Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

Cenário de loucos

Cavaco Silva, enquanto PR reeleito, proferiu um discurso deselegante para com o primeiro-ministro e o Governo do PS. Sócrates devolveu o insulto e foi a Bruxelas apresentar um ambicioso plano anti-crise sem dar cavaco a ninguém. E as oposições em bloco reagiram com um chumbo ao plano, abrindo espaço a uma das situações mais graves de que há memória no país. Se andavam à procura de culpados, aqui os têm: foram todos. Era difícil fazer pior.

Com o Governo em gestão corrente, e entre juros e amortizações, vamos ter de pagar 12 mil milhões de euros até Junho e é óbvio que não temos dinheiro. As hipóteses teóricas que se nos apresentam são três: assumir a falência, aceitar uma taxa de juro ruinosa ou recorrer ao fundo de resgate europeu nos exactos termos em que já o fizeram a Grécia e a Irlanda. Sejamos pragmáticos: se o ‘bail-out' é inevitável, por que não assumi-lo desde já?

O processo de consolidação orçamental veio pôr a nu a fragilidade da nossa classe política. Veja-se o caso de Passos Coelho: começou por liderar o chumbo ao PEC IV; depois foi a Bruxelas garantir que, enquanto primeiro-ministro, o cumpriria integralmente; e, como cereja no bolo, no regresso a Portugal, até se disponibilizou para aumentar o IVA. Imagino as risotas de personalidades como Durão Barroso, Jean-Claude Trichet, Angela Merkel...

Com o défice público mais ou menos controlado, subsiste o problema do défice externo, mais grave do que o anterior e para o qual o FMI admite um tratamento de choque. A ideia é proceder a poupanças forçadas, ao embaratecimento das exportações e, no limite, a um défice de valor zero a poucos anos de vista. Alvos no horizonte: cortes nos salários, aumentos de impostos, substituição por Títulos do Tesouro dos subsídios de férias e de Natal.

Como este é um cenário de loucos, só nos resta gerir a loucura. Já se percebeu que os objectivos de política económica vão ser definidos pelo FMI, o que remete o futuro Governo para funções meramente executivas. O verdadeiro poder vai estar sediado no Parlamento, com a a provação das medidas correspondentes. Com o PCP e o Bloco à esquerda, e o CDS em oposição à direita, o país fica refém de uma aliança espúria entre o PS e o PSD. Lindo!

E não se pode emigrar?

 

IRMÃOS SIAMESES

 Das contas do Estado...

(% do PIB)

 ...às contas do País

 (% do PIB)

   

Fontes: Governo, Banco de Portugal.

O défice público, que a partir de 2010 iniciou uma trajectória a tender para zero, parece bem encaminhado e não deverá necessitar de medidas adicionais. Já o défice externo - aqui calculado a partir da Balança Corrente - ainda não foi objecto de qualquer tratamento específico. Vamos ter de o fazer. O chamado "Pacto para o euro" vai ser implacável em matérias como a poupança, os salários e a legislação laboral.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

Comentários:
 
gs , | 01/04/11 16:24
Cavaco é o grande responsável pela actual situação do país. Incendiou o país no seu discurso de tomada de posse, atirou com o país para a fogueira quando induziu o PSD a chumbar o PEC, mas, agora, cínicamente, quer que o governo salva o país, isto é, aquilo que ele, enquanto magistrtado supremo da nação e único orgão de soberania actualmente com legitimidade democrática, não quer fazer.

Noutra linguagem, pôs as catanhas a assar e agora quer que o Sócrates suje e queime as mãos para as tirar e, depois, as dar a comer aos seus delfins do PSD.

Sócrates, que de parvo não tem nada, diz-lhe, quem as lá pôs que as tire, eu nem gosto de castanhas.

É o presidente que temos. Adjectivos para quê?
 
Napo£eao , | 01/04/11 15:40
Cavaco, PR eleito, enxovalhou Socrates na AR ! Nao gosto de Socrates mas nao gostei do enxovalho publico ! Agora, Cavaco...tem o "menino" nos bracos !
 

Joseph People , LX | 01/04/11 15:18
A culpa é de todos, por isso defendo a redução de cargos políticos no país para reduzir o peso dos partidos (não é do estado) na economia.

Os custos da corrupção em Portugal são de tal forma elevados que já ninguém os quer pagar, por isso estão todos a desinvestir. Daí que os chulécos que se têm enchido estão todos em brasa....

NOVIDADE DE ÚLTIMA HORA: Acabou a festa!

Milagre , | 01/04/11 14:08
Aceitaram-se e promoveram-se políticas económicas que destruiram a economia produtiva do país, sem estar garantida a sua substituição, a troco de uma efémera prosperidade financeira alimentada por subsídios e dívidas. O que se poderia esperar?Um milagre?

 
Só mesmo um militante xuxialista para dizer que "a culpa é de todos" , | 01/04/11 13:35


Daniel Amaral está a ser desonesto...
 

ricardo rocha , Lisboa | 01/04/11 12:19
Caro Daniel Amaral,
O nosso dignissimo e excelentissimo Primeiro Ministro e a sua corja estão a afiar a seguinte arma:
"Durante o nosso mandato, NUNCA chamamos o FMI!"
É por isso que neste momento ainda nao estamos no FMI, por politiquices internas e pelo "sacudir a água do capote" da responsabilidade do país e ter uma violenta arma de arremesso quando o PS estiver na oposição.
Isto porque a política há muito que se tornou na díficil decisão do povo escolher quem menos o vai "encavar" na próxima legislatura.
Isto já não vai lá da maneira tradicional. A nossa democracia tem de levar um choque tão grande que este tipo de pensamento nem sequer entre na cabeça dos dirigentes.Esse abanão só pode ser provocado por certos tipos de acontecimentos:
* Precedentes judiciais de enormidade - que vão ser esbarrados na corrupção, no supremo português ou inclusivamente no Europeu;
* Revolução Pacífica - liderada pelas pessoas mais inteligentes e mais interessadas no bem estar do país, o que não me parece que aconteça;
* Mudança Total de Regime - e voltamos à ditadura, viramos a face para o comunismo ou embarcamos numa monarquia totalitária - o que nos pode virar costas ao euro e as condições da economia é que ficam mesmo irrecuperáveis;

Quaisquer dos cenários é mau, mas estamos todos sobre uma pressão, que não tendo fuga possível para a maioria, vai acabar por comprimir e explodir.

Os que escapam, sem dúvida vão emigrar.

Cumprimentos
Ricardo
P.S: Chegamos ao ponto que iremos demorar 1 década ou mais para pagar o que devemos, isto se o FMI entrar ou tivermos juízinho. 10 anos sem aumentos, com inflações recordes e com taxas de juros enormes. Benvidos ao Portugal do futuro!
Victor C , | 01/04/11 11:32
Não adianta estar com "paninhos quentes" sobre o assunto. O que aqui está escrito é de facto verdade. A classe política não tem personalidade alguma nem sentido de Estado. São verdadeiras fogueiras de vaidade que nos custam muito caro. A culpa é de todos, incluindo o cidadão comum.

afa , | 01/04/11 10:57
O Sr. dr. Daniel Amaral escreve sobre economia com competencia e clareza a que muito poucos chegam. Mas neste artigo, ao dizer que "culpados sao todos" revela que, como cidadao, nao tem a decencia tipica de povos desenvolvidos e com futuro; nao tem a decencia civica ao nivil minimo necessario para que possamos aspirar a sermos um pais desenvolvido, caso a sua decencia seja a representativa da decencia da elite Portuguesa. E isto porque, quem acha que o comportamento do actual primeiro Ministro nos ultimos acontecimentos "aceitavel", como parece ser o caso do Dr. Daniel Amaral, significa que despreza aspectos essenciais de democracia desenvolvida num pais que se quer moderno. A decencia de um povo e condicao necessaria para a existencia de um pais desenvolvido.

Podemos em meia duzia de anos resolver o problema da divida e do defice, mas se nao resolvermos o problema da falta de principios e decencia da nossa elite, a que pertence o Dr. Daniel Amaral, nunca seremos um pais desenvolvido, pois cairemos novamente em ma gestao e na eleicao de dirigentes politicos cada vez mais indecentes e sem principios.

Quando forem votar os Portugueses nao se podem esquecer que, nesta crise e actuais problemas do pais, so existe um culpado: Jose Socrates, Governo e PS.
Apelo a decenca do povo Portugues. Se houver decencia, o PS tera a maior derrota da sua historia, e os novos dirigentes do PS aprenderam com esta crise e com os problemas que causaram. Se o PS ganhar ou perder por pouco, os nossos jovens e os novos dirigentes do PS nao aprenderao nada, e, justificadamente, farao o mesmo no futuro. Ou melhor, aprenderao que vale a pena a chico-espertice. E teremos um pais com provas dadas de que a elite nao tem decencia (isto e, vergonha na cara). Depois nao se queixem da qualidade dos politicos. Eu nunca me meteria em tal ambiente pois para render em ambiente de chicos-espertos, e preciso ser chico-esperto (como Eng. Jose Socretes) e eu nao quero ser chico-esperto. Nem quero que os meus filhos sejam chicos-espertos.

O Dr. Daniel Amaral precisa de um "abanao" para colocar os pes na terra. E a elite Portuguesa tambem.
Xxx , | 01/04/11 10:37
O eurostat já desmentiu esta semana tudo o que vem escrito neste artigo.
PKL , | 01/04/11 09:55
O artigo está bom. Esta queda precipitada do Governo foi um erro histórico que vamos pagar durante muitos e maus anos.
 

Realista , Porto | 01/04/11 09:24
O autor tem razão quando diz que a culpa foi de todos, incluindo o PR. Claro que o governo agiu mal quando foi a Bruxelas anunciar o PECIV sem dar cavaco a Cavaco, ao parlamento e aos parceiros sociais. Mas o furibundo e vingativo discurso de posse de Cavaco foi o detonador de toda esta trapalhada. E o desejo de poder da oposição à direita fez o resto. Agora temos que olhar para o futuro.
A mim choca-me que um governo de gestão possa requerer o bail-out, que vai ter impacto por varios anos.
Por essa razão e tambem porque a UE ainda não fechou totalmente a porta a mais flexibilização, a decidir em Junho, penso que o governo deve tentar aguentar até lá.
Acresce que a Finlandia vai tambem para eleições e a aprovação pela Finlandia do bail-out a Portugal não se poderá obter até Junho.
LOPES CARLOS , Bélgica | 01/04/11 07:05
1. Tenho um grande respeito pelo Sr. Dr. Daniel Amaral , desde os tempos do saudoso "O JORNAL". Todavia, hoje, não posso aceitar diversas partes deste artigo.
2. Na verdade, importa salientar :
a) É inaceitável um governo minoritário anunciar em Março em Bruxelas um PEC , que só tinha que apresentar em Abril, SEM ouvir PREVIAMENTE os outros Partidos Politicos com assento parlamentar, sem ouvir os PARCEIROS SOCIAIS e sem informar o Senhor Presidente da Republica;
b) É inaceitavel estar a negociar um texto com os Parceiros Sociais para apresentar em Bruxelas e simultaneamente estar a anunciar na TV um PEC IV desconhecido pelos Parceiros Sociais;
c) É inaceitavel falar de défice publico " mais ou menos controlado" nas actuais circunstancias;
d) A nossa pesada divida externa bruta actual , mais os compromissos já assumidos com as PPPs, mais algumas outras situações fora do perimetro orçamental criam ao Pais uma situação muito dificil que se vai arrastar por um periodo muito longo, com pesados sacrificios para os Portugueses mais vulneraveis e para as chamadas classes médias baixas.
3. Portugal acabará por pedir uma restruturação da sua divida. Quanto mais tarde for , pior será. Temos de mudar de vida. Se queremos sobreviver. Agora, é disso que se trata .
 
publicado por ooraculo às 18:40
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