Sexta-feira, 18 de Março de 2011

As taxas de juro

O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, acordou preocupado com as pressões inflacionistas e admitiu subir as taxas de juro. Os analistas destas coisas logo desataram a dar palpites sobre o quando e o quanto desta subida. E os mercados da dívida aproveitaram a deixa e subiram mesmo. Entretanto, nos EUA, com uma inflação semelhante à nossa e uma taxa de referência mais alta, o FED não tugiu nem mugiu. Há aqui qualquer coisa que me escapa.

Sem que isso envolva qualquer rigor científico, tem-se como boa uma inflação que tende para os 2% ao ano sem exceder este valor. E há muitos anos que ela vem a satisfazer esta regra, com excepção do início de 2011. Ainda assim, o FMI é taxativo: a inflação deste ano deverá ser de 1,6% nas economias avançadas e de 6,3% nas economias emergentes. Países como a China, a Índia ou Brasil poderão estar preocupados. Mas, aqui na Europa, qual é o problema?

Exemplo típico de pressões inflacionistas é aquele que ocorre nas economias sobreaquecidas, quando os salários sobem de forma descontrolada e levam tudo à frente. O antídoto para isso está nas taxas de juro. Mas as últimas projecções do Eurostat sugerem que, em 2011, toda a Zona euro estará com um PIB efectivo abaixo do PIB potencial; e o crescimento médio previsto é de apenas 1,5%, com valores negativos na Grécia, na Irlanda e em Portugal.

O reflexo mais notório deste subaproveitamento de recursos está no desemprego. Números recentes apontavam para taxas da ordem dos 10% da população activa no conjunto da Zona euro, e muito acima disso em países como a Espanha (20%), a Grécia (15%), a Irlanda (14%) ou Portugal (11%). São valores que excedem em muito a chamada taxa de desemprego natural, o mesmo é dizer que a tendência dos preços será para descer e nunca para subir.

Uma subida das taxas de juro quando é imperioso realizar investimentos que criem mais postos de trabalho seria trágico para a generalidade das economias da Zona euro. Mas esta regra tem uma excepção, que se chama Alemanha: o seu crescimento está a ser muito forte e ameaça pressionar o emprego. A dúvida é legítima: será que anda aqui uma mãozinha marota e que a Alemanha confunde os interesses do euro com os seus próprios interesses?

Só nos faltava esta.

 

APOIO FINANCEIRO*

 

 

Dos bancos nacionais...

(Portugal (%))

...ao banco europeu

 (BCE (%))

   

A tendência recente em Portugal é para a descida das taxas de juro, tanto para as empresas como para os particulares. O que faz todo o sentido, à luz das baixas taxas de inflação e da crise económica gravíssima que tem assolado o país. E o BCE tem adoptado política idêntica, tanto para o refinanciamento como para a cedência de liquidez. Não parece que haja razões para alterar esta política, antes pelo contrário.

Fonte: Banco de Portugal.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 


Comentários

Credibilidade dos analistas? , | 18/03/11 15:10
Que credibilidade tem as empresas de rating americanas para influenciar a actual Economia de Casino Mundial?
Que nota davam aos Fundos do Madoff, ao Lehman Brothers etc,etc...
É preciso que a Europa crie urgentemente uma agencia de rating credivel para avaliar a solvabilidade da divida gigantesca dos EU da América !
Norberto de Serpa , | 18/03/11 10:49
A libor a três meses nos EUA subiu de 0,29 para 0,31num espaço de 6 meses, mantendo uma consistência mensal, por cá a euribor a três meses ou qualquer outro período anda aos saltos diários que só cria incertezas. O que é preciso é estabilidade!
Realista , Porto | 18/03/11 08:55
Estou de acordo e a observação final do autor é pertinente. Tambem aqui a Alemanha está em contraciclo com o resto da Europa e que políticas tomar: as que convêm à Alemanha ou as que convêm à Europa? O autor tambem salienta a oposição entre o actual pensamento económico nos EUA e na Europa. Nos EUA (a patria do neoliberalismo) dá-se prioridade ao crescimento económico e ao desemprego. Aqui na Europa, graças à Alemanha, dá-se prioridade ao equilibrio financeiro. Quando o desemprego europeu ronda os 10% não devia ser assim. Mas lá está....o desemprego alemão anda pelos (normais) 4%.
 
publicado por ooraculo às 18:19
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