Sexta-feira, 1 de Julho de 2011

Anos de brasa

Ainda o Governo saboreava a posse e já ministros, deputados, analistas e meros apoiantes da coligação sugeriam a ideia de que, finalmente, vamos “pôr a economia a crescer”. Compreendo o voluntarismo de quem está farto de esperar. Mas a mensagem é perigosa, por irrealista. E a força dos números poderá vir a cobrar-lhes mais tarde. Seria preferível que, em vez do voluntarismo, tentássemos responder a esta pergunta: como é que se cresce?

Vou pegar numa imagem a que já recorri noutras ocasiões. Se atribuirmos ao PIB o valor de 100, o consumo vale 88 e o investimento 19; os 7 a mais são dívida externa e correspondem à diferença entre importações (37) e exportações (30). A acumulação desta dívida levou depois à loucura que se conhece. Pois bem, se quisermos ter uma ideia de como vai evoluir o PIB, só temos de projectar aquelas rubricas para o horizonte que nos interessar.

O consumo representa então 88% do PIB. E o seu destino já está traçado: os cortes nos salários e nas pensões, o aumento generalizado de impostos e o ataque impiedoso a tudo o que envolva despesas públicas não vão deixar-nos alternativa ao colapso do produto, pelo menos nos anos mais próximos. E o próprio investimento, com o seu peso de 19% no PIB, reflexo da queda a pique a que foi sujeito, ainda deverá cair um pouco mais. Nada a fazer.

A única saída que resta está nas exportações. E aí, sim, a aposta deve ser muito forte. Mas 80% destas exportações dirigem-se à Zona euro, que está em crise; e os 20% restantes têm de concorrer com uma multiplicidade de países muito mais agressivos que nós. Tudo ponderado, não tenho dúvidas de que será possível ganhar aqui alguma vantagem, mas nunca ao ponto de compensar as duas quedas anteriores. A recessão já existe e vai manter-se.

A actual legislatura é para quatro anos e os dois primeiros vão ser decisivos. O que de bom ou de mau ocorrer neste período vai marcar o futuro de uma geração. Sejamos então realistas: no final destes dois anos, o PIB vai ser mais baixo e o desemprego vai ser mais alto do que são hoje. E a dívida pública também terá aumentado. É bom que os governantes tenham consciência disso: nessa altura, uma multidão inflamada vai atirar-lhes à cara com todas as promessas que fizerem e não cumprirem.

Não aticem o fogo.

 

 

MARCOS DA RECESSÃO

 

Afunda a economia...

(Variação, 2006=100)

...dispara a dívida

( % do PIB)

   

 Se as projecções mais recentes se confirmarem, a produção continuará a afundar-se e o PIB de 2012 será inferior ao que se registou em 2005. E, para que não restem dúvidas sobre os marcos da recessão, a queda do emprego deverá ser ainda maior. É o colapso social. Perante este quadro, percebe-se que a dívida pública continue a subir, excedendo os 107% do PIB em 2012. Não há memória de um período assim...

Fonte: Comissão Europeia.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

Comentários:

 

Timoneiro , Leeds | 01/07/11 13:25
Primeiro, um 'optimo artigo e com um carácter didático, como sempre.
Segundo, faço minhas as palavras do Realista. Gostariamos de saber quais os critérios para o seu cálculo. Melhor seria óptimo que alguém colocasse numa página web toda a informação relevante para o seu cálculo. Aprende-se lendo e fazendo, ouvir não basta e só se promoveria o conhecimento.
Realista , Porto | 01/07/11 09:23
Concordo com o artigo. Mas como este autor costuma dar aos seus artigos um caracter didactico, que eu aprecio, gostaria de lhe segerir que num próximo artigo aborde a questão do cálculo (criterios utilizados) para o calculo do defice. É que eu começo a ficar baralhado. Vejamos.
O problema da Irlanda foi basicamente o problema do seu sistema bancario. O governo teve que apoiar os seus bancos e o defice do seu orçamento saltou para uns incriveis 32,4% do PIB. A Espanha, como se sabe, tambem está a apoiar e reestruturar as suas cajas de ahorro. Lembro-me de ter lido algures que seriam necessarios 20.000 milhões. Mas não vejo o impacto deste apoio no defice espanhol. Na Grecia de cada vez que a UE publica dados sobre os defices ha sempre um aumento. As pessoas já se habituaram a dizer que os gregos são uns aldrabões e que não têm um sistema estatístico fiavel. Mas será só isso? Não haverá aqui tambem a maozinha de Bruxelas? Em Portugal o governo começou por anunciar para 2010 um defice de 6,8%. Mas Bruxelas (por interposto INE) veio dizer que não. Que o defice era afinal de 9,3%. Para alem dos submarinos havia que incluir dividas da Refer e dos metropolitanos de Lx e Porto, porque as suas receitas correntes não cubriam 50% dos custos de exploraçao.
Recentemente voltaram a surgir discrepancias entre afirmações do antigo secretatio de estado do orçamento e o INE sobre o defice do 1º primestre.
Como é? Em que ficamos? E se em 2011 as receitas correntes da Refer e dos 2 metropolitanos superarem os 50% o defice e a dívida vêm por aí abaixo? Onde está a fronteira entre Estado e empresas públicas? É legítimo incluir dívida de empresas públicas na dívida pública sem incluir tambem os activos?
SE A MEDIDA DO CUMPRIMENTO DO PLANO DA TROICA VAI SER O DEFICE ENTÃO CONVEM QUE TODOS SAIBAMOS DE ANTEMÃO QUAIS SÃO OS CRITERIOS PARA O SEU CÁLCULO.
LOPES CARLOS , Bélgica | 01/07/11 07:06
1. Excelente Artigo , como habitualmente.
2. Desde 2/2/2006, TODOS sabiam perfeitamente o que ai vinha.
3. Infelizmente, será o Desemprego estrutural a assegurar o reajustamento.
4. Qualquer Governo seria obrigado a sanear as finanças publicas, apoiar os
Cidadãos mais vulneraveis e relançar apenas projectos realistas e auto-
sustentados.
5. É o Parlamento que representa o nosso Povo , na sua diversidade. Minorias
activas e organizadas não podem usar a rua contra o Parlamento Eleito. Se,
há minorias que não se sentem representadas criem novos Partidos e vão a
Votos. Cadernos Eleitorais actualizados fariam diminuir uma abstenção ARTI-
FICIAL. O PS contribuirá certamente para ultrapassar um dos periodos mais di-
ficeis dos ultimos anos ( post 1974).
 
publicado por ooraculo às 17:51
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