Sexta-feira, 24 de Junho de 2011

TSU: missão impossível?

O programa sugerido pela ‘troika’ e que nós acolhemos é muito claro. Era preciso melhorar a competitividade e, para isso, foi definido um modelo: a Taxa Social Única (TSU) deveria ser “reduzida”; essa redução deveria ser “substancial”; e as medidas compensatórias teriam de assegurar a “neutralidade fiscal”. Tudo fácil, portanto. Mas a ideia que fica é que ninguém fez contas. E o que parecia fácil virou quadratura do círculo. Vamos ver.

Numa perspectiva de grandes números, a 4 pontos da TSU correspondem 2 pontos do IVA e 1% do PIB. Admitamos esta redução de 4 pontos: a compensação deverá ser pacífica, mas o corte é tudo menos substancial; o modelo não serve. Elevemos o corte para 20 pontos da TSU: a redução é agora substancial, mas deixou de ser exequível; ninguém vai aumentar o IVA em 10 pontos, ou algo equivalente, sem se sujeitar a um confronto nas ruas. Que fazer?

A tentação do novo Governo será proceder a uma redução substancial da TSU e ignorar a compensação, com sacrifício do Fundo de Pensões. E, se o fizer, apenas repetirá o que vários outros governos fizeram antes dele. Mas atenção: este expediente viola o princípio da neutralidade fiscal e a ‘troika' não vai permiti-lo. Aliás, a situação já foi de tal modo exposta que seria a própria sociedade civil a sublevar-se. É preferível não tentar.

Acresce que o próprio modelo tem pontos fracos. Em primeiro lugar, o peso dos salários nas exportações é muito baixo, devido às importações incorporadas. Depois, os beneficiários das medidas não seriam apenas os exportadores, mas todas as empresas nacionais. E, por último, não é de excluir que as empresas aproveitassem os cortes na TSU, não para melhorarem a competitividade, mas para maximizarem os lucros. A missão parece impossível.

Tenho uma proposta a fazer. É óbvio que, se existisse moeda própria, só precisaríamos de desvalorizá-la. Mas essa moeda não existe, e a alternativa foi substituir a desvalorização monetária por uma desvalorização fiscal. Eu aposto numa terceira via, que é o aumento da produtividade. Há duas formas de o fazer: financiando as empresas, para que invistam mais e melhor; e negociando com os trabalhadores, para que estendam o horário de trabalho. Não acham que esta solução é melhor e mais justa?

A palavra a Vítor Gaspar.

 

 

OS GRANDES DESAFIOS

 

 Controlo do défice...

(Balança corrente, % PIB)

 ...e mais crescimento

(Produtividade, UE=100)

   

O nosso défice externo, há mais de dez anos na órbita dos 10% do PIB e sem tendência a melhorar, é hoje um dos principais obstáculos ao crescimento económico. Precisamos de reduzi-lo a zero, ou mesmo transformá-lo em excedente, a um prazo curto. E, na ausência de moeda própria, só temos duas maneiras de o conseguir: a desvalorização fiscal ou o aumento da produtividade. Eu inclino-me para a segunda hipótese...

 

Fonte: Comissão Europeia.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 


Comentários:


 Botaqui , | 25/06/11 06:56
Pois é FANHOSO. E o iva terá que subir muito não apenas por causa da descida da TSU, mas também para poder manter as pensões de reforma. O 1º ministro disse em campanha, que preferia subir os impostos do que cortar as pensões.

Fanhoso , | 25/06/11 06:53
Para compensar a descida da TSU, lá teremos nós que suportar o IVA a 30%.
Aritmética e desafios , | 24/06/11 19:44
O artigo evidencia de forma clara que a teoria da redução da TSU para aumentar a competitividade não tem ponta por onde se lhe pegue. Só espanta que tanta gente inteligente perca tempo com fantasias que não resistem a uma simples análise aritmética.
Quanto a desafios, apenas um: provem que, num quadro de livre comércio e de moeda única, é possível o nosso desenvolvimento económico sustentado. A ter em conta o resultado das últimas décadas......
 
Leonel , | 24/06/11 17:31
A descida da TSU é fundamental para a competitividade das empresas nacionais, principlamente as que concorrem com concorrencia do leste e da Asia. Deve-se reduzir a TSU ano a ano para cobrir os aumentos salariais - assim mantêm-se os custos de mão de obra nos próximos anos. Como a China tem aumentos de 8 a 10% nos salários previstos para os próximos anos e como a moeda deles já está superdesvalorizada é a oportunidade para uma nova vaga de investimentos estrangeiros em Portugal.
 
Magno Neiva , Barcelos | 24/06/11 15:50
Vamos lá ver se sou outra vez passado a "lápis azul" (sim, existem milhares de pessoas a spamar o DE, mas eu já fui pincelado sem qualquer insulto) quanto à solução que apresento em relação à TSU.
Digo isto desde que me conheço e que esta questão vem a praça pública:
A criação de um novo escalão do IVA na ordem dos 30-35% para os artigos considerados de luxo – perfumes, relógios, jóias, produtos tecnológicos, carros de alta cilindrada, viagens de 1ª classe!, etc, etc - pois, como sabemos, academicamente são produtos cuja procura não depende de períodos de crise nem de um aumento de 7-8-9 % no valor final, mas sim do gosto/vontade/escolha do comprador, é exequível? Não tornará o IVA num imposto mais justo? Poderá ser colocada em prática? E poderemos tratar de assuntos bem mais sérios e estruturantes para a economia portuguesa que este celeuma TSU/IVA?
OU só haverá interesse em não mexer nesses produtos, pois são produtos do "gosto particular" dos governantes e das camadas altas? Enquanto os enlatados e as fraldas podem subir para a taxa normal, pois como são obrigatórios no cabaz de compras dos portugueses leva tudo "porrada"?
Num exemplo básico, simples e curriqueiro, que à 1ª vista nem parece nada de especial deivos aos valores envolvido, mas no fim de um ano o é, acho imoral que a minha latinha de atum, que tão bem fica com uma massa, suba de % de IVA, e o blackberry que o meu vizinho troca sempre que sai um novo modelo (sem que o modelo anterior atinja sequer um valor residual) não suba o dobro de pontos percentuais.
alberto , lisboa | 24/06/11 12:42
O articulista é um ilustre economista que sabe do que fala. Concordo que a descida moderada da TSU não serve para nada, mas mesmo uma grande descida só serviria para aumentar os lucros das grandes empresas que estão fora dos bens transaccionáveis, a menos que levassem com um IRC descriminatória para financiar o buraco na TSU. É a quadratura do círculo, não será tempo do senhor analisar nas suas intervenções escritas a possibilidade ( bem interessante ) que o Dr ferreira do Amaral tem vindo a abordar de uma saída do euro controlada e apoiada pela UE ? Tinha a vantagem de não lançar os activos das famílias e empresas no buraco ( mantinham-se em euros ), os passivos continuavam em euros, a nova moeda entrava na data de corte da medida, e o enorme gap criado no futuro para pagar o diferencial em euros seria apoiado, em condições a ver, pela própria UE, FMI, o que fosse. Acho que é um assunto da maior importância não ignorar e começar a debater sem medos nos espaços próprios, já que uma coisa é absolutamente certa: tendo em conta as circunstâncias em que estamos, portugal nunca terá condições para pagar a actual e futura dívida, e mais tarde ou mais cedo, a menos que a UE mude as regras de suporte ao euro, a bancarrota será certa.
 
JTPacheco , Lisboa | 24/06/11 10:55
Andamos sempre à procura de varinhas mágicas, como se existisse uma solução simples que, até aqui, tivesse passado despercebida a todos e, por milagre, fosse agora resolver tudo.
Os ganhos de produtividade terão que ser feitos pela soma de pequenos contributos na redução dos custos de mão de obra, dos custos da energia, das despesas administrativas (o que, no caso das empresas exportadoras, pode passar por um apoio mais activo das delegações do ICEP nos países de destino das exportações), etc.
Nenhum destes ganhos, por si só, bastará. Todos juntos, talvez.
 
Realista , Porto | 24/06/11 09:52
Concordo inteiramente com o autor. A redução da TSU só teria algum efeito se fosse substancial, 15 a 20 pontos, como sugere o ministro da economia no seu último livro. Mas como compensar esta redução? Tambem receio que comecem a escacar o fundo de pensões. Tambem penso que a ideia de aumento da competividade por descida cos custos do trabalho já cansa e não resulta. Seria preferivel adoptar medidas mais pontuais junto dos potenciais exportadores: crédito mais facil, seguro de credito nas exportações, campanhas promocionais no estrangeiro, etc.
PS. TAMBEM DESEJO QUE ESTE GOVERNO TENHA EXITO, MAS CONFESSO QUE COMEÇO A FICAR ASSUSTADO. A ORGANICA DO GOVERNO NÃO FAZ SENTIDO. 10 OU 11 MINISTERIOS APENAS NÃO FAZ SENTIDO. ALGUMAS NOMEAÇÕES, DEVIDO À JUVENTUDO E CARIA NEOLIBERAL MUITO ACENTUADO, TAMBEM NÃO.
 
JV , | 24/06/11 09:49
"negociando com os trabalhadores, para que estendam o horário de trabalho"...fala quem não tem responsabilidades políticas. Assim é fácil. O Dr. Daniel Amaral sabe perfeitamente que esta medida seria extremamente difícil e provavelmente impossível de concretizar. Não discordando dos resultados que produziria, acho simplesmente que o que ele propõe isso sim é que é missão impossível, Significa mexer em "conquistas" dos trabalhadores há muito adquiridas e pelas quais lutaram e não acredito que aceitassem mexidas no horário de trabalho.
 
antonio , | 24/06/11 07:58
O Dr. Amaral considera o aumento da competitividade via reducao da TSU inexequivel. No entanto acha perfeitamente exequivel um aumento da competitividade via os mecanismos tradicionais que tanto sucesso tem tido neste pais. Financiamento tem tido as empresa mais que muito ao longo dos ultimos anos (preciso lembrar os fundos provenientes da uniao europeia?). E negociar com os trabalhadores para obter mais flexibilizacao no horario laboral? Onde possivel, isso ja foi feito. Por algum motivo ha feudos onde nao se consegue penetrar.
Concordo que e a quadratura do circulo, mas a alternativa apresentada e ainda mais utopica do que a baixa da TSU.
 
miguel , | 24/06/11 07:46
eu não percebo é a insistência de financiar empresas!! não percebo. sempre o estado a dizer para onde é que as empresas devem ir, que sectores apostar e por ai adiante. deixem ser os empresários a decidir tal caminho. se o facto de terem mais lucros promover isso, ainda melhor.
sobre estender o horário de trabalho, deveria deitar um olho a artigos sobre comportamento e viria que em muitos casos as horas de trabalho foram aumentadas (unilateralmente) e o resultado foi uma reduçao efectiva do nº de horas trabalhado.
publicado por ooraculo às 15:56
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Domingo, 19 de Junho de 2011

O ataque às pensões

A população mundial, a ultrapassar a barreira dos 7 mil milhões já em Outubro, deverá continuar a crescer até 2085, altura em que atingirá os 10 mil milhões. Em paralelo, admite-se que esta população continue a envelhecer, devido ao aumento continuado da esperança média de vida. Portugal não é excepção: hoje, a relação entre idosos (+65a) e activos (15-64a) é de 27%; em 2050 deverá passar para 58%. Como lidar com este fenómeno social?

A iniciativa mais sólida que se conhece ocorreu no primeiro mandato de José Sócrates e culminou num acordo com os parceiros sociais em 2006. O estudo partiu de um cenário base, que projectava a tendência anterior: o subsistema já estava em ruptura e o fundo extinguir-se-ia em 2015. A seguir introduziram-se as correcções: o subsistema entraria em défice apenas em 2036 e o fundo a aguentar-se-ia para lá de 2050. Foi uma reforma notável.

Mas os políticos gostam de dar com uma mão o que retiram com a outra. Cedendo a um estranho masoquismo cujo alcance me escapa, os sucessivos governos sempre olharam para as pensões como coutada sua. E foram cortando fatias: Guterres em 2002, Barroso e Santana em 2002-04, Sócrates em 2008-10. Tese implícita: se há carência de fundos, recorre-se aos fundos de pensões - CGD, PT, bancos... E o que era uma reforma excelente começou a patinar.

O episódio mais caricato que se conhece está num despacho do ainda governo em exercício, que expressamente colocou o actual Fundo de Pensões ao serviço da dívida pública e, nessa qualidade, o transformou em mais um dos múltiplos credores do Estado. Imagino o filme: como vamos ter de reestruturar esta dívida, já hoje ingerível, os primeiros "reestruturados" vão ser os próprios pensionistas, que assim verão o fundo a voar. Uma vergonha.

Embora lamente, compreendo que em situações de excepção possa haver cortes nos salários: em tese, os visados poderão recusar a medida e ir trabalhar para outro lado. Mas o caso dos reformados é diferente. Ao longo da sua vida activa, eles foram acumulando poupanças que entregaram a um Fundo de Pensões, cujo gestor é o seu fiel depositário. E, sendo assim, a apropriação indevida destas poupanças é um crime que os tribunais deveriam punir. Será que os políticos ainda não entenderam isso?

O próximo alvo é a TSU.

 

SEGURANÇA SOCIAL

 

 Dos contributos...

(Subsistema, % PIB)

...à acumulação

(FEFSS*, % PIB)

   

 

*Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social.


Um cenário base, que projectasse a continuidade, já hoje estaria em terreno negativo. Mas as correcções introduzidas permitiam aguentar o subsistema até 2036. Já o Fundo acumulado, que no cenário base entraria em desequilíbrio em 2015, manter-se-ia crescente até 2035 e suportaria qualquer impacto até para lá de 2050. Mas isso era em 2006. Depois disso, o ainda governo em exercício perdeu a cabeça. E agora?

Fonte: MTSS, Junho de 2006.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

COMENTÁRIOS:

 

Aleluia! , Lisboa | 19/06/11 23:02
Lá apareceu alguém na comunicação social a apontar, se não a ilegalidade, pelo menos a iniquidade dos cortes nas pensões, cuja formação os nossos e os outros liberalizantes fazem por esquecer, considerando-as um benefício ou mesmo uma esmola e não um direito, aliás arduamente conseguido - menos para uns tantos privilegiados - ao longo de uma vida de trabalho e descontos. Tais liberalizantes omitem que o dinheiro dos sistemas estatais da previdência (CGA ou SS) não é do Estado, é dos pensionistas e que àquele somente compete administrar e gerir com competência e honestidade aquele capital. O que não foi certamente o caso da sua aplicação na compra de lixo (leia-se títulos do tesouro). Sócrates e Teixeira dos Santos deviam ser juridicamente responsabilizados por este procedimento.


 

Maria , | 19/06/11 15:27
Portugal e o seus governos tem uma gestão danosa há anos...... convenceram os portugueses que podiam viver ao nivel dos outros paises europeus, nem que para isso se tivessem que endiviar. O estado fez obra, muita dela para satisfazer interesse obscuros...... autoestradas sem transito, novos hospitais em vez de requalificar os antigos, novas escolas em vez de reaqualificar as antigas, vendeu patrimonio para depois o alugar por milhões, para além da imensa clientela partidária incompetente a maioria ( e todos os seus amiginhos e familiares) a viver á custa do estado ( seja autarquias, seja empresas públicas, seja administração central)
Temos que reduzir as gorduras do estado, o Ps só aumentou impostos mas manteve as clientelas.
Vamos ver PSD/CDS tem coragem para avançar.......
Começaram bem com um governo pequeno poupa aos portugueses mais de 1 Milhão de euros por ano.....
Para o MEETITITOT , | 18/06/11 21:50

Oh MEETITITOT, desaparece e vai com o teu Inglês para Conchichina ou para onde quiseres.
Estamos em Portugal e a nossa Língua é o Português, a Língua de Camões, um Poeta, que, se fosse Inglês, os "beefs" com o seu chauvinisno doentio, fariam dele - e com razão, diga-se de passagem - o maior, dentre os maiores, de todos os tempos, ao nível mundial.
Nem Shakespeare chega para lhe fazer sombra !
Basta ler algumas oitavas daquela epopeia para se ver que estamos em presença de um ser ímpar, de uma força da Natureza !
meetitiot , Muscat | 18/06/11 21:17
If you are looking for an extra BOOST of energy which will make you workout longer
and harder to burn more fat, then Zenslim (ЗенСлим) is the ultimate solution.
ANDRÉ LEYRENO , COIMBRA | 18/06/11 18:10
QUE ESPERAVAM DO DELMIRO CARREIRA? QUEM PRATICA UM SINDICALISMO DE
AVESTRUZ DEIXANDO QUE DE TRÊS SINDICATOS SE PASSE A SETE NÃO MERECE
QUE SE PERCA MUITO TEMPO COM O NOME DELE. OS BANCÁRIOS JÁ HÁ MUITO
PERDERAM A VIRILIDADE. OS ANOS 60 ATÉ 80 JÁ LÁ VÃO HÁ MUITO! OS VELHOS
ESQUECERAM O QUE FOI O SINDICALISMO DE VANGUUATDA E JÁ NÃO PODEM
ACTUAR E OS NOVOS ESTÃO.SE BORRIFANDO PARA UM SINDICATO QUE DESCONHECEM.
ANDRÉ LEYRENO - COIMBRA  


Tudo na mesma! , | 17/06/11 10:05
Enquanto os decisores políticos e gestores públicos não forem chamados a responder pelos seus actos ( e a pagar do seu bolso todos os desmandos) tudo vai continuar na mesma.
SAMOT , vILA NOVA DE GAIA | 17/06/11 09:30
Se fosse eu que mandasse ( ainda bem que não mandas, dirão muitos ) qualquer cidadão podia ganhar, digamos, o que quisesse, mas só receberia no máximo TRÊS MIL EUROS O remanescente seria aplicado num FUNDO SOCIAL. Seria remunerado, porque de uma aplicação se tratava, mas o reembolso só aconteceria quando a situação financeira do País o permitisse.
Realista , Porto | 17/06/11 09:06
Concordo com o artigo. Mas o problema já vem de muito tempo atrás. Parece que Salazar já financiava a guerra colonial com o dinheiro das pensões.
Eu tenho muito receio destas "descobertas" dos "economistas científicos" de que uma redução da TSU vai aumentar a competitividade e as exportações. Claro que a descida da TSU seria (será) compensada por uma subida de outros impostos. Mas...será mesmo?
Vítor , Lisboa | 17/06/11 08:56
Já tinha pensado nisto.
Mais uma verdade incontornável do nosso futuro.
Cumprimentos.

 

publicado por ooraculo às 17:57
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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

O dia seguinte

Deixem-me adivinhar. No próximo domingo, as eleições serão ganhas pelo PS ou pelo PSD, em qualquer dos casos sem maioria absoluta. Logo a seguir, o líder derrotado demite-se, o vencedor faz uma coligação com o CDS e ao lado emerge uma oposição que se adivinha terrível: o partido vencido mais o Bloco de Esquerda e o PCP. Principal vencedor: Paulo Portas, que já leva no bolso a lista de exigências que o outro não pode recusar. E depois?

Depois é a lufa-lufa: celebrações, discussões, convites e um novo Governo sem tempo para respirar. Já em Julho vamos receber a primeira visita da ‘troika', que fará o ponto da situação. E a seguir teremos o OE-2012, porventura o orçamento mais violento que alguma vez se aplicou em Portugal. Para se atingir o défice de 4,5% do PIB vai valer tudo: cortes impiedosos nos salários e nas pensões; aumentos brutais na generalidade dos impostos.

Mesmo sabendo-se que este pacote foi validado pelo PS, pelo PSD e pelo CDS, é quase certo que a sua aplicação não será pacífica. Por um lado, as pessoas ainda não interiorizaram a real dimensão das medidas que aí vêm. E, por outro, os sindicatos não deixarão de recorrer a greves selectivas, para o que contarão com o apoio expresso do Bloco e do PCP. O que se tem passado na Grécia, e mais recentemente em Espanha, não augura nada de bom.

Durante a campanha, fiquei estupefacto com a discussão à volta da TSU. O PSD começou por defender uma redução de 4 pontos, que depois eram 8, primeiro de uma só vez, a seguir por etapas - e nunca explicou como faria a compensação. O PS remeteu o assunto para mais tarde, ponto final. A verdade é que nenhum deles quis assumir o aumento de impostos. Receio o pior: vamos ter redução mas não compensação - e os pensionistas que se amanhem...

Com isto chegamos ao ponto crucial: será que este memorando de entendimento, que é clarinho como a água mas também de uma violência inaudita, vai ser cumprido por aqueles que assumirem a governação? Dou uma resposta a dois tempos: se a sua paternidade estivesse em mãos portuguesas, quase de certeza que não; como a paternidade é estrangeira, vou arriscar um talvez. Mas há um aspecto em que precisamos de ser muito claros: se o acordo falhar, o país não terá uma segunda oportunidade.

Estamos num trapézio sem rede.

 

BARCO AO FUNDO

 

Da recessão...

(Variação, 2006=100)

...ao desemprego

(Variação, 2006=100)

   

 *Previsões. **Custos Salariais Unitários Reais.

 

Em quatro anos, entre 2008 e 2012, o PIB deverá regredir 5%, a maior queda de que há memória no Portugal democrático. Na sua origem está o colapso da procura interna, em especial o investimento, a cair a pique (30%). Os salários foram-se aguentando, devido aos aumentos inapropriados de 2008-09. Já o emprego bateu no fundo: deverão ser 340 mil postos de trabalho destruídos até 2012. Vêm aí tempos difíceis...

 

Fonte: Comissão Europeia.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

 

Comentários:

 

Pensar melhor neste voto , Portugal | 05/06/11 12:41
Caro sos-jorge-vg: acho uma tolice defender o voto obrigatório. Porque não analisa o problema eleitoral com mais profundidade e se pergunta se o voto português decide tudo o que devia decidir numa democracia plena? Por exemplo: o voto decide quem das listas vai para deputado? É possível o segundo da lista ir para o parlamento e o primeiro não? E se o eleitorado que o segundo e não o primeiro? Pense nisto, e diga-me depois se não há aqui muito em que pensar.
jorge , | 04/06/11 15:08
Jcésar , | 03/06/11 20:33 - Como sabe que as alternativas são piores? Estás é a criar e a passar preconceitos infundados. És um falacioso que quer continuar tudo como está, pois deves ser daqueles a quem a crise não bateu, nem baterá, à porta!!!
XB , | 03/06/11 12:27
Se os portugueses fossem um povo digno e exigente o PS não teria mais que 20% nestas eleições. É uma vergonha que um partido e um PM como Sócrates que deixou o país de rastos ainda tenha 30% das intenções de voto! Este governo que nos conduziu á bancarrota devia ser severamente condenado. Ainda espero alguma dignidade e bom senso dos portugueses e que inflijam uma pesadissíma derrota ao PS e a Sócrates no domingo dia 5 Junho.
Realista , Porto | 03/06/11 09:08
O autor começa por adivinhar que "No próximo domingo, as eleições serão ganhas pelo PS ou pelo PSD". Caramba o que o leva a fazer uma previsão tão arriscada?
Mas, numa altura em que anda toda a gente preocupada com o resultado das nossas eleições, eu gostaria, para acalmar os espíritos, de dizer algo que está mesmo em frente dos nossos olhos e ninguem parece ver. O RESULTADO DAS NOSSAS ELEIÇÕES NÃO INTERESSA PARA NADA, PORQUE NÓS JÁ NÃO COMANDAMOS NADA. O QUE INTERESSA E AQUI É QUE EU GOSTAVA DE VER O AUTOR FAZER PREVISÕES É O QUE SE VAI PASSAR NA EUROPA. A DÍVIDA GREGA VAI SER FINALMENTE REESTRUTURADA? OS "TAIS MERCADOS" VÃO DEIXAR EM PAZ A ESPANHA, A ITALIA E A BELGICA? OS ALEMÃES VÃO-SE CANSAR? ETC, ETC

 

publicado por ooraculo às 16:40
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