Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

Beco sem saída

Boletim da Primavera, Março de 2011. Os pressupostos do Banco de Portugal para o biénio 2011-12 são conservadores: o preço do petróleo vai estabilizar; a paridade do euro face ao dólar vai manter-se; as taxas de juro deverão subir; e o único impulsionador do crescimento económico está nas exportações. Já a procura interna, reflexo da evolução do consumo e do investimento, revela um plano inclinado a caminho do abismo. Como sair disto?

Peguemos no exercício de 2010, visto do lado da procura. Para um PIB igual a 100, o consumo foi de 88 e o investimento de 20: os 8 a mais são dívida externa e correspondem à diferença entre importações e exportações. Como a soma acumulada destes défices já excede o próprio produto, e os nossos credores vão ser implacáveis na fixação de um prazo para equilibrar as contas, o melhor é prepararmo-nos para o pior. Vêm aí poupanças forçadas.

O caso mais dramático deste plano inclinado está no investimento. Todos temos a percepção da importância deste indicador na economia de um país. E é claro para toda a gente que sem ele não há crescimento nem bem-estar social. Então tomem nota: nos últimos dez anos, o nosso investimento caiu sete pontos para os 20% do PIB! Mais: apesar dessa queda, continua a haver indícios de que o PIB efectivo está abaixo do PIB potencial. É horrível.

Claro que esta política suicida teve reflexos imediatos no mercado de trabalho. Só no biénio 2009-10 foram destruídos cerca de 250 mil empregos. E para o biénio 2011-12 prevê-se a destruição de mais 60 mil. Se estes números se confirmarem, e no pressuposto de uma população activa estacionária, o desemprego atingirá então 12,2%, uma taxa de cortar a respiração. Um país de desempregados é um país sem esperança e onde não dá gosto viver.

Como já se percebeu, estamos num beco sem saída. Culpa nossa? Claro que sim, mas não só. A culpa é sobretudo de quem nos impôs estas medidas draconianas, a coberto de uma obsessão doentia pelo controlo dos défices e num ‘timing' que não lembraria a ninguém. Não estão em causa as medidas de austeridade. Dou até de barato que haja poupanças forçadas. O que eu digo é que esse plano tem de ser compatível com um mínimo de desenvolvimento económico e de criação de emprego.

Sem isso não vamos lá.

 

MERCADO DO TRABALHO

 

Recessão económica... (Variação (%))  Arrasa emprego (Variação, 2006=100)
   

 

Ter duas recessões em três anos, a que poderão juntar-se ainda mais, não é um fenómeno normal. Após o 25 de Abril, aconteceu apenas uma vez, em 1983-84, quando o país foi intervencionado pelo FMI. É um mau prenúncio... Na sua origem está o colapso da procura interna, em especial o investimento, que caíu a pique. E o seu reflexo pode ser a destruição de mais de 300 mil empregos. É uma situação explosiva.

Fonte: Banco de Portugal.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 


Comentários:

 

jtpacheco , | 08/04/11 15:13
Mais do que um problema de quantidade de investimento, temos um problema de qualidade de investimento.
Esse problema já se punha no período de vacas "supostamente" gordas dos primeiros anos do consulado Sócrates, mas assumirá importância ainda maior nos próximos anos.
Quando mais escasso fôr um recurso maior tem que ser a certeza de que a sua alocação irá ser feita numa óptica de maximização do seu impacto na economia.
Investimento sem retorno expectável em cenários realistas é consumo, não é investimento.
Programas de injecção indiscriminada de fundos e pouco criteriosa, mega projectos de fraca incorporação nacional ou elefantes brancos com défices de exploração previsíveis no futuro, só irão agravar o nosso envidamento e o nosso défice externo.
As prioridades têm que ser dadas aos projectos de elevada incorporação nacional, com impacto positivo na nossa balança de pagamentos e com rentabilidade expectável claramente positiva.
Mudar o sistema eleitoral , Almada | 08/04/11 13:44
A principal causa da corrupção e péssima governação é o sistema eleitoral. Os portugueses não podem votar em pessoas, apenas em listas pré-ordenadas pelas chefias partidárias. É impossível votar no segundo da lista sem o primeiro ser eleito antes. O sistema não permite aos eleitores reordenar as listas pelo voto, o que origina vencedores antecipados, que se eternizam na actividade política e não podem ser desalojados pelo voto. Além de gerar corrupção, trava o acesso dos mais competentes e experimentados à governação, e traz para o sistema boys incompetentes e sem princípios. É este sistema partidocrático que importa mudar.
Maria do Porto , PORTO | 08/04/11 09:41
É evidente que as medidas de austeridade têm por objectivo garantir apenas aos nossos Credores que não ficarão sem o seu dinheiro... independentemente de isso provocar o descalabro da "economia real".
Se houvesse honestidade na comunicação social, o povo não estaria convencido de que em Portugal só temos dois caminhos: a desgraçada política que nos trouxe até aqui, de inteira responsabilidade Socialista - ou a sede de poder desmesurada do PSD, que seguirá a cartilha do FEEF e do FMI, porque não nenhuma outra proposta ou alternativa...
Se houvesse honestidade jornalística, o Povo teria acesso ás propostas económicas do CDS/PP, que passo a transcrever, sucintamente:
1. Re-Industrializar o país, em áreas de produção pouco passíveis de deslocalização: a Industria é criadora de emprego de cariz muito mais duradouro e estável do que no sector terciário;
2.Criar um Mecanismo REAL de apoio e financiamento a Novos Projectos, que analise os méritos do projecto e do seu Promotor, e os financie e acompanhe a 100%, evitando a sangria de novos empreendedores (que têm ido para o estrangeiro implementar as suas ideias por falta de apoio REAL na sua terra)
3. Corrigir Assimetrias do Território, pela dotação do eixo interior Vila Real de Sto António/Bragança com estruturas de Comunicação rodoviária e ferroviária, com ligação às vias transversais já construídas (resultado: maior mobilidade às população e aos empresários nas suas ligações ao litoral e aos mercados internacionais)
4. Exploração do Mar Territorial e o Mar Económico Exclusivo (juntos, são 3 Milhões de km2). Para isso: rearmar as Marinhas de Pesca, de Transporte de Mercadorias e a de Guerra! (Defender os nossos recursos económicos da exploração indevida de estranhos, e defender o território de várias ameaças, como a imigração ilegal, o tráfico de pessoas, de droga, e de armamento para destinos árabes,...)
5. Recuperar e Especializar os Portos Nacionais, nomeadamente: Viana do Castelo, Leixões, Lisboa, Setúbal e Sines, dotando-os dos sofisticados meios de movimentação de bens e manipulação de cargas (reduziria os custos de exploração, tornando-os mais atractivos para os operadores internacionais - podemos ser a maior plataforma logística e de transporte da Europa!)
6.Reorientar o Turismo para um "Turismo de Pessoas com Dinheiro" com as inerentes poupanças em desgastes, e os evidentes benefícios em receitas....
7. Imposição legal de fixar os Spreads máximos da Banca a 1,5 pontos percentuais, para investimentos ou apoio de tesouraria das empresas e empresários. Lançamento maciço de Dívida Pública Interna, que substitua a Dívida Publica Externa através de Dois mecanismos:
- Portugal paga actualmente, e com tendência para agravamento, taxas d
Maria do Porto , PORTO | 08/04/11 09:41
Continuação do meu Post anterior...

7. Imposição legal de fixar os Spreads máximos da Banca a 1,5 pontos percentuais, para investimentos ou apoio de tesouraria das empresas e empresários. Lançamento maciço de Dívida Pública Interna, que substitua a Dívida Publica Externa através de Dois mecanismos:
- Portugal paga actualmente, e com tendência para agravamento, taxas de juro da Dívida Publica insuportáveis
- os Certificados de Aforro deveriam a ser remunerados a 4% brutos; dever-se-ia lançar Obrigações do Tesouro à mesma Taxa, impedindo a Banca de lhes aceder.
Estes dois mecanismos podem ser lançados pela Junta de Crédito Público e FICAR FORA DA ESPECULAÇÂO FINANCEIRA! Efeitos breves: maior poupança das famílias, maior liquidez do Estado, menores importações financeiras. (Isto é, o Estado português passa a ser devedor dos Portugueses – e não de financiamento estrangeiro. Os Portugueses vêem as suas poupanças rentabilizadas.)
Isto são propostas concretas. Opções viáveis; Caminhos que podem salvar o país, e que podem ser todos tomados memos em contexto de Grande Austeridade. Já viram alguam coisa semelhante na Comunicação Social? Não! Porque à Comunicação Social Lacaia do regime, só interessa fazer crer ao povo que só existem para governar Portugal ou o PS ou o PSD. E o Povo tem o cérebro "lavado" - e demonializa a Direita!...
ATREVAM-SE, Portugueses! Mantenham a Esperança - e votem CDS/PP!!
Realista , Porto | 08/04/11 09:23
O autor tem manifestamente razão: a austeridade por si só não chega, é tambem preciso algum crescimento, logo investimento . Até alguns neolibs (não todos) concordam com isso. O problema é que a UE não vai por aí. Vendo bem, quem vai ser ajudado não é Portugal mas os bancos estrangeiros que nos emprestaram dinheiro. O risco desse credito reduz-se e nos proximos stress tests os bancos não serão tão penalizados. Quanto a Portugal....que se lixe. NÃO HAVERÁ POSSIBILIDADE DE, NAS NEGOCIAÇÕES QUE SE VÃO SEGUIR, PREVER TAMBEM ALGUMA AJUDA PARA INVESTIMENTO?
publicado por ooraculo às 18:53
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