Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

A revolução

  Números do INE, 2009: 529 mil desempregados, 9,5% da população activa. Nas camadas mais jovens, a taxa sobe para 20,1%. Ou para 24,4%, se considerarmos os jovens cuja escolaridade atingiu o ensino superior. Por regiões, as mais afectadas são o Alentejo e o Algarve, ambas acima dos 10%. Desempregados há um ano ou mais: 50,5% do total. É um quadro desolador. Que entretanto se agravou em 2010. Como é que se sai disto?

Esqueçamos 2009, um ano atípico. Nos últimos dez anos terminados em 2008, a população activa cresceu 10,4% e o emprego 7,3%; em consequência, o desemprego subiu 2,7 pontos para os 7,6%. Projectemos um comportamento idêntico para a década 2010-19: o desemprego salta para os 12%. Sucede que este número é intolerável, o que suscita a questão de saber como é que o corrigimos. Mascaramos as estatísticas? Proibimos os despedimentos? Voltamos à emigração?

Conheço a resposta dos optimistas: a solução está no crescimento económico. Muito bem. Na última década terminada em 2008, o PIB cresceu ao ritmo de 1,5% ao ano e o emprego cerca de metade disto. E se ao acréscimo do emprego juntarmos o do capital, o que resta para ganhos de eficiência é algo a dizer baixinho para não se rirem de nós. Crescemos como? Onde está a produtividade? Mais difícil ainda: como é que se articula a produtividade com o emprego?

A crise de 2008-09 é sintomática: o PIB ‘per capita' caiu 3%, o factor trabalho caiu 1,8% e o factor capital aumentou 0,5%; então a produtividade total dos factores foi negativa e da ordem dos 1,7%. Isto significa que o aparelho produtivo está sobredimensionado, porque o ajustamento do emprego ainda não se fez. Há capacidade produtiva, mas não há procura que a alimente. O desemprego só pode continuar a subir.

A ilação a tirar é que perdemos uma década a adoptar políticas erradas: na escolha dos investimentos, na organização das empresas, na legislação do trabalho, na distribuição dos rendimentos, na gestão da poupança, sei lá! E as chamadas reformas estruturais vão ter de recomeçar do zero. Mas isso ainda seria o menos. O pior é que, em simultâneo, o nível de vida vai sofrer uma queda abrupta para valores substancialmente mais baixos. Vem aí uma revolução. Como é que se explica isto às pessoas?

 

GANHOS E PERDAS

Da produção...(Variação (%)  Aos contributos (Variação (%)
   

Assumindo uma mesma produtividade, o acréscimo dos factores produtivos repercute-se com o mesmo peso no volume de produção. Se esta exceder aquele efeito, é porque houve ganhos de eficiência.

Agora observe-se o biénio 2008-09: o PIB ‘per capita' caíu 3%, e a conjugação dos dois factores apenas caíu 1,3%; então os 1,7% restantes traduzem ineficiência. É horrível.

Fonte: Banco de Portugal
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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 Centralismo de Lisboa mata a indústria do Norte!, | 25/06/10 16:29
«En el norte de Portugal, el rechazo del centralismo está a flor de piel. Basta mencionar el asunto para despertar los demonios. "Portugal es el país más centralista de la OCDE, más que Francia", "vivimos en un régimen colonial", "tenemos un presidente de la República que es el mayor centralista de Portugal y tenemos un Gobierno extremadamente centralista", son algunos de los comentarios recogidos en la región Norte. La realidad es que en Portugal están prohibidos los partidos regionales, y los diputados elegidos en Oporto, según la Constitución, no representan a los electores de Oporto, sino al electorado nacional.»

«El sentimiento de discriminación crece día a día en Oporto y Braga, los dos grandes núcleos del Norte, que no tragan que los grandes proyectos de obras públicas -el AVE, el segundo aeropuerto, la plataforma logística- estén todos previstos en Lisboa. La sensación de abandono es muy sensible no sólo en el Norte, sino a lo largo de la frontera con España.»

«La ausencia de políticas públicas de apoyo a las pymes, que constituyen el 99% del tejido industrial, ha sido la puntilla»

«El sector textil es uno de los que lleva la peor parte, con una caída de las exportaciones del 32% en los últimos nueve años. En 2009 quebraron más de 200 empresas, de las que 150 eran textiles. En el distrito de Braga, el desempleo supera el 15%. En Guimarães, otro polo industrial, el paro se disparó. El calzado, en cambio, se ha modernizado y ha sido capaz de mantener capacidad competitiva con sus rivales italiano y español. El sector ha perdido empleo y empresas, pero con la creación de marcas propias consigue exportar 1.200 millones de euros al año. Así es Portugal, un país que combina modernidad y arcaísmo.»

Vide «Portugal no quiere ser Grecia»,[c/ citações de Rui Moreira e Carlos Lage], EL PAÍS 06/06/2010.

carlo, lx | 25/06/10 12:51
Perguntas:

Existem pelo menos 700.000 desempregados em portugal.

Ainda que toda a gente fosse altamente formada e com experiencia...

Fazendo um calculo simples 700.000 / 100 ( empresas Com 100 empregados)
== 7000 Empresas

Ou seja para Criar emprego para todos os desempregados seriam necessarias criar 7000 empresas com 100 funcionarios cada.

Cada uma custaria milhoes de euros... alem de mercados... produtos clientes....

Quem vai criar estas empresas? Empresarios? O estado poderia ajudar a financiar? Quanto tempo demoraria a criar tudo isto?

Entao estas pessoas depois de ficarem sem qualquer fonte de receita como vao viver? O estado o que faz???

Grande parte destas pessoas nunca mais terao emprego em Portugal......

E agoraa????????????????????????????????????????????????????????????????

Soluçoes.

JOÃO SEIXAL, seixal | 25/06/10 10:40
Os "analiticos" e os "sábios" andam muito engraçados ou distraídos nas analises, onde estavam hà 2O anos? a construir Auto-Estradas com dinheiro da CEE, Onde está a "massa" critica e onde andam os "empresários" nos TACHOS? A Brisa não é culpada? a JAE não é culpada, onde anda o dinheiro que ganharam? Nas "reformas churudas? na Suiça? nas CAIMÃO? Ajudem!!!! Isso é que é de valor!!!!!!

hlisboa, Lisboa | 25/06/10 10:34
Faço uma sugestão!Olhem para o pacote Ingles e vejam bem quem são os alvos para o aumento dos impostos e para A REDUÇÃO!!!!
Para quem perceber o MINIMO de economia, CRESCIMENTO E CRIAÇÃO DE EMPREGO..... está tudo lá!

Realista, Porto | 25/06/10 09:25
Concordo com o artigo. Mas deixem-me baralhar um pouco as coisas. 1- O conceito de desemprego não é tão exacto como parece pelas estatísticas. Por exemplo, eu não acredito que o desemprego em Espanha (ou em qq outro país) seja de 20% e não haja nenhuma revolução social. O que deve haver é muito emprego submergido. Aqui em Portugal, pelo contrario, acredito que haja muito desemprego "fe facto" que não conste das estatísticas. O autor diz (e eu acredito) que nos últimos 10 anos os empregos cresceram 7,3%. Como a população total practicamente estagnou, a tx de desemprego devia ter diminuido. Não diminuiu porque ha cada vez mais pessoas (mulheres?) que não trabalhavam agora procuram emprego. Assim nunca mais reduzimos a taxa. Bem diz o Eng Sócrates que "criou" 150 ou 130.000 empregos. 2- O autor trata as questões económicas como se fossem ciencia exacta. E não são! como vamos sair disto? Eu não sei! Mas sei que ha 3 anos atrás a Irlanda (o tal tigre celta) crescia enormemente e a vizinha Espanha tambem. E de repente estão na fossa como nós. Tambem sei que o euro chegou a valer quase 1,5 dolares e de repente só vale 1,2 e possivelmente vai valer só 1. E isso tem um impacto mkuito grande nas exportações europeias. O FUTURO? SÓ DEUS SABE| ACABEM LÀ DE UMA VEZ POR TODAS COM A MANIA DE QUE SÃO AS POLÍTICAS ECONÓMICAS QUE OS GOVERNOS TOMARAM OU VÃO TOMAR QUE SÃO DETERMINANTES. NÃO SÃO| A NOSSA ECONOMIA É UMA CASQUINHA DE NOZ NO MEIO DE UM MAR REVOLTO.

xis, | 25/06/10 08:58
Políticas erradíssimas. Em vez ~de se apoiarem as empresas construiram-se estradas em excesso para as quais não há dinheiro para manter.
Cada vez que havia eleições havia novas estradas.
Num casio que conheço para ir para a cidade mais próxima (menos de 5 Kms)há cerca de uma dezena de estradas diferentes, inúmeras rotundas mas a indústria tradicional definha e não há novas indústrias
Agora é necessário (?) construir uma nova ponte porque a Vasco da Gama para pouco mais serviu do que dar emprego posterior ao Ministro de então
publicado por ooraculo às 17:36
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Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

A mudança

 Quando o PCP e o Bloco criticam o Governo pelo falhanço da economia, que fez disparar o desemprego, eles têm razão. Sabendo-se hoje que o colapso do produto reflecte o colapso o investimento, fica a ideia de que o Governo falhou ao não usar supletivamente o investimento público, como a teoria económica sugere. Mas esquecem-se de um pormenor: com o endividamento louco a que o país chegara já não havia ninguém que o financiasse.

Quando o CDS e o PSD criticam o Governo pelo falhanço do orçamento, que transformou o país numa legião de pedintes, eles têm razão. Sabendo-se hoje que o défice e a dívida reflectem o descontrolo da despesa, fica a ideia de que o Governo falhou ao não avaliar correctamente toda a dimensão do buraco em que nos metia. Mas esquecem-se de um pormenor: foram as medidas anti-crise a evitar que a situação se deteriorasse ainda mais.

Seja como for, estas críticas exerceram sobre o Governo uma enorme pressão. No Parlamento, da esquerda à direita, não houve partido que não fizesse do Governo o bombo da festa. Nos meios sindicais, exigiram-se outras políticas, ameaçou-se com greves, apelou-se à contestação e à revolta. E as populações em geral reagiram como sempre reagem em situações semelhantes: se há crise, a culpa é da governação. O Governo ficou cercado.

A seguir vieram os substitutos. E de entre eles emergiu a figura de Pedro Passos Coelho: palavras simples, olhar sereno, ele soube passar a mensagem de que estava ali para ajudar o país. E o país gostou. As segundas linhas se encarregariam depois do "trabalho sujo". Alvo a abater: o responsável pela crise, pelo desemprego, pelo orçamento, pelo caruncho e pela peste negra - Sócrates. O cerco dava lugar à ocupação.

Está aberto o caminho à mudança. Cavaco vai ser reeleito. O Governo vai ser censurado, humilhado e substituído por outro. E uma decisão histórica assombrará o mundo, ao pôr termo ao autismo, à incompetência e à irresponsabilidade socrática: a suspensão do novo aeroporto e do TGV. Já mais calmos, os novos senhores da terra poderão então reunir e aprovar o seu primeiro pacote de medidas: redução de funcionários, aumento de impostos, cortes nos salários e nas pensões.

Cavaco ao país: a hora é de sacrifícios.

 

PORTUGAL RECESSIVO

Cai o investimento...

(Variação (%)

 ...sobe o desemprego

(Desemprego, % pa)

   

Se quisermos um culpado para a recessão de 2009, a melhor escolha está no investimento: ele pesava um quinto do PIB e caíu quatro vezes mais do que este. Faltou ao Governo engenho bastante para fazer a compensação através do investimento público. O resultado foi a explosão do desemprego, sobretudo nas camadas jovens. Má sina ser jovem e viver em Portugal...

 

Fonte: Banco de Portugal

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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 

 LIBERAL, | 18/06/10 15:41
Num país onde o estado é dono de mais de metade da economia é mais que óbvia a responsabilidade do governo no crescimento (neste caso recessão) e no emprego (neste caso desemprego). Quem manda em mais de metade da riqueza e tem uma forte influência na restante metade não pode em tempos de crise vir clamar por irresponsabilidade em matéria económica. PS e PSD têm engordado o estado e emagrecido a iniciativa privada nos últimos 30 anos. É caricato ver alguns a classificar o PSD como "de direita" ou "liberal". Nem o PP o é... O grande problema é o ego deste centrão: acham sempre que fazem melhor que os privados. Está mais que provado que não fazem: o estado está mais endividado, é mais ineficiente e burocrático e paga com mais atraso. E insistem em aumentá-lo! Quando vem a crise o custo da sua clientela e a dívida acumulada impedem-no de reagir, investindo. Pior: insiste nos maus investimentos (que aumentam as importações e a dívida) negando mais e melhores apoios a quem quer produzir e exportar.

LOPES CARLOS, Bélgica | 18/06/10 12:35
1. Caro Senhor Rui Mendes, a partir de 2011 ( e durante o ciclo 2011/2017), e por diversos motivos , o Pais vai aperceber-se da dimensão do "caso português". Não haverá então "écrans" possiveis a tapar a realidade.
2. Estimado Senhor Rui Mendes, a solução mais prática seria a aplicação de um conjunto de "medidas exóticas" , já definidas em Fevereiro de 2006. Dada a impossibilidade politica de tais medidas serem aprovadas e implementadas, vai ser o desemprego ( de longa duração e em escala significativa) a proceder ao reajustamento estrutural.

trucla, | 18/06/10 11:43
Caro articulista. Afirma que "que o Governo falhou ao não usar supletivamente o investimento público, como a teoria económica sugere.". Ora, esta afirmação - a 2ª parte - está muito longe de poder ser assim tão taxativa e, mais ianda, está longe de ser consensual. Pode perguntar ou ler os seus colegas macroeconomistas como por exemplo o português Sérgio Rebelo (economista reconhecido internacionalmente, para quem não saiba) e ver que a conclusão de que a teoria económica sugere que um aumento dos gastos públicos "ajuda" a economia é prematura, não-consensual e, muito provavelmente, errónea, independentemente de haver financiamento ou não (mais tarde ou mais cedo equivale sempre a mais impostos).
Amândio Martins, Amora | 18/06/10 11:31
Se PCP e BE têm razão? Em parte, como qualquer português quando critica o governo. As medidas anti-crise surgiram porque as contas públicas estavam a doentes: por descontrolo entre despeasas e receitas.Mesmo que não hovesse crise mundial, o problema surgia. Com o plano anti-crise: corre-se o risco de não morrer da doença, mas já pode morrer da cura. É a teoria do governo. Porque o governo não reduz despesas? Porque não o quis fazer antes da crise? Porque não ataca o governo a economia paralela? Ainda hoje vem num jornal da concorrência, que só no Algarve há cerca de 200 mil camas paralelas ilegais. É dinheiro que circula sem ser declarado? O país está cheio de situações destas.Se todos pagassem impostos, os que já pagam passariam a pagar menos. Não se percebe o ataque ao trabalho declarado, enquanto há uma clara falta de vontade em combater o que está mal!
Rui Mendes, Lisboa | 18/06/10 11:10
Exmo Sr. Lopes Carlos, o problema é que nunca o povo portugues vai realmente ver a gravidade da situação, porque mete-se ao meio o CR ou o Fado ou o Papa.
Há anos demasiados que temos sempre de arranjar desculpas para não querer mesmo arrumar a casa, ou porque dá muito trabalho ou porque vai mexer em coisas muito "pesadas".Como portugueses somos muito calmos e aceitamos sempre o pior, porque dizemos que podiamos estar piores.
O facto é este desde o tempo do Sr. Cavaco Silva a PM até ao dia de hoje não há um politico com capacidade decisória e visão de Estadista que alertasse do Estado das coisas, o Sr. Barroso vendeu-nos algumas tangas e fugiu para a Belgica, a Drª Manuela que tinha razão mas não tinha retórica, em suma todos...Tivemos primeiros ministros e ministro perdas de tempo que nada mais nada menos passearam pelo poleiro do poder, o único Politico que teve coragem para fazer alguma coisa foi um PR(Jorge Sampaio) e ainda assim com poderes limitados que teve.
Cavaco Silva foi um mau presidente porque viu no PM uma imagem sua e capacidade invejavel para contornar os problemas como os saudosos tabus.
De facto Sr. Daniel Amaral, o futuro não é nada colorido.

RosaPratas, | 18/06/10 10:12
Devemos focar-nos na origem do problema:a crise de liderança empresarial e política.
O país vem sendo alimentado há muitos anos pelos fundos da comunidade europeia e que não têm servido para prevenir a irresponsabilidade das políticas económicas das empresas e do governo.caso contrário teríamos melhorado o rendimento disponível, a sua melhor repartição, a competitividade da economia nacional e a eficácia e eficiência das contas públicas, assentes em princípios de progresso social e de responsabilidade individual e colectiva.


Na Ilha das Ponchas, Mar da perplexidade | 18/06/10 09:30
Não se esqueçam de que os governos ainda são eleitos pelo povo e não pelos comentadores, nem peloas sondagens. Quando o povo for chamado a pronunciar-se logo se verá o resultado.
Realista, Porto | 18/06/10 09:06
Penso que o autor esteve perto de conseguir um excelente artigo. Mas não soube dosear bem as cores. Eu tambem penso que o BE e o PCP têm razão: os governos Sócrates têm desprezado o investimento, com prejuizo para para o crescimento e o emprego. O artigo descreve a inevitabilidade da desgraça que aí vem. Mas ao mesmo tempo demonstra a hipocrisia da política: Passoa Coelho vai fazer a cama a Sócrates argumentando com a subida dos impostos, o corte dos benefícios sociais, etc. Mas, depois de instalado no poder vai fazer precisamente o mesmo: aumentar impostos, cortar nos benefícios, etc.
NapoLeão, | 18/06/10 07:57
Sabe quais as "competências" e sensibilidade social do actual secretário de Estado do Emprego, o camarada Valter Lemos ? Seria um milagre descobrir 1 só ! Ora, com "soluções" destas...que podiam esperar os desempregados, os mais fracos da nossa sociedade ? Quando se trata de fazer "promessas", este Governo em fim de ciclo, tenta logo lixar os desempregados, como se estes não fossem pessoas com nomes, filhos e pais idosos ! EW sem futuro" em Portugal ! Mais uma vez...aí está a "mala de cartão" !!!
LOPES CARLOS, Bélgica | 18/06/10 07:05
1. Excelente artigo como sempre.
2. Depois de uma década para esquecer, os Portugueses vão ter de enfrentar uma década com muitos riscos.
3. A sociedade portuguesa encontra-se muito dividida e muita gente ainda não percebeu a real extensão da gravidade da situação e das suas consequências no nosso quotidiano durante muitos anos.
4. Um dia, quando se comparar a profunda diferença entre o teor dos discursos partidarios proferidos durante as ultimas eleições gerais portuguesas com a realidade economica e financeira que já então não podia ser escamoteada os analistas/politologos/comentadores vão ficar muito "surpreendidos". Pois assim se fazem as cousas, como diria o Mestre Gil.
antonio simao, | 18/06/10 06:48
Caro Daniel Amaral o seu artigo de hoje tem algo de profético, uma visão negra dos dias presentes, e uma previsão de uma vida mais difícil num futuro próximo.
Como é possivel, | 18/06/10 00:49
este jornal bateu no fundo.

como é possivel defenderem que o be e o pcp tem razão! Mas queriam que o governo se endividasse AINDA MAIS para investir em projectos inuteis?

Muda-te para o jornal avante.
publicado por ooraculo às 18:30
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Sexta-feira, 11 de Junho de 2010

Moinhos de vento

A CGTP, o PCP e o Bloco exigem políticas de esquerda. O CDS exige suspender o TGV. Os camionistas exigem gasóleo mais barato e SCUT sem portagens. As comissões de inquérito exigem a cabeça de Sócrates. E até Passos Coelho, o político da moda, exige que não lhe façam exigências. Com tanta gente a exigir, não é difícil imaginar um Verão quente: vêm aí as greves. E depois?

Portugal tem um problema grave de finanças públicas. Depois da maior crise de que há memória, e das medidas para a contrariar, ficámos com um défice insuportável que o actual plano de austeridade vai procurar corrigir. Os sacrifícios vão ser enormes. Mas já se sabe que, a seguir ao défice, vem a dívida acumulada, com números de arrepiar. O que só pode traduzir-se por sacrifícios adicionais - sabe-se lá até quando. As greves melhoram o orçamento? Não.

Portugal tem outro problema grave de endividamento externo. Fruto de uma atitude suicida que percorreu vários governos, fomo-nos habituando a gastar o que tínhamos e o que não tínhamos até descambarmos neste inferno: já devemos mais do que a nossa própria produção! Mas nem assim arrepiámos caminho. Numa Europa do euro com a situação controlada, persistem no rebanho duas ovelhas ranhosas: Portugal e a Grécia. As greves travam a dívida? Não.

Portugal tem um terceiro problema, o mais grave de todos, ligado à anemia económica e à falta de emprego. A última década foi de uma extrema crueldade: crescemos a um ritmo anual inferior a 1%, quando precisávamos de três vezes mais; afundámo-nos em produtividade e em competitividade externa; e a taxa de desemprego pulou de uns confortáveis 4% para mais de 10%. Ou seja, o Estado social faliu. As greves vão recuperá-lo? Não.

Imaginemo-nos então na pele dos grevistas: se as greves não melhoram o orçamento, não travam a dívida e não criam emprego - afinal para que servem? Resposta dos promotores: servem para alterar as políticas. Santa ingenuidade! As políticas que estão a ser seguidas não têm alternativa, são absolutamente indispensáveis e apenas pecam por tardias. Pior do que isso: estas greves obedecem à lógica do absurdo - propõem-se minorar sacrifícios e acabam em sacrifícios ainda maiores.

Duelo sem história: ingénuos contra moinhos de vento.

 

BARCO AO FUNDO

Crescimento indigente...

(PIB, variação (%)

...Endividamento louco

(B.Corrente, % PIB)

   

A última década é para esquecer. Os americanos tiveram um crescimento médio anual da ordem dos 2%, a Europa de 1,5% e Portugal inferior a 1%. E, em termos de desequilíbrio externo face ao PIB, a Europa teve uma balança equilibrada, os Estados Unidos um défice médio da ordem dos 5% e Portugal um défice médio superior a 10% (!). A atitude portuguesa é de loucos...

 
Fontes: Eurostat, Banco de Portugal.

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

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Comentários

 

C.Vieira, Boston, USA | 11/06/10 18:43
Artigos sempre informativos e coerentes. Obrigado!
CSMA, ÁGUEDA | 11/06/10 11:58
Portugal nem precisa muito da concorrênçia externa para acabar no abismo, basta deixar estes nossos governantes em paz e malta acaba alegremente por lá chegar. Então um país preférico como o nosso em vez de combustiveis / energia mais baratos para melhorar a competividade das empresas,faz precisamente o oposto e carrega nos impostos desses produtos/serviços fazendo com que o preço final dos produtos exportados seja muito mais elevado tendo em conta que a mão de obra em portugal até nem é muito elevada. Como é possivel portanto que portugal um país pobre tenha empresas como a Galp , EDp, PT a dar lucros fabulos aos seus poucos accionistas?? Bem muito provavelmente á custa da competividade das empresas ditas PME. Se querem endireitar as finanças publicas que tal por os bancos a pagar IRS como toda a gente??

Realista, Porto | 11/06/10 09:24
Deixem-me enxertar aqui duas notas sobre a crise.
1- Eu vejo quase tanta televisão inglesa (Sky News e BBC) e espanhola (TVE Int e TVGaliza) como portuguesa e noto uma diferença abismal num ponto. Lá fora fala-se da crise mas sem exagerar. Aqui quase só se fala da crise, ao ponto de se ignorarem notícias mun diais importantes. 2- Recentemente passei uma semana de ferias no Algarve, num local para onde ja vou ha muitos anos e que conheço bem. Notei uma quebra brutal no número de ingleses. Os espanhois tambem são menos e, sobretudo, consomem muito menos. Como me dizia um amigo de um bar, agora vêm só passear. Quanto aos portugueses tudo na mesma. Comem um bocadinho menos nos restaurantes mas lá se vão aguentando. Os hoteleiros esperam que este ano os números não desçam e contam sobretudo com os portugueses. ACABEM LÁ COM O CHORADINHO!

Pato Donald, Disneylandia | 11/06/10 08:40

E para quando legislação que obrigue todos os gestores a pensarem no médio prazo, isto é bónus a só poderem ser distribuídos de 5 em 5 anos ?

O problema da nossa economia é que todos pensam da mesma maneira, isto é no curto prazo. Os resultados estão á vista...

LOPES CARLOS, Bélgica | 11/06/10 07:17
1. Excelente e corajoso artigo dum grande Economista.
2. Depois de uma década a voar baixinho, vamos ter uma década muito muito dificil. Com opções inadiáveis.
3.Há matérias que só podem ser resolvidas a nivel global e há outras matérias que só podem ser tratadas a nivel europeu. Mas, só os Portugueses podem eliminar os nós górdios que estrangulam muitos dos caminhos do Futuro.
4. Aqueles que desvalorizaram/negaram as consequencias da nossa muito pesada divida externa bruta e do nosso crescente serviço da divida comprometeram o futuro do País. Irremediavelmente.
antonio simao, | 11/06/10 05:12
Excelente o seu artigo. Como diz a finalizar a sua análise a atitude portuguesa é de loucos, mas tenho a certeza que poucos darão razão às suas conclusões, e as greves vão continuar e aumentar de intensidade sem resolverem qualquer problema, e o crescimento económico vai continuar anémico.
Temos uma maneira absurda de estar no mundo. Esta forma de estar no mundo não é de agora, pelo menos desde de meados do século XIX, vários autores a registam, entre os quais Oliveira Martins no seu Portugal Contemporâneo.
lucklucky, | 11/06/10 00:33
"As greves melhoram o orçamento? Não."

Tornam menos mal, não é preciso pagar ordenados desses dias. Devido á baixa produtividade e inutilidade seria bom que os Funcionários Publicos fizessem greve dia sim dia não.
publicado por ooraculo às 06:28
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Sexta-feira, 4 de Junho de 2010

Os próximos anos

 

Sentei-me ao computador, abri o Excel e coloquei-me esta pergunta: findo este plano de austeridade, como vai reagir a dívida pública? Fui gentil: adoptei como enquadramento macroeconómico o cenário inicial do Governo, embora hoje ele me pareça optimista, e apenas reajustei o défice à sua nova tendência. Eis a resposta: a dívida sobe nove pontos para 86% do PIB. É um número assustador.

Quando os líderes do PS e do PSD se encontraram para analisar o plano, devem ter definido tudo menos o seu prazo de validade. Foi pena: agora o PSD defende que o compromisso é "por 18 meses" e o PS argumenta que é "pelo tempo que for necessário". A nenhum deles terá ocorrido que esse prazo simplesmente não existe. Passos Coelho está feito: vai ter de engolir os 18 meses e ainda várias medidas adicionais. Vou já explicar porquê.

Peguemos nos orçamentos. Se a dívida pública está hoje nos 77% do PIB e ainda sobe até aos 86%, isso quer dizer que a sua estrutura vai agravar-se. E o desagravamento significa impor mais restrições. O meu palpite é que, um dia destes, a senhora Merkel vai apresentar-nos uma proposta que nós não podemos recusar: além de um défice inferior a 3%, precisamos de uma dívida inferior a 60%. Traduzindo para leigos: vamos ter de passar os défices a excedentes orçamentais. Aguenta Passos!

O racional destes critérios merece uma explicação. Imaginemos um país onde o PIB é de 100, a dívida de 60 e o défice de 3: se, no período seguinte, o défice continuar em 3, a dívida passa para 63; e, para manter o peso relativo (60%), o PIB tem de passar para 105. Era este o raciocínio subjacente ao euro: o PIB nominal (volume e deflator) deveria crescer ao ritmo de 5% ao ano, o que por si só absorveria os défices. Hoje sabemos que não foi assim e estamos a pagar por isso. Bom dia, Maastricht!

Resta-nos o enquadramento político. Sócrates é hoje um líder fragilizado, à espera de remoção. E todos conhecemos o sucessor. Mas não é crível que Passos seja melhor. E muito menos que venha a dispor de condições que Sócrates não conseguiu. O risco de afundamento é enorme. Pois bem, se o que ambos querem é salvar o país, não seria preferível juntar as duas vontades e oferecer ao país uma solução conjunta?

Vá lá, só dói um bocadinho...

 

AS CONTAS PÚBLICAS

Regresso às origens...

(Défice, % PIB)

 ...afogado em dívidas

(Dívida, % PIB)

   

 

Admitindo que vamos cumprir o plano agora traçado, no final de 2013 teremos um défice igual ao de 2000 e que satisfaz o que foi definido em Maastricht. É óptimo. Mas o mesmo não sucede com a dívida, que continua a crescer e depois estabiliza nos 86% do PIB: o máximo permitido é 60%. Ou eu me engano muito ou vamos ter aqui um problema que é preciso resolver...

 

Fontes: Governo, Banco de Portugal

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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


Comentários

 

 Realista, Porto | 04/06/10 16:50
Tenho que concordar com o artigo. Mas....tudo vai depender do crescimento. Hoje em dia previsões não são muito de acreditar. Ha 2 anos a Espanha tinha um suoeravit superior a 2% (graças ao crescimento). Hoje é o que se vê. Vamos ter coragem. O seu anterior artigo sobre o TGV estava correcto.
 Fantasma Gaspar, Oxford | 04/06/10 16:47

Viva o Bloco Central ( PS PSD grandes empresas Banca que financiaram a desgraça dos pequenos) ,responsãveis por enganarem o "Zé Pagode com papas e bolos".

Solução :

- Só distribuir lucros e bonus aos gestores de 5 em 5 anos.E viam como o lixo não se punha debaixo do tapete, nem se atirava a "borrasca"para a frente.

ACORDEM!
 USA, | 04/06/10 16:29
Alguem esta disposto a investir numa organizacao com o a ETA?
C.Vieira, Boston, USA | 04/06/10 15:04
Bom artigo, como e costumario.
Paulo, Sesimbra | 04/06/10 14:56
A preocupação geral é com o défice, mas, como é assinalado no artigo, existe ainda uma restrição adicional que a do limite de endividamento do Estado a 60% do PIB. Depois da batalha do défice (se for ganha) teremos a batalha do endividamento. Dizer que os sacrifícios impostos aos portugueses são suficientes é só estar a ver metade do problema. Sem cortes a sério na Despesa, os sacrifícios a pedir não irão parar. É que com isto tudo, continuaremos a depender dos mercados da dívida e quando o "amparo" do BCE acabar os juros poderão aumentar de uma forma insustentável e a solução será a de irmos bater à porta do FMI/UE. O FMI já nos conhece bem pois somos clientes habituais. Somos bons alunos, dizem, mas nunca aprendemos.
lucklucky, | 04/06/10 13:22
É muito simples resolver o problema.

Entrega Património do Estado ás pessoas em Fundos: Edifícios e Empresas: CGD,CTT,Carris em Títulos etc. Cortar as despesas acabando com Ministérios inuteís como Educação, Economia, Agricultura, etc, diminuir as pensões, ordenados.
Os valores na economia passam a ser os verdadeiros: transportes, educação, saúde.
As pessoas equilibram a perca de ordenado com os fundos do património que era do Estado, e a baixa de impostos, tirando assim Poder aos políticos.

 Rui Mendes, Lisboa | 04/06/10 11:56
Boa analise, e uma boa constatação.
O problema da Républica sempre foi e sempre será o Deficit orçamental, e somente nunca tivemos problemas de endividamento externo brutal porque o nivel da poupança era elevado. Nos tempos do PM Prof.Cavaco Silva, juntamente com as vacas gordas importadas de Bruxelas, o desenvolvimento foi dado em consumo e mais consumo, e melhoria da qualidade de vida, e emagrecimento da estrutura de poupança. Das duas uma, ou morremos pelas maõs do aperto fiscal/orçamental, ou pelas mãos do aperto da divida.
Ou melhor, se calhar a entrada no incumprimento será mesmo inevitável.
A melhoria da divida está associada á melhoria do nivel de poupança e assim mesmo também, o lançamento de divida publica sobre cidadãos nacionais afastando-nos da flutuação/especulação dos CDS.
Por mais optimista que eu seja nestes planos, a geração de superavit orçamentais da forma como a despesa esta constituida é uma tarefa impossivel, sem que a carga fiscal suba mais e sabendo que isso corta o minimo crescimento fiscal.
Em suma, entre recessão e incumprimento, o FMI irá-nos visitar
 lucklucky, | 04/06/10 11:40
O Estado tem um defice de 20% entre despesas e receitas(1), Isto quer dizer que 20% dos gastos do Estado: salários de Politicos e Funcionários, Pensões , Compras, serviços contratados, 20% disto vem da dívida publica. Você recebe ordenado ou pensão do estado? 20% desse valor é dívida. Você faz um serviço para o Estado, 20% do orçamento do seu trabalho vai ser pago com dívida.(2)

(1)não se deixem enganar pelas contas feitas em proporção ao PIB.
(2) não incluí as EP's, Municípios etc.
 DMM, Lisboa | 04/06/10 10:15
Excelente. Conheco as crónicas de Daniel Amaral desde o tempo do semanário "O JOrnal". Este artigo é actual. É claro e ilucidativo. Os portugueses têm que apertar o cinto e passarem a consumir o equivalente ao que produzem.

 LOPES CARLOS, Bruxelas | 04/06/10 07:05
1. Como sempre, um artigo bem fundamentado e que permite uma reflexão séria e aprofundada.
2. Mais grave que a divida publica OFICIAL , é a divida externa bruta real, que incluiu a divida das familias e e das Empresas ( incluindo bancos) ao estrangeiro. E, mais tarde ou mais cedo , terão de contabilizar os submarinos, as PPPs, as SCUTs e outras despesas não incluidas ainda no perimetro orçamental. O peso do serviço da divida aumentará o que faz diminuir o Rendimento Nacional Disponivel...acresce um crescimento pífio do PIB até 2017.
3. Se tudo correr "bem" o PEC permitirá , segundo muitos analistas, não ir um ou dois meses ao mercado externo pedir empréstimos. Tanto barulho para nada.
 antonio simao, | 04/06/10 05:54
Caro Daniel Amaral
Qual é a solução conjunta que preconiza para resolver os desafios económicos e financeiros?
Prolongar, por um período indefinido, as medidas de austeridade acordadas por José Sócrates e Pedro Passos Coel
 A FAZER CONTAS SOMOS TODOS GÉNIOS, Antes das CONTAS | 04/06/10 02:48
Portugal vem violando várias regras de Ouro das Finanças: http://dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=642068

E seguindo a mesma lógica, se o Estado se endividar num valor idêntico ou inferior ao do investimento produtivo, os impostos necessários no futuro para amortizar esta dívida adicional são compensados pelos benefícios gerados com o capital investido.

Benefícios estes calculados por um qualquer Professor Deixa LEvar no Cu os teus conterrâneos!!!
 João, Porto | 04/06/10 01:12
Daniel Amaral, tenho respeito por si e pelo seu trabalho, mas quero insistir num ponto: esse TGV espanholito assinado a um Sábado a mando do engenheiro (?) Sócrates é um disparate que nos vai pôr em muito maus lençóis
publicado por ooraculo às 17:48
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