Sexta-feira, 4 de Março de 2011

Atenção ao emprego

Primeiro os conceitos. Chama-se “PIB potencial” ao valor que uma economia conseguiria produzir num determinado período de tempo se todos os seus recursos fossem utilizados de forma plena e eficiente. Mas esta é uma situação extrema. Daí que se lhe junte o conceito de "hiato do produto", que é igual à diferença entre o PIB efectivo e o PIB potencial, medido em percentagem deste último. São dois fenómenos complexos, mas muito interessantes.

Agora os números. Uma economia saudável é aquela que sabe escolher os seus recursos de modo a optimizar o crescimento económico e a criação de emprego. Infelizmente, não foi isso que sucedeu à economia portuguesa nos últimos 10 anos: o investimento caiu oito pontos para os 19% do PIB; o desemprego subiu sete pontos para os 11% da população activa; e o rendimento ‘per capita' cristalizou nos 73% da média da Zona euro, a cauda do pelotão.

Estes números sugerem o óbvio: ou o nosso crescimento potencial é fraco ou somos nós que não sabemos aproveitá-lo. Na verdade, há de tudo um pouco. O crescimento do PIB potencial vem a decrescer há pelo menos duas décadas; e o hiato do produto entrou no vermelho em 2009, altura em que o PIB efectivo passou a ser inferior ao PIB potencial. Para os amantes de estatísticas, aqui têm: este é o momento em que de facto entrámos em recessão.

Que a economia não é famosa já todos sabíamos. Mas precisamos de saber porquê, para que possamos melhorá-la. Em minha opinião, as razões são quatro: pouco e mau investimento, organização empresarial inadequada, deficiente formação de base e, como corolário de tudo isto, uma produtividade paupérrima. Não, não é por falta de mão-de-obra que as coisas não funcionam. Os mais de 600 mil desempregados aí estão para o demonstrar.

A uma semana da cimeira europeia de líderes que vai retomar a discussão sobre os PIGS, o nosso grande desafio é corrigir a péssima impressão que alguns parceiros têm de nós. Ou seremos cilindrados. Não é a austeridade que está em causa. É o seu grau de exigência. Não podemos validar "soluções" que obstem a um investimento mínimo que assegure um mínimo de criação de emprego. E não basta travar a doença: precisamos de não morrer da cura.

É agora ou nunca.

 

ECONOMIA SOFRE

Investimento fraco...

(Investimento, % do PIB)

...PIB abaixo do potencial

(Hiato do PIB**)

   

 

*Estimativas. ** [PIB efectivo/PIB potencial - 1]x100.

 

Em dez anos, o investimento caíu oito pontos para os 19% do PIB, afectando o crescimento potencial. Apesar disso, ele ficou nivelado com o dos outros países da Zona euro, sintoma de que as escolhas têm sido mal feitas. Para agravar a situação, o hiato do produto passou a negativo em 2009, com o PIB efectivo a situar-se abaixo do PIB potencial. Era o início da recessão, ninguém sabe até quando. Tudo acontece a este país...

Fonte: Eurostat.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

Comentários:

 

 Realista , Porto | 04/03/11 18:08
Para <Homo economicus>. Concordo com o seu comentario, embora eu não seja um adepto da "teoria" dos bens transaccionáveis e não transaccionáveis. Mas, no fundo, o problema está mesmo na última frase do seu comentario: quem vai fazer o investimento. É aqui que a porca tprce o rabo. É aqui que está o estrangulamento. Os neolibs dizem que só as empresas e em especial as (tão famosas) PME é que criam riqueza e vai daí.....Os Keynesianos (não gosto do termo mas não encontro outro) exigem a participação do Estado. Eu pertenço a este último grupo. A Espanha, eu sei que a Espanha não é exemplo, exemplo são os states e o UK, a Espanha, dizia eu, acaba de perfurar um túnel de 7 Km por baixo de Madrid, para ligar os AVE (TGV) que vêm do Norte aos do Sul. E não houve contestação. Toda a gente bateu palmas. Aqui andamos ha décadas, sim ha décadas, a discutir o aeroporto de Lisboa e a primeira linha de TGV.

José , Lisboa | 04/03/11 16:56
Já agora só para acrescentar: o PIB real pode crescer a um ritmo superior ao do PIB potencial. Se isso se mantiver, significa que o valor do PIB real se aproxima do valor do PIB Potencial. No LIMITE, os dois igualam-se, o que é a situação perfeita.
Eu não sou economista, mas não é preciso ser para perceber isto!
José , Lisboa. | 04/03/11 16:53
LOPES CARLOS,
Está a falar do CRESCIMENTO previsto do PIB POTENCIAL e do PIB REAL. Isso é uma coisa. Podem crescer a ritmos diferentes.
Outra, bem diferente é dizer que o VALOR do PIB Real é superior ao valor do PIB Potencial.
Impossível, ou então das duas umas: estamos no Paraíso ou a definição está mal feita.
LOPES CARLOS , Bélgica | 04/03/11 16:25
1. Segundo as "Perspectivas Economicas da OCDE " n°85 (2009) , no período 2011/2017, Portugal terá um crescimento médio anual POTENCIAL previsto de 0,7 ( ver Quadro 4.2 , pag 241).
2. Segundo a mesma publicação e para o mesmo periodo , Portugal terá um crescimento médio anual REAL previsto de 1,5 ( ver Quadro 4.3 , pag 243).
Homo economicus , | 04/03/11 14:21
De facto os investimentos realizados nos últimos anos foram innvestimentos não reprodutivos cujo efeito na criação de riqueza e no emprego se esgotavam largamente no momento da sua conclusão (obras públicas, habitação,etc). Mas não foram investimentos mal feitos.Foram apenas os possíveis de realizar para que se mantivesse o nível de emprego (a par com o emprego público) e o crescimento do PIB.
E porque não se realizaram investimentos suficientes nos sectores de bens transaccionáveis?
Porque a rentabilidade dos investimentos nesses sectores em que o país detinha know-how de capital e de mão-de-obra se tornou negativa:
- nos produtos exportados para os mercados europeus devido à concorrência de países terceiros a quem se abriram as fronteiras cometciais da europa;
- nos produtos para o mercado interno devido à concorrência dos produtos europeus importados a preços marginais de empreesas com maiores economias de escala.
Como quem investe não gosta de perder dinheiro, pura e simplesmente deixou-se de investir nos sectores de bens transaccionáveis. E parte do que existia foi fechando ou, na melhor das hipóteses, foi sendo vendida a investidores estrangeiros. Por outro lado, os novos investimentos em novos sectores de bens transaccionáveis foi muito insuficiente, ao nível do emprego e da balança comercial, (esta agravada pelo desvario de crédito barato pós-euro) para compensar a desactivação dos antigos sectores.
Menos óbvio parece ser saber quem vai realizar os investimentos necessários para inverter a situação a que chegámos.
Playboy Jardines , | 04/03/11 14:15
Caro Economista Daniel Amaral, mas o PIB efectivo não é sempre por definição menor do que o PIB potencial? Tinha curiosidade de saber que manuais de macroeconomia você andou a estudar.
 
Fitch corta 'rating' das acções preferenciais da Caixa Geral de Depósitos , | 04/03/11 14:08
Parabéns, "engenheiro" sucateiro Sócrates por transformar a nossa CGD (100% propriedade do Estado) em "junk".
Ou seja, lixo.
LIXO.
Com total impunidade política.
A economia falhou , | 04/03/11 11:48
O problema de todos os problemas é que todos os modelos económicos que se utilizam hoje em dia não se adequam à realidade. Nenhum deles consegue explicar o porquê de todos estes problemas. Andamos a discutir o que não tem interesse. Discutam projectos para o futuro e tenham em conta o que realmente interessa que são as pessoas e não os números. Os senhores dos números já falharam mais vezes que as previsões do tempo. Estamos a ser vitimas de uma tentativa de controlo mundial.. Abram os olhos antes que seja tarde demais!
José , Lisboa | 04/03/11 11:20
Não percebo...
O PIB potencial é SEMPRE superior ao PIB efectivo, uma vez que o PIB potencial, de acordo com a definição, é o valor que uma economia conseguiria produzir num determinado período de tempo se todos os seus recursos fossem utilizados de forma plena e eficiente. Logo, seria algo de perfeito e a perfeição não existe. Portanto, o PIB real é sempre inferior ao PIB potencial. Isto não acontece só na economia, mas também na Engenharia, Física, etc..
Daí que o texto do autor ou está mal explicado, ou o autor enganou-se, ou temos um problema sério nas nossas faculdades de economia.
Realista , Porto | 04/03/11 09:36
O essencial da nossa situação actual está nas duas últimas frases do artigo. Não interessa se o defice vai ser superior ou inferior a 4,6%. Não interessa o que a Sra Merkel pensa das nossas medidas de austeridade. O essencial é que, como diz o autor: "Não podemos validar "soluções" que obstem a um investimento mínimo que assegure um mínimo de criação de emprego. E não basta travar a doença: precisamos de não morrer da cura." É isso, não podemos esquecer o crescimento, que passa por um mínimo de investimento e pela ocupação de, pelo menos parte, dos desempregados actuais. IT'S THAT SIMPLE!
 
publicado por ooraculo às 18:24
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