Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

A hora da verdade

Aqueles que hoje criticam o Governo por ter aumentado em 1,3 pontos o défice orçamental de 2010, elevando-o para 8,6% do PIB, são no mínimo deselegantes. As regras foram alteradas a meio do jogo, e o Governo limitou-se a seguir as orientações de Bruxelas na análise de dois temas que se encontravam pendentes: os impactos do BPN e do BPP e a inclusão de três empresas de transportes. Sem isso o défice teria caído 0,5 pontos para os 6,8%.

Mas nada disto justifica o comportamento suicida que o primeiro-ministro veio a assumir. Ele conhecerá as motivações. Mas, vista do lado de cá, a leitura é hoje consensual: Sócrates sabia que a vinda do FMI era inevitável, mas também malquista; e ensaiou transferir para outros o ónus da sua intervenção. Um Dom Quixote lutando contra moinhos de vento. Caiu sem glória, às mãos dos banqueiros, depois de levar o sistema bancário à asfixia.

O volte-face deixou todos boquiabertos. Mas depois percebeu-se: foi o BCE que, farto das birras de Sócrates, deu instruções aos bancos para não comprarem mais dívida. E o edifício ruiu como um baralho de cartas. Perdida entre os escombros ficou a imagem de uma tragédia: mais de €160 mil milhões de dívida, que ninguém sabe como pagar. Perdoem-me o desabafo: esta foi uma das opções mais estúpidas que alguma vez se tomaram em Portugal.

Como esta dívida é ingerível, vamos ter de reestruturá-la. E as hipóteses disponíveis são três: aumento dos prazos, diminuição dos juros ou, no limite, a adopção do famoso ‘hair-cut', que se traduz na renúncia à amortização de uma parte. Mas atenção! Muitos destes milhões estão sediados na banca portuguesa, e uma decisão deste tipo pode levá-la ela própria ao colapso. Seria bom que estivéssemos atentos ao que se está a passar na Irlanda.

Esta é a hora da verdade. Ao que parece, vão emprestar-nos cerca de metade da nossa dívida actual, a troco de um plano de austeridade que ultrapassa em muito o PEC IV que foi chumbado no Parlamento. É uma espécie de xarope que vamos ter de engolir. A obsessão pelo défice público já não chega; vamos juntar-lhe a obsessão pelo défice externo. Alvos no horizonte: alienação de património, flexibilização dos despedimentos, aumento de impostos, cortes nos salários e nas pensões.

Chegou a hora do FMI.

 

OS BOMBOS DA FESTA

 

Depois da recessão...

(PIB, variação (%))

 ...o endividamento

(Dívida pública/PIB (%))

   

 

A União Europeia tem 27 membros, dos quais 17 integram a Zona euro, e, dentro destes, 3 são os bombos da festa: a Grécia, a Irlanda e Portugal. As razões foram diferentes, mas o resultado final foi o mesmo: afogados em dívidas, todos pediram ajuda à "Europa". E com a ajuda veio o gestor de falências: é o dono do bombo, que na primeira oportunidade nos explica que a festa acabou. Bom dia FMI! Bem vindo ao reino dos aflitos...
Fontes: INE, Eurostat.

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


 

Comentários (12):

 

José Moiura , Pampilhosa | 15/04/11 17:31
Poderia ter acrescentado que foi uma leviandade ter sido chumbado no parlamento o PEC IV,dando origem à chamada do FMI,pois sem esse chumbo, a UE e o BCE tinham acordado com a doutrina desse PEC IV,a ajuda financeira estava garantida.
vasco abreu , fx | 15/04/11 14:39
Este também ajudou a iludir o povo....
VAMPIROS, há por toda a perte , | 15/04/11 14:25
O problema de Portugal atravessa épocas, regimes... e perpassa até a intervenção do FMI. Como diria Zeca Afonso... «eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada!» E pensavem eles que de tanto «sugar o sangue fresco da manada»... o sangue não se esgotaria!
E anseiam agora o retorno do FMI... porque «a toda a parte chegam os Vampiros, poisam nos prédios, poisam nas calçadas, trazem no ventre despojos antigos, mas nada os prende às vidas acabadas. São os mordomos, do universo todo, senhores à força, mandadores sem lei, enchem as tulhas com vinho novo, dançam a ronda no pinhal do rei... eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e mão deixam nada!»...
Leiteiro , | 15/04/11 14:18
Era importante aqui referir que aquilo que nos vão emprestar é da inteira responsabilidade do cidadão socrates, a divida publica de Portugal quando ele começou a governar o País , em 2005 era de 92000 milhões de euros, as coisas na aconteceram nos últimos 15 dias, como muitos querem agora demonstrar.
lucklucky , | 15/04/11 12:31
Não houve mudanças nenhumas de regras de jogo por isso deixe de dizer falsidades.
Acha que o Governo ao colocar o nosso dinheiro no BPN e BPP em vez de os deixar falir como devia não deve contabilizar a despesa?!
As empresas publicas de transportes atingiram um patamar de insustentabilidade que as regras de contabilidade Europeias indicam que têm de ser incluídas nas contas.
Que tal o sr.Daniel Amaral pedir para incluir nas contas tudo o que está escondido à vista de todos? Parque Escolar, Águas, Municipios..
E as receitas falsas extraordinárias como "vender" património dentro do estado para mascarar o défice?
Sobre isso não fala.
FMI em Portugal? Comigo no Governo? Jamé ! , ("engenheiro" Pinóquio Sócrates) | 15/04/11 11:58
Daniel Amaral chama estúppido ao Sócrates. E muito bem. Espero assim que Daniel Amaral não venha a votar no Partido Sucateiro liderado por Sócrates que nos levou a uma bancarrota gravíssima.
hlx , LISBOA | 15/04/11 11:18
"depois de levar a banca à asfixia" ??????
PERDOE-ME O REPARO MAS ESQUEÇEU UM PEQUENO PORMENOS.
LEVOU O PAÍS Á RUINA! TODO!
joão , | 15/04/11 10:11
não quero viver mais em portugal, muito obrigado, mas tenho 25 anos e não estou para pagar a constante burri.ce e falta de ética gritante dos nossos governantes. não entendo porque é que cedemos a pedir ajuda externa sem sequer considerar uma reestruturação da dívida, beneficiar desta forma os credores em prejuízo dos cidadãos não é correcto
Norberto de Serpa , | 15/04/11 09:34
Vou-me focar apenas no primeiro parágrafo. Se assim fosse, as alterações das regras do jogo, a meio, ou como diz o Realista, no fim, como é que o governo mantem os 4,6% de défice para 2011? A solução encontrada para 2011, se não tivessem distraídos..., teria servido também para 2010, era só estarem atentos ao trabalho de casa dos nossos parceiros europeus.
Realista , Porto | 15/04/11 09:05
Concordo e discordo. Este não é um dos artigos mais claros do autor. Mas vamos ao que interessa.
1- O aumento do defice (e da dívida) de 6,8 para 8,6% foi injusto para com Teixeira dos Santos e correspondeu de facto a uma alteração das regras depois de findo o jogo. Fica-me uma dúvida que espero que alguem esclareça. Se em 2011 as receitas das 3 empresas de transporte superarem os 50% então o defice e a dívida pública voltam a reduzir? Sim ou não? Se sim então o salto que temos que dar em termos de defice é de 6,8 para 4,6% do PIB.
2- O autor vem, à semelhança de outros economistas, com a historia da reestruturação da dívida e dos (agora tão famosos) cortes de cabelo. Mas vamos lá ver com calma. Se nós reestruturamos então e a Belgica (do Sr Lopes Carlos) onde a dívida (sem BPN e sem transportes) supera já os 100% e a Italia, onde atinge já 120% do PIB? ENTÃO É DA ZONA EURO QUE ESTAMOS A FALAR E JÁ NÃO SÓ DE PORTUGAL:
LOPES CARLOS , Bruxelas | 15/04/11 08:15
1. Dá sempre gosto ler um texto sério, informado e realista.
2. A restruturação da nossa divida ( com largo perdão parcial da mesma, alongamento dos prazos e revisão dos juros ) é essencial para se ter uma hipótese de crescimento e de emprego de qualidade. Ela só vai ocorrer depois doutras restruturações, mas é inevitável.
3. Claro, há outra alternativa e então muitos por cento de juros de NADA é NADA. Com o subsequente banimento da nossa economia.
4. A festa acabou e eles não querem acordar !
LOPES CARLOS , Bruxelas | 15/04/11 08:14
A restruturação da nossa divida externa é inevitável. As consequências sobre certas instituições e sobre certos fundos serão muito significativas.
publicado por ooraculo às 18:00
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