Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

A 'troika' ao espelho

Uma sondagem da Universidade Católica resumia as opiniões dos eleitores nestes termos: este Governo do PS não presta, mas se fosse outro de qualquer outro partido não faria melhor.

Olha-se para os principais líderes partidários, o do PS e do PSD, e percebe-se porquê: Sócrates vive num mundo só dele e acha que ninguém o entende; Passos teve o mundo a seus pés e deixou-o fugir. Estão bem um para o outro. Mas os portugueses mereciam mais.

O memorando de entendimento da ‘troika' é um hino à eficiência operacional. Tudo nele é simples, claro e rigoroso: em apenas 34 folhas A4, ficamos a saber os objectivos, as políticas e os ‘timings' de execução; e também sabemos que, ao primeiro incumprimento, o fluxo do dinheiro parou.

Notável! Entre nós, os programas de governo costumam medir-se por centenas de páginas, enroladas em música celestial que ninguém tem pachorra para ler.

O que ainda resta de 2011 é gerível, mas o biénio 2012-13 vai ser de uma enorme violência. O objectivo aponta para uma recuperação de 5,1 pontos do PIB, distribuídos por menos despesas (3,4) e mais receitas (1,7), algo como €8.650 milhões. Não consigo imaginar um cenário destes. Ou, se quiserem, imagino que as famílias portuguesas vão ser espremidas até ao tutano. Teria sido preferível uma consolidação mais lenta. Foi assim, ponto final.

Mas é o desemprego que sobretudo me preocupa. Já sabíamos que, no final de 2010, estavam desempregadas 619 mil pessoas, 11% da população activa. Admite-se agora que, com a recessão económica e as novas liberalizações previstas, venham a ser despedidas pelo menos mais 100 mil, elevando aquela taxa para uns perigosíssimos 13%, que presumo no limite da ruptura social. À atenção do novo Governo: quando se estica demasiado, a corda parte...

Encarado numa perspectiva política, este é um programa de direita: flexibilização das leis laborais, aposta forte nas privatizações, defesa do sector privado enquanto motor do crescimento. O social pode esperar. Mas não creio que estivesse nas intenções da ‘troika' privilegiar quem quer que fosse. O alvo é nacional e não partidário e, face ao estado calamitoso em que nos encontramos, a solução teria de passar por um tratamento de choque. Esta é uma excelente proposta técnica.

Estarão os políticos à altura?

 

O FUTURO IMEDIATO

 

Da crise económica...

(Variação (%))

 ...ao drama social

(Desemprego (% pa))

   

 

Depois de uma ligeira retoma em 2010, o que hoje se antevê é uma nova recessão nos dois anos seguintes; e depois um crescimento lento. O mundo laboral não resiste: com o emprego em queda desde 2009, e 619 mil desempregados no final 2010, admite-se que venham a ser destruídos mais 100 mil postos de trabalho até 2013, elevando a taxa de desemprego para o dobro da sua taxa natural. É uma situação explosiva...

 

Fontes: Governo, Banco de Portugal.

 

d.amaral@netcabbo.pt

 

 

 

Comentários (2)

 

 
LOPES CARLOS , Bruxelas | 13/05/11 07:41
1. Um artigo sério dum Autor Sério.
2. O discurso "oficioso" dos ultimos anos foi sempre sempre atrás da realidade e a rábula do " pede /não pede" AJUDA EXTERNA foi tragico-cómica.
3. O Memorando de Entendimento, sem tradução oficial em PORTUGUÊS e pouco explicado em horario nobre nas TVs generalistas, é um texto enxuto que prevê medidas concretas , calendarizadas e monitorizadas.
4. Agora, implementar NO TERRENO certas medidas ,que foram tentadas sem qualquer exito no passado ,é deveras dificil !
5. Contra as fantasias propaladas , o FMI até tem juros relativamente baixos e
cuida do crescimento e a Sra Merkel paga a fatia grande do emprestimo.
6. A conjugação da quebra do crescimento, do aumento do desemprego, da subida da inflação e do conjunto de aumentos de tarifas e preços e IMPOSTOS ( vg, IMI) vai criar uma situação social e financeira explosiva.
7. A partir de 2012 , o numero de vozes que apelarão à restruturação da dívida aumentará. QUO VADIS, PORTUGAL ?
C.Vieira , Boston, USA | 13/05/11 02:36
A realidade e desagradavel mas e realidade ... bom artigo!

 

publicado por ooraculo às 18:16
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