Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

A golpada

Contrariando tudo o que dissera durante a campanha eleitoral, a primeira medida tomada por Passos Coelho foi aumentar o IRS, através do corte de cerca de 50% no subsídio de Natal. Argumento invocado: o anterior Governo, que declarara um excedente de €432 milhões no orçamento do primeiro trimestre, foi agora desmentido pelo INE, que encontrou um défice de €3.177 milhões. Eis um episódio triste, de que o actual PM deveria envergonhar-se.

O episódio é triste por dois motivos. Em primeiro lugar, não se percebe como é que um défice de €3.177 milhões no primeiro trimestre pode impedir o défice de €10.068 milhões no final do ano, quando as medidas aprovadas visaram exactamente este valor. Em segundo lugar, releva de uma profunda ignorância confundir a contabilidade pública com a contabilidade nacional, onde a semelhança é idêntica à que existe entre um pepino e um girassol.

Façamos a analogia com o mundo empresarial. Nas empresas, a prestação de contas faz-se igualmente de duas maneiras: de um lado temos o balanço, que compara os proveitos com os custos, e por diferença obtêm-se os resultados; do outro lado temos o caixa, que compara as receitas com as despesas, de cuja diferença resulta o saldo. Dando de barato que os critérios de cálculo estejam correctíssimos, a discrepância de números pode ser abissal.

Imaginemos a aquisição de um equipamento por 100, pago integralmente no acto da compra e contabilisticamente amortizável em 5 anos. Na óptica do caixa, o valor registado é de 100; na óptica do balanço, o valor registado é de 20, porque os outros 80 transitam para os exercícios seguintes. Num lado há o valor que se gastou; no outro aquele que se imputou ao exercício. E podíamos escolher um só deles? Podíamos, mas não era a mesma coisa.

A conclusão a extrair de tudo isto é que Passos Coelho vive obcecado com a ‘troika', que a todo o custo quer ultrapassar pela direita. E esta diferença nos orçamentos caiu como sopa no mel: o Governo anterior foi chamado de irresponsável, os ‘troikistas' sorriram de orelha a orelha e o Estado ainda se prepara para encaixar uns milhões. Mas o expediente não resultou. E o novato que se supunha diferente revelou-se igual a tantos outros: um político que não olha a meios para atingir os fins.
Não foi um gesto bonito.

 

CONTAS PÚBLICAS  
Dos défices anuais... ...à dívida acumulada

*Previsões.

 

Quando a ‘troika' e o anterior Governo subscreveram o memorando de entendimento, já conheciam os números que o INE agora publicou. E foi com base nesses números que planearam o défice de €10.068 milhões, 5,9%
do PIB, para o final de 2011. Mas Passos Coelho quis passar a mensagem de que foram elementos novos, e muito mais "gravosos", que o obrigaram a este imposto brutal. Não é verdade, e o gesto não caiu bem.

 

Fontes: Governo, Eurostat

 

Comentários:

 

Jose Moura , | 08/07/11 17:36
Os meus agradecimentos pela clareza de análise sobre o défice e o desmascaramento da golpada.Para começo,não há dúvida,prometem...

olho vivo , porto | 08/07/11 16:55
Haverá sempre e por enquanto, 78 mil milhões de argumentos para tomar medidas ........ ESSA É QUE É A VERDADEIRA E DEFINITIVA GOOOOOOLPADA
 
Alberto Original , | 08/07/11 15:58
Por isso é que o Daniel Amaral é um bom contabilista, mas não passa disso. Para avaliar o impacto de que algumas medidas preventivas impopulares é certo, têm na credibilidade do País, é necessário ser Político. Não vá o sapateiro além do chinelo. Veja-se o coro europeu de indignação à Moody´s. Acham que seria possível se este Governo não tivesse já uma credibilidade externa infinitamente superior à do anterior, infinito sim, porque a do anterior era zero. Estou de acordo com o Carvalho, ou Daniel Amaral é apenas contabilista e então não passe mais comentários e faça o que sabe, ou se pretende ir mais além, então que se cale, porque como ele há muitos.

 
Napo£eao , | 08/07/11 14:55
Passos de Coelho fez bem em cortar 50% do subsdio de Natal à rapaziada ! Agora e´aguardar pelas eleicoes autarquicas para receber a prendinha !

ANTÓNIO MANUEL MARTINS MIGUE , Lisboa/portugal | 08/07/11 14:29
Ora aí está um contributo excelente do Daniel Amaral, sempre o admirei ( há 25 anos !) pela sua frontalidade.
Bem-hajas Daniel e que assim continues !
"Que as mãos não te doam" e a inteligência não te falte, assim como a tua seriedade que faltam a tantos políticos de trazer-por-casa .

 
JM , Lisboa | 08/07/11 14:26
Vá lá , reconheçam lá que Daniel Amaral tem razão!
Contra factos... só há argumentos bacocos!
Sócrates e Passos só não são iguais porque um é o lado A e o outro o lado B (da mesma moeda claro!)

blabla , | 08/07/11 13:25
TÁ SE MESMO A VER O VERITAS:
Cá para mim existem por aí uns tantos iludidos
Afinal os PSD também embarcam em cantigas
Realmente é a tristeza nacional o povo português premeia a CHARLATICE
Uma informação de última hora, é só para informar k estive a trabalhar enquanto o V fazia ó ó

 
Veritas , Lisboa | 08/07/11 12:48
Como diria o artista português: "vão trabalhar ..." e deixem-se de comentários que nao produzem quaisquer efeitos. Deixem o nosso primeiro Ministro trabalhar, pois, como se vê, esta no bom caminho.
 
João Pedro , LX | 08/07/11 10:49
Claro que uma coisa é a Contabilidade Publica e outra a Nacional, mas na actual situação é irrelevante, déficie significa acumular da divida e esta é elevada. As medidas anunciadas são uma antecipação no sentido de melhorar as avaliações externas da nossa dívida. Tendo em conta o montante da dívida, prevejo que a breve prazo se tenha de aumentar a taxa máxima do iva pra 25% e pior, o governo tenha de recorrer aos empréstimos internos com as empresas e o estado a pagarem o subsidio de férias e de natal em certificados de aforro, em alternativa uma percentagem de 14 avos do vencimento mensal.
Adicionalmente o estado tem de se restruturar, reinventar de forma a que possa gastar menos, é o que se chama reengenharia em gestão.
O estado gastou mais do que ganhava, o crescimento não era o suficiente para cobrir a dívida anterior, mas continuou a gastar até que agora chegou ao limite. Os portugueses vão ter de pagar mas o governo vai ter de reinventar o funcionamento, a organização e até o papel do estado para poder gastar menos.
 
publicado por ooraculo às 18:23
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