Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

O inimigo europeu

A recente notação da Moody’s, ao classificar-nos como lixo, provocou reacções em cadeia. Começou por ser uma ofensa ao país, que nos deixou irritadíssimos. Passou a jogo de ‘snooker', com a bola a tabelar em nós para atingir a Alemanha. E acabou em guerra entre colossos: aquilo era um ataque dos EUA ao coração da Zona euro. Não sou adepto de teorias da conspiração. Mas vale a pena analisar como é que estes colossos se comparam entre si.

Os EUA e a Zona euro são os agrupamentos que mais pesam no bolo da economia mundial. Para um PIB global igual a 100, o primeiro vale 20 e o segundo 15. Mas os desequilíbrios das contas públicas são mais gravosos na América do que na Europa, o que não joga com os níveis de ‘rating' que as agências lhes atribuem. A diferença está no modelo: os EUA são um conjunto homogéneo; a Zona euro é um amontoado de 17 países que nada têm em comum.

Acresce que a diferença não está apenas no PIB global. Também no rendimento ‘per capita' o valor americano excede em 38% o seu equivalente europeu. Sobressaem neste caso as diferentes posturas individuais: se atribuirmos à produtividade por hora de um trabalhador europeu o valor de 100, o americano responde com 118; mas o americano trabalha mais horas do que o europeu, donde a diferença da produtividade por pessoa sobe de 100 para 134.

Também a forma como os dois blocos estão a encarar esta crise não é a mesma. Os EUA apostam no orçamento, recorrem à política monetária e desvalorizam a moeda para estimular a economia. A Zona euro restringe o orçamento, estrangula a economia e sobe as taxas de juro para travar a inflação. Como seria de esperar, os números respondem em conformidade: o PIB americano cresce à taxa 2,5% ao ano; o equivalente europeu não passa de 1,9%.

Enfim, a notícia segundo a qual por detrás da Moody's está um inimigo europeu é um pouco exagerada. E o simples facto de a agência ter "sob observação" a dívida americana, à espera de saber se Barack Obama consegue ou não vencer a batalha dos 14,3 triliões, é disso exemplo significativo. Claro que a paridade entre o dólar e euro não é indiferente. Mas o que verdadeiramente interessa é que os EUA e a Zona euro sejam economias fortes, de modo a que cada uma delas ajude a puxar pela outra.

O inimigo da Europa é ela própria.

 

EUROPA VS. AMÉRICA

 

Dos défices anuais...

(Saldo orçamental, % PIB)

... à dívida acumulada

(Dívida pública, % PIB)

   

 Os défices orçamentais são historicamente mais elevados nos Estados Unidos do que na Europa do euro e assim se deverão manter em 2011. E a dívida acumulada, que era mais baixa do lado americano, ultrapassou também a equivalente europeia a partir de 2008. Mas as situações não são comparáveis: os EUA são um bloco homogéneo e solidário; a Zona euro é uma manta de retalhos onde ninguém se entende.

Fontes: FMI, Eurostat.

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

publicado por ooraculo às 16:54
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