Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

O preço do dinheiro

A ameaça já vinha de longe e concretizou-se no mês passado. O Banco Central Europeu decidiu aumentar em 0,25 pontos a principal taxa de juro de refinanciamento, elevando-a para 1,25% e sugerindo que poderá vir a fazer mais aumentos até ao final deste ano. Razão invocada: a taxa de inflação, que atingiu 2,8% em Abril, bem acima do "à volta de 2% sem exceder este valor" que lhe serve de referência. Mas será que foi esta a razão verdadeira?

Em primeiro lugar, é preciso saber se a subida de preços é sustentável ou apenas pontual. Dito de outro modo: há que distinguir a inflação registada da inflação subjacente (‘core inflation'), que exclui dos cálculos os produtos energéticos e os produtos alimentares não transformados, por natureza expostos a choques temporários. Ora o que os números revelam é que, nas economias avançadas, esta inflação subjacente tem andado à volta de 1%.

Acresce que o PIB da Zona euro, que caiu 4,1% em 2009 e apenas recuperou um pouco em 2010, deverá continuar a crescer abaixo dos 2% pelo menos até 2012. Mais: de acordo com um estudo recente da OCDE, a economia europeia está a operar 3,5% abaixo do seu potencial, o que sugere uma tendência para a baixa de preços e não o contrário. Pretender que esta é uma economia sobreaquecida que ameaça inflação é um cenário que não convence ninguém.
A juntar a tudo isto está a actual taxa de desemprego (10%), que excede a taxa de desemprego natural a que teoricamente corresponde a estabilização dos preços. O que nos leva a idêntica conclusão: a tendência é para que os preços baixem. É por isso que a subida das taxas de juro se revela quase criminosa. Factor sintomático: nos EUA, que têm uma inflação semelhante, o FED acaba de manter a sua taxa de referência na vizinhança de zero.

Porquê então esta atitude do BCE? Porque há um país onde este modelo não encaixa: a Alemanha. O PIB alemão cresceu 3,5% em 2010, o mais alto da Zona euro; a sua taxa de desemprego é de 7,1%, a mais baixa da última década; e a inflação actual excede os famosos 2% que se têm como limite. Enfim, talvez a subida de juros aqui se justifique... Chegámos ao cerne da questão: num universo de 17 países, fará sentido beneficiar um deles quando com isso se prejudicam todos os outros?
A palavra à senhora Merkel.

____

Daniel Amaral, economista

d.amaral@netcabo.pt

 

 

Comentários (6)


 

Leitor , | 06/05/11 19:53
Leiam o artigo do Daniel Gros publicado hoje no Diário Económico para ver se se entende de uma vez por todas o problema do país.
Fernando , | 06/05/11 16:03
Realista, le Von Mises and Rothbard e vais ver onde o modelo Keynesiano nao e bem o "melhor"...
Realista , Porto | 06/05/11 12:58
Eu costumo consultar com alguma frequencia a blogosfera inglesa sobre temas económicos. Como se sabe, os ingleses são maioritariamente neoliberais, eurocepticos e apoiantes dos americanos. Ora bem, começo a ler muita gente a prever um desastre na economia americana e do dolar. A emissão massiça de moeda para comprar dívida própria, o descontrole do defice e da dívida e a dificuldade da economia americana em arrancar, estão a levantar muitas dúvidas.
Como se sabe ha hoje em dia um debate / confronto entre as políticas americanas (Keynesianas, com juros baixos e forte investimento público) e as europeias, se quiserem alemãs (com o controle da inflação acima de tudo, juros alrtos, controle dos defices, mesmo com taxas de desemprego elevadas).
Eu sou pro-Keynesiano, anti Merkel, anti BCE e (sobretudo) anti neoliberal.
Mas eu já não sei nada. Se calhar o dolar vai acabar, finalmente, por dar um estouro e o euro vai, como a tal ave, renascer das cinzas. A VIDA NÃO VAI PARA AQUELES QUE VIVEM DAS PREVISÕES ECONÓMICAS.
Reqalista , Porto | 06/05/11 12:45
Teste
Nabucodonosor , | 06/05/11 06:06
É a 3ª vez que este regime vai ao fundo, pedindo assistencia ao FMI e congéneres. De que é que os militares estão à espera para fazer o que é preciso?
j ferreira , gaia | 06/05/11 01:11
A subida da taxa de juro é inevitável, qualquer governo da EU que não tenha descontado esta subida, adormeceu no tempo.
A Europa está velha e gorda e como se não basta-se está também muito individualista entre os seus estados. As importações para o espaço europeu não estão a ser devidamente protegidas.
Os impostos entre os seus membros estão desfasados entre estados do norte e sul, assim como todos os vencimentos salariais entre todos os estados.
Temos um banco europeu mas não temos uma constituição única, o tratado de Lisboa está ultrapassado.
E a cereja deste bolo é as fronteiras linguísticas que são inultrapassáveis
publicado por ooraculo às 18:31
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