Sexta-feira, 29 de Julho de 2011

Portugal 2012

Antes de ligar o computador espalhei sobre a secretária as projecções dos organismos que mais me interessavam: Governo, Banco de Portugal, INE, Eurostat e Troika. A imagem que delas sobressai está ligada a cortes. Vamos cortar em tudo: no consumo, no investimento e no produto; no emprego, na educação e na saúde; nos salários, nos subsídios e nas pensões. Lembrei-me do Eça: se V.Exas. nos cortam tudo, que poderemos nós cortar a V.Exas?

O corte que mais me preocupa é o do investimento. Medido em percentagem do PIB, este indicador representava 27% em 2000 e era dos mais altos da Zona euro. Depois foi caindo, caindo, e em 2010 estava reduzido a 19%. A cumprirem-se as actuais projecções, o percurso mantém-se e chegará aos 16% em 2012, um número arrepiante. Como o investimento é o principal motor do crescimento económico, adivinha-se o abismo para que nos estão a empurrar.

Acresce que ao investimento está associado o emprego, um fenómeno muito sensível e que mexe com toda a gente. Nos últimos 10 anos terminados em 2010, a taxa de desemprego subiu seis pontos para os 10,8% da população activa. E para 2011-12 admite-se a destruição de mais 100 mil postos de trabalho, o que elevará aquela taxa para os 13,2%. Consultei registos até aos anos sessenta do século passado: não há memória de um pesadelo assim.

O problema dos salários é diferente. Ainda que muito baixos em termos absolutos, não se pode dizer o mesmo quando os comparamos com a produtividade, já que o seu peso no PIB tem andado pelos 50%, dos mais elevados da Europa. Mas a crise da dívida alterou tudo: as expectativas baixaram tanto que bem poderemos dar-nos por satisfeitos se mantivermos os salários nominais, o que só por si significa uma perda equivalente à taxa de inflação.

O cenário é desolador. E na sua origem está a necessidade imperiosa de travar as dívidas. O problema é que as dívidas mantêm uma trajectória de subida que parece não ter fim. Não se pense que isto é uma crítica ao Governo; ele não tinha alternativa. O que eu critico são as três entidades que se propuseram "ajudar-nos" e escolheram como instrumento a asfixia. Como economista, tenho extrema dificuldade em perceber como é que se pára uma recessão profunda promovendo uma recessão ainda maior.

Que modelo é este?

 

A VERTIGEM

 

 Cai a economia...

(Variação, 2006=100)

 ...disparam as dívidas

(Dívidas, % PIB)

 

 

O colapso do investimento, que em apenas seis anos caíu mais de 30%, arrastou consigo centenas de milhar de postos de trabalho e elevou a taxa de desemprego para níveis explosivos. Mas o investimento é também um dos principais motores da economia, o que levou a que o PIB entrasse igualmente em colapso. E as dívidas não servem de desculpa, já que ambas continuam a crescer. Estamos a regar o fogo com gasolina...

Fonte: Banco de Portugal

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

Comentários:

 
Carlos , | 29/07/11 16:35
Concordo que o investimento não deve caír, mas não à custa de mais dívida.
A solução passa por acomodar o valor do investimento na diminuição da despesa pública. Temos que racionalizar a enorme massa da função pública. Hoje em dia há serviços públicos que, podendo ser prestados online, prescindem de muita gente com melhoria na qualidade.

lucklucky , | 29/07/11 15:11
"as medidas de austeridade levam a mais recessão e não ao crescimento."
Isto é mesmo da obsessão Keynesiana e Esquerdista pelo dinheiro.
Não há nada para a Esquerda que não seja dinheiro. Tudo gira á volta de Dinheiro. Dinheiro dos outros obviamente.
O que leva ao crescimento é mais qualidade no trabalho e eventualemente mais trabalho. Ideias, Boas Ideias. Ideias únicas que mais ninguém tinha pensado. Novas formas de fazer coisas. E isso só nasce em Liberdade. Liberdade na Educação, Liberdade de pensar diferente. Liberdade de formar uma empresa.

fvenes , | 29/07/11 13:18
Queixa-se da troika pelos cortes cegos mas desculpabiliza os amiguinhos do governo. Esquece-se o Daniel Amaral que o Governo está a ir para além do plano de entendimento no que toca a cortes sociais. A citação do Eça cai aqui mto bem: se V.Exas. nos cortam tudo, que poderemos nós cortar a V.Exas? (Governo incluído, sff)
 
, | 29/07/11 10:36
Já não sei o que é melhor: continuarmos no euro numa morte lenta ou sair do euro para uma morte rápida.
 
jorge , | 29/07/11 09:13
Isto já o PCP avisou à muito!!!! Mas estes Srs. são todos anti...
Realista , Porto | 29/07/11 08:58
A economia política não é uma ciencia exacta. Os seus problemas permitem varias leituras e varias soluções: as teorias liberais, keynesianas, etc. Mas ha algumas situações onde não ha grande margem para discutir: as medidas de austeridade levam a mais recessão e não ao crescimento. O caso grego está à frente dos nossos olhos e é gritante. É impossivel não o termos em conta.
Enquanto a dívida dos paises do euro tem vindo a aumentar, aproximando-se de níveis perigosos (93% para Portugal mas tambem 83% para a Alemanha, 82% para a França), a dívida da Turquia tem vindo a diminuir (em percentagem do PIB claro). Era de 104% em 2001 e em 2009 apenas de 45%. Como é que a Turquia conseguiu? Com medidas de austeridade e aumentos de impostos? Não! A Turquia conseguiu esta proeza crescendo ao nivel de 6 e 7% ao ano.
É de crescimento que nós precisamos. E para isso precisamos de mais investimento. A austeridade e controle são necessarios. Mas não chegam.

LOPES CARLOS , Bélgica | 29/07/11 06:50
1. Com a devida vénia, o problema não é só a "quantidade" do INVESTIMENTO, é sobretudo a "qualidade" do INVESTIMENTO feito e seu "efectivo" e escasso RETORNO.
2. Como o Sr. Dr. Daniel Amaral muito bem explicou em tantos artigos no DE , Portugal gastou mais do que produzia DURANTE DECADAS , sempre com um discurso politico muito distante da realidade. Agora, vai ser feito um DOLOROSO REAJUSTAMENTO, à custa das Classes Médias,dado que os Pobres não têm para poder pagar e os verdadeiramente RICOS ( não me refiro aos "riquinhos" lusos) estão dispensados dos sacrificios. As Classes Médias vão ficar EXAUSTAS e EXAURIDAS . Quais serão as reais consequencias para o aís deste facto. QUEM representará os Grupos que se consideram Classes Médias e que vão atravessar a pior fase das suas Vidas ???
3. Comparem as REALIDADES de 2009 , 2010 e 2011 e as PERSPECTIVAS de 2012, 2013 e 2014 com o TEOR GERAL DAS MENSAGENS de certos programas televisivos.
lucklucky , | 29/07/11 03:21
Não é como economista Daniel Amaral, É como Keynesiano que pode dizer uma coisa dessas.
Já agora onde está o brilhante crescimento económico dos últimos dez anos? Segundo a sua bitola Keynesiana devíamos ter crescido a mais de 10% uma vez ao ano, uma que a Dívida cresceu a mais de 10% ao ano. Não é?
publicado por ooraculo às 17:41
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