Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

O dia seguinte

Deixem-me adivinhar. No próximo domingo, as eleições serão ganhas pelo PS ou pelo PSD, em qualquer dos casos sem maioria absoluta. Logo a seguir, o líder derrotado demite-se, o vencedor faz uma coligação com o CDS e ao lado emerge uma oposição que se adivinha terrível: o partido vencido mais o Bloco de Esquerda e o PCP. Principal vencedor: Paulo Portas, que já leva no bolso a lista de exigências que o outro não pode recusar. E depois?

Depois é a lufa-lufa: celebrações, discussões, convites e um novo Governo sem tempo para respirar. Já em Julho vamos receber a primeira visita da ‘troika', que fará o ponto da situação. E a seguir teremos o OE-2012, porventura o orçamento mais violento que alguma vez se aplicou em Portugal. Para se atingir o défice de 4,5% do PIB vai valer tudo: cortes impiedosos nos salários e nas pensões; aumentos brutais na generalidade dos impostos.

Mesmo sabendo-se que este pacote foi validado pelo PS, pelo PSD e pelo CDS, é quase certo que a sua aplicação não será pacífica. Por um lado, as pessoas ainda não interiorizaram a real dimensão das medidas que aí vêm. E, por outro, os sindicatos não deixarão de recorrer a greves selectivas, para o que contarão com o apoio expresso do Bloco e do PCP. O que se tem passado na Grécia, e mais recentemente em Espanha, não augura nada de bom.

Durante a campanha, fiquei estupefacto com a discussão à volta da TSU. O PSD começou por defender uma redução de 4 pontos, que depois eram 8, primeiro de uma só vez, a seguir por etapas - e nunca explicou como faria a compensação. O PS remeteu o assunto para mais tarde, ponto final. A verdade é que nenhum deles quis assumir o aumento de impostos. Receio o pior: vamos ter redução mas não compensação - e os pensionistas que se amanhem...

Com isto chegamos ao ponto crucial: será que este memorando de entendimento, que é clarinho como a água mas também de uma violência inaudita, vai ser cumprido por aqueles que assumirem a governação? Dou uma resposta a dois tempos: se a sua paternidade estivesse em mãos portuguesas, quase de certeza que não; como a paternidade é estrangeira, vou arriscar um talvez. Mas há um aspecto em que precisamos de ser muito claros: se o acordo falhar, o país não terá uma segunda oportunidade.

Estamos num trapézio sem rede.

 

BARCO AO FUNDO

 

Da recessão...

(Variação, 2006=100)

...ao desemprego

(Variação, 2006=100)

   

 *Previsões. **Custos Salariais Unitários Reais.

 

Em quatro anos, entre 2008 e 2012, o PIB deverá regredir 5%, a maior queda de que há memória no Portugal democrático. Na sua origem está o colapso da procura interna, em especial o investimento, a cair a pique (30%). Os salários foram-se aguentando, devido aos aumentos inapropriados de 2008-09. Já o emprego bateu no fundo: deverão ser 340 mil postos de trabalho destruídos até 2012. Vêm aí tempos difíceis...

 

Fonte: Comissão Europeia.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

 

Comentários:

 

Pensar melhor neste voto , Portugal | 05/06/11 12:41
Caro sos-jorge-vg: acho uma tolice defender o voto obrigatório. Porque não analisa o problema eleitoral com mais profundidade e se pergunta se o voto português decide tudo o que devia decidir numa democracia plena? Por exemplo: o voto decide quem das listas vai para deputado? É possível o segundo da lista ir para o parlamento e o primeiro não? E se o eleitorado que o segundo e não o primeiro? Pense nisto, e diga-me depois se não há aqui muito em que pensar.
jorge , | 04/06/11 15:08
Jcésar , | 03/06/11 20:33 - Como sabe que as alternativas são piores? Estás é a criar e a passar preconceitos infundados. És um falacioso que quer continuar tudo como está, pois deves ser daqueles a quem a crise não bateu, nem baterá, à porta!!!
XB , | 03/06/11 12:27
Se os portugueses fossem um povo digno e exigente o PS não teria mais que 20% nestas eleições. É uma vergonha que um partido e um PM como Sócrates que deixou o país de rastos ainda tenha 30% das intenções de voto! Este governo que nos conduziu á bancarrota devia ser severamente condenado. Ainda espero alguma dignidade e bom senso dos portugueses e que inflijam uma pesadissíma derrota ao PS e a Sócrates no domingo dia 5 Junho.
Realista , Porto | 03/06/11 09:08
O autor começa por adivinhar que "No próximo domingo, as eleições serão ganhas pelo PS ou pelo PSD". Caramba o que o leva a fazer uma previsão tão arriscada?
Mas, numa altura em que anda toda a gente preocupada com o resultado das nossas eleições, eu gostaria, para acalmar os espíritos, de dizer algo que está mesmo em frente dos nossos olhos e ninguem parece ver. O RESULTADO DAS NOSSAS ELEIÇÕES NÃO INTERESSA PARA NADA, PORQUE NÓS JÁ NÃO COMANDAMOS NADA. O QUE INTERESSA E AQUI É QUE EU GOSTAVA DE VER O AUTOR FAZER PREVISÕES É O QUE SE VAI PASSAR NA EUROPA. A DÍVIDA GREGA VAI SER FINALMENTE REESTRUTURADA? OS "TAIS MERCADOS" VÃO DEIXAR EM PAZ A ESPANHA, A ITALIA E A BELGICA? OS ALEMÃES VÃO-SE CANSAR? ETC, ETC

 

publicado por ooraculo às 16:40
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