Sexta-feira, 11 de Março de 2011

O risco de asfixia

A opinião que hoje tenho sobre o défice de 4,6% do PIB em 2011 é a mesma que tinha quando o orçamento foi aprovado: ele só será exequível com o recurso a medidas extraordinárias. É fácil explicar porquê: o quadro macroeconómico é irrealista e o Governo não sabe lidar com a despesa. A demagogia oportunista do PSD, que exigiu correcções aos impostos para viabilizar o documento, apenas ajudou à festa. Agora vamos ter de recuperar tudo com juros.

As medidas extraordinárias podem ser encontradas dentro ou fora do orçamento. Mas, nesta fase, creio que seria suicida penalizar ainda mais as famílias. Ninguém entenderia. E tenho uma proposta menos má: recorrer à venda de activos, ao remanescente do fundo da PT e, se tudo isto não chegar, a outros fundos de pensões. Faço-o, porém, a contragosto: alienar activos é uma dor de alma; e a absorção destes fundos é um insulto aos pensionistas.

Acresce que a consolidação orçamental assumida vai até 2013. E, seja o que for que aconteça daqui para a frente, nos próximos dois anos já não deverá haver activos para alienar nem fundos de pensões para absorver. Como os saldos orçamentais vão continuar negativos, e o crescimento económico deverá ser nulo ou próximo disso, as soluções que nos restam mexem com o nível de vida: vamos ter de aumentar impostos e/ou diminuir rendimentos.

Projectando a dívida pública a três anos, conclui-se que ela vai continuar a subir, estabilizando à volta dos 86% do PIB exactamente em 2013. Deixemo-nos de paninhos quentes: esta dívida é ingerível e tem de ser reestruturada. Só vejo uma solução: congelar a parte que exceder os 60% do PIB - algo como €40 mil milhões - e parqueá-la num organismo para o efeito escolhido, seja o BCE ou outro qualquer. Quem diz congelar diz esquecer...

Perante este quadro, é óbvio que vamos precisar de ajuda externa. E só no-la dão se quiserem. Mas, dito isto, considero que é uma estupidez pretender que a nossa consolidação orçamental pode fazer-se num espaço tão curto. A mordaça é de tal ordem que elimina qualquer hipótese de investimento e de criação de emprego. O que é o mesmo que condenar o país à morte por asfixia. Se é esse o desejo dos chefões da Europa, o melhor é assumi-lo já.

O tempo escasseia.

 

FINANÇAS PÚBLICAS

Gestão falhada...

(2007=100)

 ...dívida ingerível

 (% do PIB)

   

Projectando a situação até 2013, à luz das perspectivas recentes, conclui-se que, em sete anos, o PIB nominal cresce 10% e a dívida pública cerca de 50%: é a negação completa do que deve ser uma gestão orçamental. Daí que, de uns razoáveis 63,6% do PIB no início, esta dívida dispare para os 86,6% do PIB no final, um valor praticamente ingerível. Esta dívida tem de ser reestruturada - seja o que for que isso signifique...

Fontes: Governo, Banco de Portugal
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 


Comentários

 
 
Francisco de Almeida , Lisboa | 13/03/11 15:49
Aquando das ultimas eleições legislativas em que o PS perdeu a maioria absoluta, a situação económica/financeira interna e externa já era muito má, logo e considerando o nosso sistema politico, Cavaco Silva nunca deveria ter aceite que se formasse um governo minoritário.
Fê -lo por tacticismo, tal como o PSD não apoiou a moção de censura do BE ou não apresenta uma da sua autoria bem como o PS não apresenta uma moção de confiança.
Estas três entidades jogam o mesmo jogo, mas ao contrario de um jogo normal, onde à partida, não se sabe qual é o perdedor e o vencedor, neste sabemos que Portugal (o povo português) é sempre o perdedor e "eles" nunca perdem.
A manipulação socrática continua , | 12/03/11 17:25
"Fundo Europeu pode comprar dívida portuguesa", anuncia hoje triunfantemente o socrático desGoverno.
E como sempre, os incompetentes (ou acomodados e acobardados) jornalistas "tuguinhas" lá vão engolindo os sound-bites do brilhante "engenheiro" sucateiro Sócrates de forma totalmente acrítica.
Infelizmente não pensam e não lêem. Não leram por exemplo as conclusões da "cimeira" de ontem.
Ora, o que lá se diz é que:
- se um Estado membro europeu pedir ajuda (mas recordo que o Sócrates diz que este Portugal sucateiro NÃO precisa de ajuda),
- se aceitar um plano absolutamente rígido de"ajustamento" económico e orçamental (estamos a falar de um “plano” totalmente novo, integralmente elaborado sob a égide de terceiras entidades, entre as quais o FMI, uma coisa a sério; e não estamos pois a falar dos fabulosos PEC I, PEC II, PEC III, PEC IV ou do mais recente e tão progressista PEC V que já nos foram impingidos pelo inefável “engenheiro desleixado” Sócrates e por esse verdadeiro “mago das finanças” que é o Teixeira “Errata e Discrepância” dos Santos),
- se houver participação do FMI (repito, do FMI) na análise conduzida também pela Comissão e pelo BCE,
- se houver decisão unânime dos restantes Estados membros,
- se em certos casos de insolvência houver uma negociação com os credores privados tendo em vista a "reestruturação" (ou seja, o não reembolso) de parte da dívida,
- se o FMI (repito, o FMI) for sempre a primeira entidade a ser reembolsada,
poderá então ser ponderada a concessão de assistência (isto é, de ajuda) financeira sob a forma de empréstimos directos ao Estado pedinte.
E apenas a título excepcional poderá ser encarada uma intervenção dos Fundos europeus de ajuda de emergência no mercado primário da dívida, no contexto de um programa de ajuda (repito, de ajuda) ao Estado pedinte, subordinado a uma estrita condicionalidade.
Mas eu pergunto novamente: o nosso brilhante "engenheiro" sucateiro Sócrates não tem dito que Portugal NÃO precisa de ajuda?... Ele continua a fazer de nós parvos, é? E os brilhantes cérebros da nossa imprensa económica "de referência" não se revoltam? E a Oposição não denuncia mais esta manipulação?
O menino de ouro Sócrates fez mesmo de nós um povo de carneirinhos sabujos de terceira categoria... Por isso mesmo, 700 000 Portugueses foram já obrigados a emigrar nos últimos anos (e já não votam). E outros 700 000 estão no desemprego.
Mas a procissão sucateira socrática rumo à miséria e à perca total e irreversível da independência nacional ainda vai no adro...
C. Vieira , Boston, USA | 11/03/11 14:32
Bom artigo. No meio de todo o barulho mediatico alguem que coloca as situacoes em perspectiva e com uma claridade que pode ser digerida e util.
alberto , lisboa | 11/03/11 12:20
Não se pode concordar mais com o articulista, a dívida é já hoje ingerível e em 2013 então... De facto, só um "perdão de dívida" pode permitir a Portugal continuar a andar em condições mínimas, e os credores sabem isso mesmo , as taxas actuais da dívida pública já estão corrigidas dessa possiblidade. Mas o que custa mais é saber-se que com este governo os sacrifícios serão em vão, não há qualquer estratégia ( ver os ingleses e os espanhóis p ex ) e a incapacidade de reduzir a despesa sem ser à custa da redução do poder dos salários é aflictiva. Este governo deveria ser levado ao banco dos réus pelo desgraça que trouxe ao país com as suas políticas desastradas, pacóvias e pseudo-modernistas, à imagem de um PM que começa a parecer inimputável. É visível que a Europa aposta hoje no resgate de Portugal para fazer baixar as tensões com o euro, e basta saber o que pensa a maioria dos alemães para perceber que a Alemanha, o grande financiador desta m.... toda, não irá viabilizar as pretensões do tolo do PM. Parabéns pelo artigo, é muito útil para esclarecer os iludidos e os ignorantes.
E o TGV espanholito "de las castañuelas"? Intocável?... , Henrique Neto | 11/03/11 11:28
Sócrates, com a sua falta de sentido de Estado, a sua ignorância, o seu voluntarismo pacóvio, a sua teimosia irresponsável e, porventura mais importante, a sua falta de patriotismo e de convicção sobre o interesse geral, iludiu durante seis longos anos todos os reais problemas da economia através de um optimismo bacoco e inconsciente. Não o fez apenas por ignorância, mas para servir os interesses da oligarquia do regime, através da especulação fundiária e imobiliária, das parcerias público-privadas, dos concursos públicos a feitio, das revisões de preços e de uma miríade de empresas, institutos, fundos e serviços autónomos, além das empresas municipais. Regabofe pago com recurso ao crédito e sem nenhum respeito pelas gerações futuras.
 
lucklucky , | 11/03/11 11:12
O keynesianismo requentado continua. Sempre à procura de um rico UE, Alemanha etc a quem prestar vassalagem depois de destruir um País.
E o seu primeiro parágrafo é risível. Que o PSD é keynesiano como o PS já todos sabemos. Agora que ponha em paralelo 50 milhões com os vários mil milhões só me diz que é uma parágrafo mensageiro, a dizer para o PS: vejam ainda estou do vosso lado. Aqui está a prova.
 
Xxx , | 11/03/11 10:01
Concordo com o autor em que a nossa dívida vai ter necessariamente que ser reestruturada. Só não concordo que não haja alguma coisa no estado que se possa cortar. Há muito instituto, gabinete, comissão, acessor, consultor para cortar. Muito mesmo.
Realista , Porto | 11/03/11 09:49
A situação actual de Portugal por vezes faz-me lembrar, para aqueles que acompanham o futebol, a situação do Sporting. O Sporting é dos 3 grandes o que mais aposta nos jovens e tem criado grandes jogadores, que depois não aproveita, deixando-os partir por tuta e meia para outros clubes. O problema do Sporting é que nos últimos anos tem-se concentrado quase exclusivamente na gestão da dívida, sem se aperceber que entrou num ciclo vicioso de díficil saída: devido à dívida não pode comprar bons jogadores, sem bons jogadores não ganha títulos nem faz receita, como não faz receita a dívida aumenta etc. etc. O Benfica já andou perto desta situação mas soube arriscar e sair do ciclo vicioso. Peço desculpa aos sportinguistas por usar o seu clube como exemplo. Eu sou do FCP. Mas voltando a Portugal. A mim não me passa pela cabeça pagar os 140.000 milhões de dívida pública que hoje devem representar cerca de 83% do PIB. Dívida elevada hoje quase todos os países ocidentais têm (Italia, Belgica, EUA até têm muito mais). A mim o que me passa pela cabeça são 2 coisas. 1-fazer um esforço para conter a dívida. Não é paga-la. É apenas contê-la. 2- aumentar o PIB, de modo que aquela relação dívida/PIB se va gradualmente reduzindo até atingir os almejados 60%. Claro que actualmente os juros que nos estão a pedir são demasiado elevados. Mas este é um problema que está mais nas mãos da UE que nas nossas resolver. Por que não vamos para as eurobonds? O que teriam os alemães a perder com isso? As eurobonds poderiam exustir ao lado de obrigações nacionais como as "bunds". É NA UE QUE O PROBLEMA TEM QUE SER RESOLVIDO. SE É QUE QUEREM MESMO SALVAR O EURO. PEDIR AJUDA NAS CONDIÇÕES DOS GREGOS (5,3%) OU DOS IRLANDESES (5.8%) NÃQO É SOLUÇÃO.
 
publicado por ooraculo às 17:17
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