Sexta-feira, 25 de Março de 2011

Todos contra o país

Cenas dos últimos capítulos. Bruxelas fixou os objectivos orçamentais portugueses até 2013. A seguir enviou uma missão a Lisboa para escolher as medidas mais adequadas ao fim em vista. O Governo assumiu este pacote e levou-o a Bruxelas como se fosse seu. Os ‘opinion makers' desdobraram-se em elogios. E o conselho europeu deveria aprovar hoje o seu plano de ajuda a Portugal. Depois do que se passou, será que ainda há espaço para essa ajuda?

Pontos prévios. Na consolidação que nos foi imposta, o défice do período 2010-13 tem de cair 7,3 pontos para os 2% do PIB, o que é de uma enorme violência. E é estranho que só à força tenhamos agora assumido que o quadro macroeconómico de 2011 era irrealista e teria de ser corrigido. Incrível! Dito isto, nada tenho a opor às medidas para compensar os desvios: mais concessões, alienação de património, cortes diversos em acções sociais.

Daqueles 7,3 pontos a cortar no défice uma boa parte pertence ao biénio 2012-13, quando o crescimento económico deverá ser nulo ou próximo disso. Como, ao que parece, já não haverá concessões para atribuir nem património para alienar, as escolhas são fáceis: vamos ter de aumentar impostos e de cortar nos salários e nas pensões. Ainda assim, deixo um apelo a que melhorem a distribuição: há situações de pobreza verdadeiramente arrepiantes.

Neste PEC revisto e adaptado à imagem de Bruxelas não há uma palavra sobre a dívida. Nem tinha de haver. Mas é importante que não nos esqueçamos dela: a dívida vai continuar a subir até 2012, estabilizando nos 87% do PIB, um valor ingerível. Sempre alimentei a esperança de que o conselho europeu que hoje termina nos deixasse algumas pistas sobre a reestruturação. Mas, face à loucura política dos últimos dias, até essa esperança desapareceu.

Não vou falar de culpados, para não alimentar a polémica. Limito-me aos factos: as oposições em bloco pronunciaram-se contra o programa, abrindo espaço a eleições antecipadas e a uma crise de consequências imprevisíveis. O que emerge desta crise é uma aliança absurda entre o Governo e as oposições numa luta contra o país. O país perdeu. E, como nem sequer sobrevive sem estas medidas, alguém vai ter de as aplicar por nós - adivinham quem?

Bom dia FMI!

 

CONTAS PÚBLICAS

Dos défices anuais...

(Défices, % do PIB)

...à dívida acumulada

(Dívida, % do PIB)

   

* Previsões.

Entre 2010 e 2013, o défice orçamental terá de cair 7,3 pontos para os 2% do PIB, o que pressupõe medidas de austeridade de uma enorme violência. Mas o problema não acaba aqui. Depois disso, ainda vamos ter de gerir uma dívida pública da ordem dos 87% do PIB, para que não se vislumbra solução. Ou melhor: a solução que nós queremos não é a mesma que os nossos credores estão disponíveis para nos dar...

Fontes: Governo, Banco de Portugal.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

Comentários:

 

Lhekas , AOA | 25/03/11 17:43
É sim senhor um bom artigo! Não vale a pena querer identificar culpados, nem tão pouco quantificar a verdadeira dívida. Numa zona em crise este exercício é sempre complexo – nunca se sabe o que está, e o que vai, acontecer ao vizinho do lado. A única certeza que existe é que vai haver mais “PEC’S”, mas agora, em vez de apertar-se o cinto de buraco a buraco vai ser de dois em dois buracos.

00Portugal , Lx | 25/03/11 15:02
Caro Daniel Amaral, mais um excelente artigo e perfeitamente entendível para toda a gente.
Parabêns
LOPES CARLOS , Bruxelas | 25/03/11 13:38
1. Excelente artigo, como é timbre deste Ilustre Autor.
2. Neste momento concreto não será talvêz a altura adequada para falar de "culpados".
3. Mas, é o tempo correcto de Alguém, que os Portugueses ainda respeitem , declarar clara e publicamente qual é o nosso verdadeiro défice e qual é o montante real da nossa divida externa bruta.
4. Também seria util, que a partir de agora ninguém lance mais "sinais" errados que causam grande prejuizo aos Investidores e às Partes Interessadas nos diferentes Sectores Economicos. Aliás, do Exterior vão surgir elementos que vão ajudar a clarificar a situação em diversos Sectores fundamentais.
Francisco , | 25/03/11 12:59
Tendo em conta que a dívida das empresas públicas também terá de entrar no perímetro, a "coisa" no final de 2012 deverá andar próximo dos 100%.
O que nós agora queriamos era uma reestruturação AKA perdão de dívida. Isso é que era!
JTS , | 25/03/11 12:20
Todos contra o país e o país contra todos...os políticos,já...
jtpacheco , | 25/03/11 11:59
E se o PM fosse outro?
O principal obstáculo a um acordo multipartidário foi, inegávelmente, o PM, pela falta de confiança que transmite e pela falta de respeito que tem demonstrado pelos restantes parceiros.
Mas e se o PR convidasse outra personalidade da área socialista (Jaime Gama ou Luis Amado, por exemplo) para formar um governo de unidade nacional com o PSD e mesmo com o CDS, com, também por exemplo, Catroga como Ministro das Finanças? Evitavam-se novas eleições e o país poderia apresentar uma imagem de unidade que só traria vantagens, interna e externamente.
sila , cascais | 25/03/11 11:31
A situação a que chegámos não é inédita no nosso País.Mas, infelizmente, nem desta vez, a conhecemos bem. Todos os dias aparecem contas mal feitas. Juntando toda a informação disponível, julgo lícito concluir que a situação é pior do que nos querem fazer querer. Por isso, o salvador tem estado escondido, mas atento. Em breve, sairá do armário. E vai-nos tratar em modo " português suave".
Rui Lorvão , | 25/03/11 11:05
Mais uns quantos buraquitos no pacotão do Sócrates foram identificados ontem.
"Não vou falar de culpados, para não alimentar a polémica" , | 25/03/11 11:04
Atitude muito portuguesa (quando convém), essa de dizer que não se vai falar de culpas.
Conviria pelo contrário afirmar, proclamar que o grande culpado, o grande ilusionista e manipulador, o grande mentiroso e incompetente, grande irresponsável que optou por destruir o país para vencer (mal e porcamente) umas eleições objectivamente aldrabadas, tem nome.
Bom dia, "engenheiro" José Sócrates.
Incrível, a impunidade de Sócrates e Teixeira dos Santos , isso é de facto incrível | 25/03/11 11:01
O "engenheiro" sucateiro Sócrates não tinha jurado há uma semana que não iria ao Conselho Europeu se o PEC IV chumbasse no Parlamento?... Então o que está ele a fazer em Bruxelas?... Ahhhh!... Já percebi: o nosso "engenheiro" Pinóquio fax de conta, que tão bem nos governa há seis anos e um mês, está em Bruxelas com carinha de virgem ofendida a fazer campanha eleitoral à custa do contribuinte português.
A propósito, o "engenheiro" Freeport Sócrates já terá dispensado algum dos treze novos motoristas contratados para o seu Gabinete em Maio passado? (Diário da República, 2.ª série — N.º 96 — 18 de Maio de 2010)
O Troca tintas , | 25/03/11 10:29
Verry Welli (inglês técnico)
L. , | 25/03/11 10:03
Viva Dominique Strauss Kahn! Primeiro Ministro de Portugal!
Realista , Porto | 25/03/11 09:37
Concordo inteiramente com o artigo que acho muito equilibrado e bem escrito. Então a parte final é de se lhe tirar o chapeu. Bonjour....FMI. Eu só acrescentaria mais uma pequenina coisa: o autor mete no mesmo saco, e bem, todos os partidos, mas....e o "presidente de todos os portugueses" fica de fora?
 
publicado por ooraculo às 18:09
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