Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

O risco país

No auge da crise, alguns bancos faliram e outros foram salvos pelos Estados a que pertenciam. Hoje é pior: há Estados que ameaçam falência e nem os bancos querem salvá-los. O mundo virou de pernas para o ar. Numa das suas últimas edições, a revista britânica ‘The Economist', citando números da OCDE, faz uma avaliação dos riscos de insolvência de alguns países, entre os quais o nosso. É um estudo interessante, que vou procurar sintetizar.

O risco de ‘default' é analisado à luz de três critérios: o défice orçamental sem juros, a dívida pública acumulada e a diferença entre a taxa de juro e o crescimento nominal do produto. Quanto maiores forem estes indicadores maior será a dificuldade em respeitar os compromissos e, nessa medida, maior o risco país. Os dois primeiros critérios são óbvios; o terceiro carece de explicação.

Admitamos um cenário em que a dívida pública é igual ao PIB e que ambos são representados por 100. Se, no ano seguinte, a taxa de juro que incide sobre a dívida for de 5% e o crescimento nominal do PIB de apenas 3%, o PIB passa para 103 e a dívida para 105. Isto significa que, independentemente de tudo o resto, há aqui um duplo agravamento da dívida - ela sobe em valor absoluto e na sua relação face ao PIB. Esta é a imagem de Portugal ao espelho.

Na lista de 23 países da OCDE submetidos à análise de risco, Portugal aparece em quinto lugar, atrás da Grécia, da Irlanda, do Reino Unido e do Japão. A Espanha vem imediatamente a seguir. Não é um mau resultado, se atendermos a que todos eles se apresentam num grau de desenvolvimento mais avançado do que o nosso. Mas é um resultado que, ainda assim, põe a nu dois dos nossos principais problemas: o baixo crescimento e o enorme peso da dívida.

O efeito não deixa de ser curioso. E tanto mais quanto sabemos que, pelo menos em parte, o crescimento e o endividamento são causa e efeito um do outro. O que nos leva a um movimento circular: crescemos pouco porque somos penalizados pela dívida; endividamo-nos muito porque o crescimento não descola. Eis uma palavra, a que chamaria objectivo, que políticos e empresários deveriam prosseguir, se necessário à força: crescer, crescer, crescer.

A propósito: como é que se cresce?

publicado por ooraculo às 00:30
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Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010

A saída do euro

A crise económica recente, associada a políticas erradas do passado, está a deixar vários países à beira de um ataque de nervos. Portugal é um deles. Não é fácil gerir uma economia onde a produtividade é uma lástima, o endividamento sufoca e o desemprego é de uma tal gravidade que pode redundar em tragédia. Nesta busca desesperada por soluções o tema é incontornável: abandonar o euro poderá ser uma saída? Que consequências poderiam daí advir?

Ponto prévio: quando Portugal aderiu ao euro, fê-lo porque em consciência estava interessado nisso e porque respeitou os critérios de convergência exigidos em termos de finanças públicas e de estabilidade de preços. Não vislumbro a mínima razão para que seja expulso. Aliás, nem sequer imagino que entidade poderia fazê-lo: a Comissão Europeia? O Banco Central Europeu? É impossível. Mas nada impede que o faça por vontade própria.

 

 

 

Admitamos um cenário de saída, com um euro a valer 200$00 mas objecto de uma desvalorização de 30% logo a seguir. Assumamos ainda para o PIB um valor de €165 mil milhões e uma dívida externa de valor equivalente. Neste caso, o PIB passava a medir-se por 33 mil milhões de contos. Mas, como os 200$00 valiam apenas 0,7 euros, a dívida externa pulava para 47 mil milhões, 43% mais. A primeira consequência era negativa.

Mas é no plano social que as comparações devem ser feitas. Do lado das empresas, e uma vez que o preço das exportações baixava, passaríamos a vender mais e a criar mais postos de trabalho: seria óptimo. Mas em termos de poder de compra, e uma vez que o preço das importações subia, os mesmos escudos compravam agora menos coisas e o nível de vida regredia: seria péssimo. Estaremos disponíveis para trocar menos salários por mais emprego?

A questão de fundo está aqui. É óbvio que o endividamento tem de ser travado. Mas não consigo imaginar como é que, sem uma ruptura social, vamos alterar os hábitos consumistas a que os portugueses há muito se habituaram. Pois bem, a desvalorização teria esse mérito: através do fenómeno da ilusão monetária, os hábitos seriam mesmo alterados sem que no essencial as pessoas se apercebessem disso. Para um Governo em apuros isto é uma tentação...

Será que o euro está a mais?

publicado por ooraculo às 00:30
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Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

A vertigem

Agora é a sério. A gestão das contas públicas vai impor sacrifícios de uma tal violência que não me recordo de nada igual. E é preciso que as pessoas tenham consciência disso. Neste artigo, onde nada é bom, vou procurar a solução menos má que possa colocar abaixo dos 3% do PIB o malfadado défice de 2013. O quadro macroeconómico de referência é do Banco de Portugal até 2011 mais um acréscimo nominal do PIB de 3,5% e 4% nos dois anos seguintes.

Cenário nº 1: congelamento das despesas. A minha primeira opção foi congelar todas as despesas - ordenados, pensões, subsídios, etc. - ao longo dos quatro anos da legislatura. Ficaram de fora, obviamente, os juros, que não são congeláveis, e para cujo cálculo usei a taxa, presumivelmente optimista, de 5% ao ano. Resultado: o défice cai para 5,5% e a dívida sobe para 97,3%, ambos em percentagem do PIB. É pouco.

Cenário nº 2: aumento de impostos. Aqui ensaiei três hipóteses, com impacto fiscal equivalente: 5% das receitas fiscais e contributivas, 7% só das receitas fiscais e 12% só dos impostos indirectos. Acabei por optar pela segunda, por me parecer a mais defensável em termos de aceitação global. Feitas as contas para 2013, sempre em termos de PIB, o défice é agora de 3,8% e a dívida de 90,7%. Ainda não chega.

Cenário nº 3: alienação de património. Entrar pela redução de salários e de pensões ou por aumentos maiores dos impostos pareceu-me ingerível. Preferi optar pela alienação de bens, por muito que me desagrade esta via. E, depois de alguns ensaios, inseri no modelo €1.500 milhões por ano, durante os quatro anos. A situação, em termos de PIB, passou a ser esta: o défice fica reduzido a 2,9%, o que satisfaz, mas a dívida ainda atinge 87,3%, o que é muito. Uf! A consolidação vai ter de prosseguir...

Compreendo a vertigem de quem me lê. Mas os números são o que são. E são tão válidos para este Governo como para qualquer outro que o substitua. O que significa que o ónus da decisão vai inteirinho para a classe política. Entendamo-nos: impor medidas que fazem aumentar a despesa é um comportamento de loucos; e as medidas que podem salvar o país são de uma tal gravidade que precisam de maioria no Parlamento.

A alternativa é o caos.

publicado por ooraculo às 00:30
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Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

A questão salarial

Admitamos que o objectivo dos salários é manter o poder de compra e que este varia com a variação dos preços. Quando e como é que devem ser corrigidos? No início de cada ano, tendo como base a inflação esperada? Ou no fim de cada ano, à luz da inflação que efectivamente se registou? Resposta: depende do gosto de cada um. Em boa verdade, nenhum dos métodos satisfaz.

A inflação é em regra positiva, ou seja, os preços sobem. Deste modo, ao optar-se pela inflação esperada, ganham os trabalhadores e perdem as empresas, porque recebem logo de início o que deveriam receber ao longo do ano. Inversamente, ao optar-se pela inflação efectiva, ganham as empresas e perdem os trabalhadores, porque deveriam pagar ao longo do ano o que só pagam no fim. O ‘timing' correcto seria então o meio do ano, tendo como base na inflação anual.

Mas há razões que aconselham o final dos anos. Primeiro, porque é mais lógico: um trabalho paga-se depois de feito e não quando se inicia. Depois, porque se protegem os trabalhadores: a inflação prevista é em regra "adoçada" pelos governos e, uma vez aceite, dificilmente se consegue corrigir. Mas este é um ano esquisito para opções deste género. É que as inflações de 2009 e 2010, sendo ambas de 0,8%, têm sinais diferentes - foi negativa a primeira, admite-se positiva a segunda.

Acresce que a produção é habitualmente crescente, devido ao acréscimo dos factores produtivos e às melhorias de eficiência. E, havendo melhorias que são ganhos puros, é legítimo que os trabalhadores beneficiem deles. Aqui entra o azar dos Távoras: em 2009, a produtividade também caiu. Logo, para corrigir os salários de 2010, os dois elementos que existem são negativos: 0,8% de deflação e 0,7% de ineficiência produtiva. Que fazer?

Os números não deixam dúvidas. Nos últimos dez anos, o peso salarial no PIB subiu três pontos para os 53%: os salários cresceram mais do que deviam. E a dívida externa foi multiplicada por três, ultrapassando os 100% do PIB: gastámos o que tínhamos e o que não tínhamos. Sendo assim, e em nome da coerência, os salários deveriam baixar pelo menos 1,5%. Fica-me apenas uma dúvida: ao sacrificarmos o emprego não deveríamos fazer o mesmo ao capital?

 

 

 

publicado por ooraculo às 00:30
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