Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

A crise e os salários

 

Em artigos recentes, defendi nesta coluna que a solução para a crise passa pelo crescimento económico, que depende da competitividade, que pode levar à redução dos salários. Mas a última asserção é polémica e necessita de contraditório. Vou usá-lo em nome de um economista famoso, prémio Nobel de Economia, colunista do "New York Times", lido e apreciado em todo o mundo: Paul Krugman.

 

O universo é o da economia americana, mas poderia ser outro qualquer. Krugman discorda que se utilizem os salários em nome das crises. Primeiro argumento: baixar os salários significa baixar os preços, o que faz crescer a oferta real de moeda e, portanto, a liquidez. E, com o aumento da liquidez, baixam as taxas de juro, que fazem aumentar a procura. Mas se o que se pretende é mais moeda, por que não recorrer ao banco central, que é muito mais simples?

 

Segundo argumento: ao reduzirmos os salários, e a seguir os preços, estamos a aumentar a dívida em termos reais. E aqui entra a componente psicológica: quando se apercebem disso, os devedores são tentados a gastar menos, o que faz diminuir a procura. Mas o fenómeno dos salários e dos preços baixos tenderá a repetir-se, o que levará à subida das taxas de juro, diminuindo a procura ainda mais. Em que ficamos: a baixa de salários é benéfica ou prejudicial à economia?

 

Terceiro e decisivo argumento: num mercado aberto como é o actual, em que toda a gente tem toda a informação ao mesmo tempo, a diminuição dos salários num determinado país apenas cria vantagens relativas se os seus concorrentes não adoptarem políticas semelhantes. De facto, se todos procederem aos mesmos cortes, o efeito comercial é nulo, havendo apenas uma transferência de fundos dos empregados para os empregadores. Que ganha a economia com isso?

 

Longe de mim pôr em causa o raciocínio de Krugman, de quem aliás gosto muito. Seria insensato. Mas não posso deixar de dizer que os seus argumentos me suscitam um comentário e uma pergunta. O comentário: perante um objectivo chamado crescimento económico, Krugman é exímio a explicar o que não se deve fazer, mas não explica como se faz. A pergunta: Krugman acha mesmo que, se um país decidir baixar os salários, todos os outros vão a correr fazer o mesmo?  

 

AMÉRICA VS. EUROPA

Prudente nos salários...                    

 

(Salários reais, variação (%)

 

 ...eficaz na economia                   

 

(PIB real, variação (%)

 

   

 

 

Quando houve que enfrentar a crise, os Estados Unidos foram mais prudentes do que a Zona Euro na forma como conduziram a política salarial e protegeram a competitividade. Os custos do trabalho por unidade produzida baixaram, como a situação requeria. E os números confirmam que tinham razão: a América caíu menos e está a recuperar mais depressa do que a Europa.

 

Fonte: Eurostat

Comentários

schieder da silva, munique | 30/04/10 08:44
POIS; DESCER OS SALÀRIOS MAIS ALTOS SERIA O IDEAL ;MAS COMO O SR; E OS SEUS COLEGAS NAO O QUEREM FAZER SÒ HÀ UMA FORMA DE REGULARIZAR A SITUACAO ;SUBIR OS MAIS BAIXOS


RosaPratas, | 30/04/10 09:28
Não é diminuindo os salários que se aumenta a competitividade e consequentemente se aumenta o crescimento económico.
Como é sabido, a degradação do custo unitário do trabalho decorre da perda da competitividade que se traduz na permanente degradação do valor acrescentado daquilo que produzimos e vendemos e consequentemente na degradação do produto económico.Não sabemos aplicar os nossos recursos a produtos com mais valor e isto é designado por perda de competitividade.Continuamos a fazer o mesmo mas a menor preço.


lucklucky, | 30/04/10 10:32
Este é um texto bizarro...mas existe política salarial nos EUA!? Exceptuando os funcionários dos estados e federais não há. Na Europa a maior medida de política salarial é o salário mínimo(embora não exista na Suécia por exemplo) e a influência que os salários públicos têm no mercado de trabalho. Quanto maior a dimensão do Estado maior a influência que têm no mercado dos salários.Pena que não tenha sequer chegado aí.

Krugman não é certamente apreciado em todo o mundo, ele é um dos que ajuda a causar as bancarrotas.


NapoLeao, | 30/04/10 10:56
Baixar os sala'rios de quem ? Banqueiros, futebolistas, deputados pais e filhos de deputados ? Gestores publicos que foram governantes ? Se assim for...parabens ao Nobel e aos seus seguidores ! Se for a arraia miuda...entao sao os "mercadores de Veneza" ca' da LusitAnia que nem o papa catolico perdoara' !


Sermão aos Peixes!, | 30/04/10 13:06
Num mercado aberto como é o actual, uma diminuição real dos salários teria como consequência o aumento das MIGRAÇÕES: emigração dos mais expeditos e qualificados. Assim, em contraponto a um hipotético crescimento, teríamos, por uma promoção negativa da economia, a degradação social, humana - e demográfica - da sociedade. E a isto, se soma a menor atracção e receptividade à imigração, gente que a prazo aceita trabalhar mais por menos dinheiro, enquanto as diferenças cambiais e de renda forem significativas - precisamente num mercado aberto.
Por outro lado, num cenário de endividamento externo, a diminuição real dos salários pode significar mais competitividade para as empresas (e mais emprego criado), mas sobrepesa sobre o rendimento disponível das famílias, sobretudo com encargos junto da banca. Ou seja, é sobre as famílias que recairão os custos da crise.
- Qual a solução óptima? MELHOR DISTRIBUIÇÃO DE RENDIMENTOS. Recordo que Portugal é um dos países europeus que apresenta maior desigualdades na distribuição de rendimento e taxas mais elevadas de risco de pobreza monetária. PT: S80/S20 = 7; UE-25 S80/S20=4.6.
«Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.» in "Sermão Sto Antonio aos Peixes", P.de António Vieira.


j. almeida, | 30/04/10 14:47
Os salários dos outros, bem entendido.


Manuela Oliveira, Axel/holanda | 30/04/10 15:17
O economista americano tem toda a razão. Profissões que pertencem à classe média /alta em Portugal ganham quase o mesmo ou mais (exemplo médicos, membros do parlamento, director da EDP, etc) do que os hómologos nos paises mais ricos ! Estes paises mais ricos emprestam ao governo e bancos para estes pagarem os salários da nossa classe média/ alta! Não pode ser ! Os salários das classes mais altas tem que diminuir na direcção das mais pobres e de aumentar a produtividade do país. O problema está na enorme diferença de salários : a classe mais pobre “sobrevive”e a classe média/alta faz vida de luxo à custa de empréstimos da Europa. Portugal é o país que menos poupa. A produtividade é a mais baixa da Europa. Não se exporta. E depois temos um milionário que está nos 10 mais ricos do mundo ! Para que é que isto serve ?!

 

PAULO CESAR BASTOS, Salvador-Ba-Brasil | 30/04/10 18:27
Os japoneses no pós guerra conseguiram superar a derrota militar e avançar para a vitória empresarial graças aos cinco sensos da qualidade , os internacionalmente conhecidos 5S.
Para enfrentar a atual crise mundial , especulativa e não produtiva, vale desenvolver e implantar ferramentas inovadoras como os cinco caracteres da competitividade o que chamo de 5C:
Capacitação
Cooperação
Comunicação
Compromisso
Confiança.
É uma fórmula que imagino para o Brasil mas que poderá ser bastante útil,também, para Portugal.Afinal aprendemos ,também, com nossos filhos.
Ao dispor para inovar e trabalhar.

PAULO CESAR BASTOS é engenheiro civil
paulocbastos@bol.com.br


Inocencio Silva, Chicago | 30/04/10 21:11
O problema é que os Srs. Economistas foram os principais causadores desta virtualidade, chamada "Economia de Casino".

Pois enquanto a "classe" estiver a comandar Bancos, Fundos de Investimentos, empresas de rating, etc, iremos ter sempre esta "Ciencia Oculta" a mandar palpites e a promover a "especulação".

Por paradoxal que pareça os que originam a doença, arvoram-se em terapeutas da mesma. Exploram-se sempre os mesmos, na subida e na descida.

Encerrem os "Casinos da Bolsa" ,os "oFF-SHORES" e promovam a efectiva criação de riqueza!


 

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Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

A saída da crise

 


Voltemos ao tema da dívida, que ameaça estoirar connosco. Com o investimento e o consumo na fossa, e um PEC de resignação, várias vozes se têm erguido a defender que a saída da crise passa pelo comércio externo. Eu pertenço a esse grupo, se bem que desespere quando olho para os obstáculos que se encontram no caminho. De qualquer modo, é uma tese a explorar. Ponhamos a pergunta óbvia: que fazer?

Se tivéssemos moeda própria, presumo que o FMI já estaria entre nós, abrindo alas à desvalorização. Através dela conseguiríamos dois efeitos de sinal contrário, ambos favoráveis às contas externas: os preços das importações subiam e comprávamos menos; os preços das exportações baixavam e vendíamos mais. Claro que, em simultâneo, a inflação também subia, os salários também baixavam e lá teríamos o nível de vida na rota do afundamento. Mas o principal objectivo seria atingido.

Sucede que não temos moeda própria, o que inviabiliza uma tal solução. Mas, se a via escolhida passava pelo encarecimento das importações e o embaratecimento das exportações, será que não poderíamos fazer o mesmo sem mexer na paridade da moeda? Não poderíamos, por exemplo, aplicar uma taxa aos produtos importados e, através dessa receita, subsidiar as exportações? Claro que a resposta é não. O ‘dumping' não é permitido.

Olhemos então para as empresas. A tentação é baixar os custos, com os salários à frente. Mas há dois obstáculos: primeiro, os salários nas exportações pesam menos do que no PIB nacional, devido às importações incorporadas; depois, a redução dos salários e este ambiente crispado levariam à paralisação do país. A alternativa está em ganhos de eficiência noutras áreas, com mais investimento e melhor organização. Que dizem a isto os exportadores portugueses?

Se as soluções internas falharem, resta-nos esperar pela procura externa, que já não depende de nós. E também aqui o quadro é sombrio: a Europa do euro, para onde exportamos uns três quartos do total, continua em crise profunda; e as economias pujantes estão em zonas onde praticamente não chegamos - a China, a Índia, a Malásia, o Brasil, o México... O que nos deixa atados de pés e mãos: afinal, exportamos o quê e para onde?

Eis o drama: não sei.

 

COMÉRCIO EXTERNO

Do crescimento... (Variação real (%) Ao peso relativo (Peso no PIB (%)
   

 

Com a crise de 2008-09, o comércio externo caíu a pique, mais ainda as exportações do que as importações. Daí que a recente recuperação se assemelhe a uma gota de água no oceano. Já o défice comercial, que atingiu o seu ponto mais alto em 2009, não dá sinais de grandes melhorias, pelo menos até 2011. Ou travamos este processo ou o processo nos trava a nós... 

 

Fonte: Banco de Portugal

 

Comentários

LOPES CARLOS, Bruxelas | 23/04/10 06:42
1. Artigo honesto dum Autor Honesto.
2. Os Caminhos do Futuro passam por mais produtividade interna, mais competitividade internacional e aposta em poucas mas claras Prioridades ( Agro-Alimentar, Fileira da Floresta, Actividades ligadas ao Mar, Saude, Energia, NTI).


Realista, Porto | 23/04/10 09:19
Os neolibs têm uma frase tipo para descrever a solução. Dizem eles mais ou menos o seguinte: temos que produzir mais artigos transaccionaveis e exportaveis. Eu penso que não é bem assim. Temos em primeiro lugar que reduzir as importações. O defice da nossa BTC resulta sobretudo das importações de energia. Com a subida dos preços do petroleo o defice comercial e o endividamento externo dispararam. É aqui que está a grande explicação para o nosso defice comercial.ENTÃO A PRIMEIRA MEDIDA DEVE SER TENTAR REDUZIR AS IMPORTAÇÕES DE PETROLEO E DE ENERGIA. ISTO IMPLICA INVESTIMENTOS NAS EÓLICAS MAS, SOBRETUDO, NAS BARRAGENS E NA REDUÇÂO DE PERDAS E CONSUMOS. OUTRA MEDIDA DEVE SER VOLTAR A OLHAR PARA A AGRICULTURA. NÓS NÃO TEMOS O SOLO QUE TEM A ESPANHA. MAS HOJE A AGRICULTURA FAZ-SE EM ESTUFAS E EM PEQUENAS ZONAS DE TERRENO. TEMOS QUE REANIMAR A PESCA. TEMOS QUE COMEÇAR A PENSAR A SERIO NO TURISMO DO INTERIOR. E depois, claro, temos que apoiar a exportação de "bens transaccionaveis e exportaveis".


Helder Matos, Lisboa | 23/04/10 10:42
É curioso que todos os artigos sobre economia, e não deste economista em particular que até aprecio a forma clara de expôr, redundam em identificar todos os problemas e até fazer a sua contabilização exacta, mas e as soluções ?

Levanta-me a dúvida de sempre: sustentabilidade económica à escala planetária. Parece-me que estamos num ponto de não retorno, ou seja, na natureza não há nada que cresca indefinidamente porque, então, será que a economia terá sempre de crescer? Se me disserem por ganhos de eficiência nos processos, concordo. Quanto a Portugal continuo com a certeza que vivemos sem ganhos de eficiência e no descontrolo total das contas públicas, que nunca perseguiram esse objectivo, apenas despesismo e favorecimento de certos cartéis. A resolução do problema reside ai: seriedade e competência das nossa instituições e políticos, algo impensável actualmente. Ou seja há países e países e sociedades diferentes, afinal nada de mais.


lucklucky, | 23/04/10 14:24
Que tal fazer o mercado funcionar em Portugal? Com o Estado a controlar mais de 50% da economia quer dizer que mais de 50% dos preços são falsos, não correspondem à realidade. Energia, Educação, Saúde tem tudo preços falsos, logo como raio esperam que os Portugueses decidam correctamente coisa alguma?


Paulo, Lisboa | 23/04/10 14:56
(...)Não poderíamos, por exemplo, aplicar uma taxa aos produtos importados e, através dessa receita, subsidiar as exportações? Claro que a resposta é não.(...) - ????
Chamo a atenção do autor do artigo, que paises como a Inglaterra ou a Alemanha aumentarm o IVA e baixaram outros impostos sobre factores de produção como forma de resolver este problema.
Por exemplo: um produto produzido na China e importado para o RU pagava 17% de VAT e agora paga 20% (Sim, os ingleses aumentaram o VAT 3% desde 1Jan2010 ....!) enquanto que deram incentivos fiscais (ie baixaram os impostos) a quem exporta. Resultado: Os produtos ao serem mais caros junto do consumidor, implica diminuição na procura, incluindo importações, enquanto as empresas estão mais competitivas porque os seus custos de produção ficam mais baixos. Para as empresas que importam componentes para exportar o efeito IVA é nulo, mas o restante impacto é benéfico.
Só o facto de Portugal não ter feito o rebalanceamento fiscal entre impostos directos e indirectos é por si só uma diminuição da nossa competitividade!
Por isso penso que o caminho seguido por estes dois paises vai continuar a ser seguido pelas economias mais exportadoras enquanto Portugal vai continuar em negação...!?


vg, | 23/04/10 17:44
E se a nossa moeda desvalorizasse ,o que exportaríamos,para além de fantasias económicas?O perfil do mercado externo mudou profundamente
PS-experimentem ir buscar IRS aos figurões que abatem restaurante, carro ,gasolina e despesas correntes e declaram o salário minimo.São para aí 30 porcento


anibal barca, | 23/04/10 19:22
O problema, acho eu, é que ao dificultarmos as importações por desvalorização da moeda, estamos simultâneamente a dificultar todas as importações necessárias às exportações - não só material que vai ser incorporado, como maquinaria nova que não produzimos.


Daniel, Lisboa | 24/04/10 00:04
Meus caros, não há país, empresa ou uma casa que vá ser sustentável, com futuro sem uma ESTRATÉGIA ou no caso empresarial: PLANO DE NEGÓCIO. Alguém sabe responder SERIAMENTE a esta questão: qual é a estratégia para 2015, 2020 ou até para o ano 2050? Seriamente não sabe e não pode responder, porque quem nos governa não sabe e não quer.
Primeiro que tudo, construir o tal PLANO e partilhar com TODA a população, para que o POVO sinta que faz parte e é parte fundamental dos resultados que se obterão. E esse Plano tem que ser sério, exequível, objectivo, claro e com metas mensuráveis e ambiciosas.
Neste Plano temos que decidir que caminho queremos PERCORRER. É o caminho de sermos reconhecidos por motivos positivos que não o "desenrasque" por exemplo. Queremos especializarmo-nos no TURISMO, numa placa giratória de logística, com as ENERGIAS RENOVÁVEIS, etc etc.
Para isto acontecer é necessário CORAGEM POLÍTICA e reunir consensos políticos, sociais, empresariais, sindicais e muitos mais intervenientes, mas é a SAÍDA que temos. Digo "a" e não "uma". Pensem porquê.
Obrigado.


publicado por ooraculo às 18:21
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Os despesistas

As transacções que diariamente se fazem no mundo reflectem uma operação de soma zero: as exportações de um lado são importações do outro e inversamente. Mas as consequências nos diferentes países são antagónicas. Há os poupadinhos, que vão criando reservas para acautelar o futuro. E há os despesistas, que gastam o que têm e o que não têm na voragem do presente. Como lidar com estes últimos?

 

Tomemos um exemplo europeu. Na Alemanha, por cada 100 euros produzidos, consomem 74 e investem 19: os outros 7 são poupança, que transformam em reservas. Na Grécia, para os mesmos 100, há 88 de consumo e 23 de investimento: os 11 a mais são dívida, que não pára de crescer. Agora a Grécia ameaça falência e pede ajuda à Eurolândia, onde pontifica a Alemanha. Deve tê-la? Claro que sim. Mas o bónus nos juros está a mais. A Grécia cometeu vários erros e deveria pagar por isso.

 

 Num outro plano, o que se passa entre os Estados Unidos e a China é semelhante. Os Estados Unidos gastam mais do que produzem e endividam-se; a China poupa uma parte e acumula reservas. Como o comércio entre ambos é enorme, os EUA "exigem" a valorização do yuan, para reequilibrar a balança. A China assobia para o lado e finge que não percebeu. Pergunta de um ‘outsider': a que título hão-de ser os americanos a definir a política cambial chinesa?

 

É verdade que o modelo chinês deverá ser único no mundo. Para um PIB igual a 100, eles consomem 48, investem 44 e ainda poupam 8. Não me recordo de nenhum outro país que invista tanto e consuma tão pouco. O que não deixa de ser estranho: há taxas de crescimento espectaculares, uma acumulação de reservas nunca vista - e, depois, um nível de vida de Terceiro Mundo. Faz sentido? Claro que não. Mas os americanos não têm nada com isso.

 

Portugal integra o grupo dos despesistas. Por cada 100 euros produzidos gastamos 110, os 10 a mais são dívida e a dívida acumulada já excede aqueles 100. Gastamos de mais. Ainda não somos a Grécia, mas para lá caminhamos. E o resultado final deverá ser semelhante. Pois bem, que vemos à nossa volta? O Governo não tem soluções, os partidos fazem inquéritos, os sindicatos promovem greves - e a dívida lá continua, de mansinho, a crescer...

 

Está tudo doido.

 

 CHINA VS. AMÉRICA

 

Da poupança...

(PIB real, variação (%)

 

 ...ao despesismo

 (Saldo exterior, % PIB)

 

 

 

 * Previsões.

 

 

 

Com a crise de 2009, a América caíu a pique; a China apenas abanou um pouco e recuperou logo a seguir. No dia-a-dia, a América gasta mais do que produz e acumula dívidas; a China prefere a poupança e acumula reservas colossais. Crítica dos americanos: a China deveria valorizar a sua moeda. Pergunta dos chineses: não é a América que gasta o que não tem.

  

Fontes: OCDE, Eurostat.

____

 


Comentários

antonio simao, | 16/04/10 04:39
Qual a sua proposta para sairmos deste ciclo vicioso ? Apertarmos mais e mais o cinto no sentido de pouparmos o mais possível tendo em vista a acumulação de reservas de financeiras! Não estou a ver como isso vai ser possível tendo em conta os baixos salários, o nível de desemprego na casa dos 10%, e o governo apostando nos grandes empreendimentos públicos.Tudo parece mal neste país à beira plantado.


LOPES CARLOS, Bruxelas | 16/04/10 08:25
1. Os nossos sucessivos défices e a nossa brutal divida externa só podiam conduzir a determinados cenários. O Desemprego vai ser infelizmente o meio natural de proceder ao reajustamento da nossa Economia. Todos sabiam perfeitamente isso.
2. Pior do que as dificuldades que vão chegar é a sensação de falta de perspectivas concretas.


Marco Almeida, bruxelas | 16/04/10 08:48
Senhor Daniel Amaral, eu tenho-o como uma pessoa integra, porqur não diz deuma vez por todas aquilo qua alguns Portuguêses já sabem, que isso está na banca rota há já muito tempo.


Realista, Porto | 16/04/10 09:17
Desta vez concordo com o artigo ou, pelo menos, penso que o assunto está bem exposto e é interessante. Mas o autor "cai" para o lado dos chineses e eu ,neste caso, tendo a dar razão aos americanos sobre o problema da valoração da moeda chinesa. Em primeiro lugar ha que referir, e o autor não o faz, que o valor do dolar é livre, é fixado pelo mercado, enquanto que o yuan é fixado adimistrativamente. E depois ha que referir, e aqui o autor ja refere, que a grandeza de certas variaveis da economia chinesa é de tal ordem (por exemplo as suas monstruosas reservas) que acaba por revelar que algo está mal. Aliás eu penso que com a queda das barreiras alfandegarias, com a globalisação, é chegada a altura de se repensar o problema cambial a nivel mundial. Os europeus (e nos portugueses) têm muitas razões de queixa com o cambio do euro. Os europeus (desgraçados) têm razões de queixa em relação ao cambio do yuan mas tambem do dolar.


Ricardo, | 16/04/10 11:40
como fácilmente se ve, não é pela procura interna que a china cresce... portanto o problema fácilmente se resolve, os ocidentais têm urgentemente que defender os seus interesses, é certo que para isso temos que trabalhar um pouco mais mas o trabalho com dignidade humana e com as devidas compensações é saudável. A globalização é uma tragédia, a china tá a crescer graças ao trabalho escravo e isso não é digno, temos que lhes fazer ver que esse não é o caminho, deixem de comprar produtos cuja produção é baseada em trabalho escravo.


Roberto, Funchal | 16/04/10 11:46
"Crítica dos americanos: a China deveria desvalorizar a sua moeda."
A china deveria valorizar a moeda e não desvalorizar! ;)
Erra é Humano ...Acontece aos melhores.
Bom artigo!


duvida, | 16/04/10 12:25
não percebi: para o Ocidente, a China deve VALORIZAR (para reanimar as exportações ocidentais) ou DESVALORIZAR (para diminuir o défice comercial, se se mantiver o ratio importações/exportações em termos de quantidade) o yuan?


António Francisco, | 16/04/10 13:25
Há duas variáveis que são importantes para o crescimento económico de um país:investimento e exportação. Contudo, o factor primordial para crescimento é a poupança (exemplo da alemanha e china). Assim, os americanos deviam pedir a VALORIZAÇÃO da moeda chinesa, e não DESVALORIZAÇÃO, de modo a que as importações americanas ficassem mais baratas.


Santo, | 16/04/10 13:30
Se como o autor diz a dívida cresce 10 % todos os anos, se estamos agora com uma dívida de 100 em 2015 estaremos com uma dívida de 250, sem contar com os juros.
A única forma de evitar o descalabro é reduzir o défice orçamental para 0 a partir deste ano. Caso contrário no próximo ano estaremos como a Grécia, com um pé fora do euro.


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Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

O confronto

 


Logo que me apercebi da dimensão exacta do buraco das finanças públicas, escrevi nesta coluna que a sua correcção em apenas quatro anos seria de uma violência inaudita. E sugeri que o fizéssemos em dez, no pressuposto de um apoio maioritário no Parlamento. Desconheço que iniciativas terá tomado o Governo. Mas a posição de Bruxelas matou o assunto: o défice em 2013 terá de ser inferior a 3% do PIB, ponto final.

Manda quem pode, obedece quem deve. E o Governo lá apresentou um programa com a violência que eu pretendia evitar: queda de 6,5 pontos no défice ao longo da legislatura. Rezam as crónicas que as agências internacionais gostaram muito, os números eram bonitos, estávamos todos de parabéns. Presumo que tenham olhado para os 2,8% finais e passado adiante. E se o caminho não fosse o melhor? E se o modelo não fosse exequível? E se os juros fossem mais altos?

Olhando para o programa como um todo, verifica-se que os 6,5 pontos de redução do défice se dividem em duas partes: 2,9 pontos de mais receitas (45%) e 3,6 pontos de menos despesas (55%). E, nestas últimas, 60% dos cortes são em acções sociais, 27% em investimento e 3% em juros. Mas a opção é política e poderia ser assim ou de outra forma qualquer. Francisco Louçã foi cáustico na apreciação: este PS está cada vez mais parecido com o PSD.

Sucede que o PSD não está satisfeito. Acha pouco. Por isso quer manter as deduções à colecta e os benefícios fiscais. E por isso recusa qualquer aumento de impostos. Mas não me pareceu que ponha em causa os 2,8% de défice final. O que deixa tudo muito clarinho: as receitas a menos serão compensadas com mais cortes no investimento e nas acções sociais. Parafraseando o líder do Bloco de Esquerda: este PSD está cada vez mais parecido com o CDS.

Com este programa, o PS ficou muito pressionado à esquerda. E, com o novo posicionamento do PSD, a relação entre ambos só pode agravar-se. Preparemo-nos então para o pior. Deste confronto só vejo duas saídas, ambas más: ou o Governo resigna, provoca eleições antecipadas e seja o que Deus quiser; ou o Governo capitula, e entramos na versão surrealista que é ter um partido de esquerda a aplicar o programa da direita mais radical.

Teste ao PS: a espada ou a parede?

 

O ESTADO DA ECONOMIA*

Baixa produção...  (Variação (%))
...dívida insuportável                   (Dívida externa, % PIB)
 
 

* Os números do período 2010-13 são previsões do PEC.

 

A crise internacional e o programa interno de austeridade são um travão ao desenvolvimento económico. E o baixo crescimento, associado a uma despesa que excede em muito as nossas posses, está a provocar uma dívida que pode tornar-se insuportável. Atenção a este indicador! Se as taxas de juro dispararem, o PEC, hoje elogiado, pode nem sequer chegar ao fim...

 

Fontes: INE, PEC 2010-13.

 
d.amaral@netcabo.pt

 

 


 

Comentários

NF, Lisboa | 09/04/10 14:49
O PEC virou Orçamento do Estado.Se tiver 3 meses de validade/realidade já seria bom.


Paulo, Sesimbra | 09/04/10 15:57
Parabéns! Só sabendo onde se está se pode ir a algum lado e esta é a verdadeira situação do País, tudo o resto são tretas.


lucklucky, | 09/04/10 16:15
"...o programa interno de austeridade são um travão ao desenvolvimento económico."

Interesssante então esse investimento que se verificou no passado, já não deveria estar a dar extraordinários lucros agora? O Estado não endividou todos os cidadãos nos ultimos 10 anos a quase 10% do PIB ao ano, um valor monstruoso sem paralelo. Então como é que algo que falhou durante 10 anos vai funcionar no futuro?

A não ser que esteja a referir o aumento de impostos que os que não são da "direita radical" querem. Aí estaria de acordo que mais dinheiro das pessoas para o Estado é reforçar o mau investimento. mas se não estou enganado esses motivos "radicais" não o preocupam.

publicado por ooraculo às 17:13
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Quinta-feira, 1 de Abril de 2010

Passos fatais

 

Tese consensual: os problemas do desemprego, do défice e da dívida resolvem-se com crescimento económico. Estrutura da economia, vista do lado da procura: a um PIB igual a 100 correspondem 88 de consumo, 22 de investimento e -10 de exportações líquidas, ou seja, de diferença entre exportações e importações; os 10 em excesso são dívida e a acumulação destas dívidas já excede os 100 da riqueza nacional anual. A pergunta: como é que se cresce?

O consumo só pode crescer de duas maneiras: ou com mais rendimentos ou com menos poupança. Mas já vimos que todos os nossos rendimentos vão baixar, pelo menos até ao final desta legislatura. E a poupança, que financia o investimento, não pode baixar por isso mesmo: reduzi-la seria o mesmo que aumentar a dívida externa. Enfim, se estavam a pensar em consumo para resolver o problema - esqueçam.

Se por cada 100 unidades produzidas consumimos 88, então poupamos 12. E se é com esta poupança que queremos financiar o investimento, o melhor é fechar a loja e emigrar para Marte. Mas não é. Nós sabemos que, àqueles 12 de poupança, juntamos mais 10 emprestados e elevamos o investimento para 22. Dúvida angustiante: e quem suporta esta dívida que não pára de crescer? Bom, o melhor é também não contarmos com o investimento.

Restam-nos as exportações. Que só podem crescer por duas vias: ou pelo aumento da procura externa ou pela redução dos custos internos. Formas de reduzir os custos: menos impostos do Estado, ganhos de eficiência das empresas, cortes nos salários dos trabalhadores. Querem fazer o favor de escolher? Lamento a conclusão implícita: o Governo foi realista nas projecções que fez - malgrado o fraco crescimento, não há espaço para crescer mais. É trágico mas é assim.

Lembrei-me de tudo isto no dia em que Pedro Passos Coelho foi escolhido para novo líder do PSD. O seu discurso é claro: o problema só existe porque existe este Governo, que é preciso remover. O que previsivelmente ocorrerá em breve, seja qual for a via a adoptar. O herói do momento está deslumbrado com o sucesso, revela uma imaturidade arrepiante e ignora as consequências do seu próprio delírio. Preparemo-nos então para o pior: os passos de Passos são passos fatais.

A crise agradece.

 

A CRISE AO ESPELHO*

Economia pobre...(Variação(%))  ...salários baixos (Variação(%))

* Estimativa (2009) e previsões (2010-13).

 

O crescimento económico vai ser tão pobre que praticamente não cria emprego. Mas não há espaço para crescer mais (gráfico da esquerda). E os salários reais, que tiveram um ganho significativo no último triénio, vão começar a perdê-lo daqui para a frente. É o preço da consolidação (gráfico da direita). Culpa exclusiva do actual Governo? Culpa de todos os que por lá passaram.

 

Fontes: INE, PEC 2010-13.


Comentários

antonio simao, | 01/04/10 05:45
Estamos numa encruzilhada com pouco por onde escolher e a solução por si apresentada penso não acolher grande receptividade por parte dos portugueses.São dolorosos os dias correntes.


alberto, | 01/04/10 07:43
Está bem de ver que, a curto prazo, só mais impostos (IVA) podem ajudar a diminuir o deficit, o aumento das exportações vai ser muito lento e depende muito da procura externa, cuja evolução prevista é a que se sabe.


A.Menino, Oeiras | 01/04/10 14:59
Aqui há alguns anos, os economistas defendiam que os países mais ricos eram os que tinham maior acesso à informação. Era a era do conhecimento. E de facto veja-se que as maiores empresas do nosso país, além das energéticas que Daniel Amaral esqueceu quando falava dos custos internos, são as de comunicações como a PT.
O problema é que há muita gente que gasta mais em telefone que em investimento, seja económico, seja em cultural.
Em 2001, os suecos que têm menos 100.000 habitantes mas têm 10vezes mais cavalos que nós, olharam para o sector e criaram uma empresa estatal que passou a gerir as apostas de corridas e o próprio sector económico. Todos sabemos que tipo de clima existe na Suécia e qual o clima que temos em Portugal.
Ora, se, e isto é apenas um pequeno exemplo, desenvolvêssemos com profissionalismo este sector, aumentávamos a produção de pastagens e rações, os criadores tinham mais procura de cavalos e melhores, o turismo tinha mais uns milhões e com mais poder de compra e tempo de estadia, desenvolvia-se as pequena aldeias que estão ao abandono, havia maior emprego de pessoas que neste momento em que se aposta em tecnologia, tem poucas qualificações.
Aliás, a Holanda para não ficarmos apenas pela Suécia, já cria maior riqueza neste sector que no sector que geralmente torna a Holanda conhecida, que é o das flores.
Mas é evidente, que como confundimos inovação com desenvolvimento de tecnologia ligada a electrónica, estes exemplos mais naturais e que têm a ver com sustentabilidade não vão ter grande saída.
Uma pequena nota. Toda a tecnologia ligada às energias renováveis têm alguma poluição associada porque é a China o maior (99%) produtor de matérias primas associadas.


Anti-Dumping, | 01/04/10 16:56
Excelente análise. Mas assalta-me uma dúvida: se a UE criasse um novo imposto sobre bens importados que fizesse incorporar no preço final do produto as ditas "externalidades" negativas (medida em custos ambientais e no reajuste ao "dumping" salarial, tendo por base o custo dos factores produtivos na UE), quais seriam as prespectivas de crescimento dentro da zona Euro - e, mais concretamente, em Portugal? Como reagiria a nossa indústria? Qual o impacto na competitividade, no investimento, emprego, consumo, nas despesas sociais e nas receita do Estado?

publicado por ooraculo às 23:33
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