | 25/02/11 10:41
Na verdade a balanca de pagamentos do Pais isto e;,a diferenca entre aquilo que entra no Pais sejam ele os lucros repatriados de empresas nacionais , transferencias de emigrantes portugueses no estrangeiro ou o valor das exportacoes e aquele outro valor do que daqui sai isto e; aquilo que transferimos para o estrangeiro, seja ele causado pelas ferias no Brasil,os alhos da china,os meloes de espanha, o BM da Alemanha,as transferencias dos imagrantes que aqui trabalham ,os produtos energeticos ou os juros que pagamos plos emprestimos que fazemos e o que verdadeiramente determina a nossa riquesa (ou a nossa pobresa!).Muito mais do que um Orcamento do Estado desiquilibrado (ate certo ponto).
No entanto e apesar do comportamento destas duas realidades economicas serem influenciado maioritariamente por variaveis muito diferentes ha no entanto, entre elas uma relacao dinamica.Se o equilibrio do OdE esta principalmente dependente das despesas do e da forma como o Estado gasta o dinheiro que recebe ja a balanca de pagamentos no nosso caso, esta dependente mais do que tudo do valor daquilo que importamos isto e; daquilo que colectivamente consumimos .Se o nosso aparelho produtivo nao responder a procura em qualidade ou preco e porque somos uma economia aberta e vivemos na EU, vamos comprar noutro lado (agravamos a nossa balanca de pagamentos/divida ao exterior).A unica maneira de compensar isto e vendermos um valor equivalente para o exterior ,ou se nao conseguirmos, temos de pedir esse valor emprestado.Simples. E e isto que temos andado a fazer a pedir emprestado para financiar grande parte daquilo que consumimos!.
O Orcamento do Estado desiquilibrado pode ser sempre reduzido apertando cinto ,aumentando impostos e ou o Estado gastar menos.Ou entao uma mistura de tudo isto e procurar aumentar as receitas atravez da dinamisacao das exportacoes.Com uma politica adequada e concertada em diversas areas e uma procura agressiva de mercados e possivel alcancar resultados positivos. Ja reduzir as importacoes nao e assim tao facil dado pertfil destas e num Pais como Portugal e pertencendo a EU e com atitude algo vaidosa e frivula dos Portugueses!
Ja o ilusionismo e aquilo que praticam aqueles que em face desta realidade pensam que o Pais pode sai da situacao em que nos encontramos se por um lado nao atacarmos a despesa publica (a despesa do Estado) e ao mesmo tempo melhorando o aparelho produtivo ( ah a formacao e o conhecimento tecnico!) para que possamos tanto quanto possivel responder internamente (dificil dado a nossa atitude de valorisar o estrangeiro) e ao mesmo tempo procurar vender,vender de tudo e para todo o sitio em que nos queiram comprar produtos.Isto claro se entretanto conseguirmos evitar cair na armadilha de do chamado "resgate"(?) financeiro.Essa
Xxx , | 25/02/11 10:30
Portugal tem que aumentar muito os juros para acabar com o endividamento galopante e diminuir as importações.
 
Sócrates é um "bluff" mediático, um "estadista" da treta , | 25/02/11 09:57
Com a conivência da imprensa e o absoluto silêncio da pseudo-oposição do PSD, o "engenhero" Sócrates vende ilusões aos carneirinhos "tuguinhas" que nós somos.
Somos uns palhacitos sem brio e aceitamos, em nome da "estabilidade", que um gangster incompetente vá permanecendo no poleiro onde só fez porcaria nos últimos seis anos completos.
 
Realista , Porto | 25/02/11 09:26
Eu tambem considero que o pior indicador da nossa situação actual não é o defice orçamental nem a dívida. É o defice nas contas externas. A revista The Economist traz sempre nas suas ultimas páginas estatisticas sobre as 30 ou 40 economias mais importantes. Nenhuma delas tem um defice nas contas externas como o nosso. Estou de acordo com o comentario <Tuga imbecil>. Não basta aumentar as exportações.Temos tambem que conter as importações. Na agricultura e nas pescas desde logo, até por razões de dignidade. Mas tambem as importações de produtos energeticos, com barragens, eólicas, mais ferrovia, etc. Sabiam que somos o país da zona euro mais dependente do petroleo? Concordo e discordo de <Lopes Carlos>. Deus o ouça quando diz que a UE vai criar até fins de Março um quadro de ajuda mais flexivel de que possamos beneficiar. Olhe que os irlandeses não estão satisfeitos com o bail-out de ha 2 ou 3 meses atrás, com uma taxa de juro de 5,8% e nas próximas eleições vão votar pela sua renegociação. Era essa ajuda que queria para Portugal? Por outro lado volto a insistir que a saída portuguesa (porque uma saída tem que haver) não vai passar pela diminuição da dívida pública dos actuais 140.000 milhoes. Vai passar é pelo crescimento do PIB, que fará com que a relação dívida/PIB (e é esta relação que interessa, não o valor absoluto) volte aos 60%.
publicado por ooraculo às 18:51
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