Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

A lição dos belgas

O texto que se segue foi inspirado num artigo de Rui Tavares, publicado na semana passada no Público. O enquadramento era a situação económica da Bélgica, que está sem governo desde Junho de 2010. Pontos em destaque: a economia belga cresce mais e o desemprego é mais baixo do que a média da Zona euro; o défice orçamental também é mais baixo; e a dívida pública estabilizou, enquanto a da média europeia subiu. Não devia ser o contrário?

Observemos a estrutura produtiva, encarada do lado da procura. Por cada 100 unidades produzidas, a Bélgica consome 77, investe 21 e poupa 2, sensivelmente o mesmo que a média da Zona euro. E compara muito bem com a Alemanha, que apenas investe um pouco menos e poupa um pouco mais. Já a comparação com o nosso país deixa-nos o ego de rastos: apesar de algumas melhorias recentes, por cada 100 unidades produzidas continuamos a gastar 107.

Mas o que mais surpreende neste país, enquanto membro de um universo obcecado com as medidas contraccionistas, é a facilidade com que passa incólume entre os pingos da chuva. O crescimento económico da Bélgica é razoável, os trabalhadores usufruem de altos salários, o rendimento ‘per capita' é excelente, e ainda se dá ao luxo de obter um défice público tão baixo que o mero crescimento basta para estabilizar a dívida. Qual é o segredo?

Voltemos ao ponto de partida. Se um país não tem governo, também não tem orçamento, nem programa de austeridade, nem uma montanha de sábios a querer dar-lhe lições. Basta-lhe o recurso ao regime de duodécimos do último orçamento aprovado. Não fora isso e, com uma dívida soberana próxima dos 100% do PIB, a Bélgica não escaparia ao massacre. Aqui têm: o segredo está na ausência de governo e de uma qualquer ‘troika' a seringar-lhe o juízo.

Hoje todos conhecemos os pilares em que assenta a política europeia: controlo orçamental rigorosíssimo, para baixar o défice; e aumento das taxas de juro, para travar a inflação. Mas o que se pretendia era exactamente o inverso: alívio num lado e no outro, para promover o crescimento e a criação de emprego. E com isto volto a Rui Tavares e à sua teoria anarquista: "a Bélgica começou por provar que era possível sobreviver sem governo; agora quer provar que é preferível viver sem ele".

Que diz a isto a "Europa"?

 

O LADO SOCIAL

 

Da crise de crescimento...

(PIB real, variação %)

...ao reflexo no emprego

(Desemprego, % pa)

   

Quando a economia bateu no fundo, a Bélgica aguentou-se melhor do que a média da Zona euro. Depois, já sem governo, quando se ensaiou a recuperação, a Bélgica voltou a estar melhor, e continua a estar melhor do que a média do conjunto. Os reflexos desta performance são visíveis nos mercados de trabalho: a Bélgica sempre teve um desemprego mais baixo; hoje continua a tê-lo, mas com uma diferença ainda maior.

Fontes: FMI, Eurostat.

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

publicado por ooraculo às 17:50
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

Biliões ou triliões?

Imaginem o símbolo 1 seguido de 12 zeros: que nome se dá ao número que daqui emerge? A pergunta parece tonta, mas não é.

Se estivermos nos EUA, a cada acrescento de três zeros chamamos sucessivamente milhares, milhões, biliões e triliões. Mas, na generalidade dos países europeus, a mesma sequência é de milhares, milhões, milhares de milhões, biliões. Ou seja, o mesmo número é um bilião em Paris e um trilião em Nova Iorque. Faz sentido?

Recentemente correu mundo o número $14,3t - 14,3 triliões de dólares -, a expressão da dívida americana, que chegou a ameaçar o país de insolvência. Toda a gente falou disso! Estive atento às interpretações portuguesas e descobri que se dividiram em dois grupos: o dos práticos, que lhe chamaram triliões, e o dos puristas, que preferiram os biliões. Já a população em geral alheou-se do assunto: era um número "muito grande", ponto final.

Esta indiferença pelo rigor sempre me fez confusão. E, em Dezembro de 2007, em artigo no Expresso, decidi bater-me publicamente pelo modelo americano. Uma jornalista do semanário pegou a seguir no tema e foi mais longe: investigou as razões do diferendo, abordou economistas e professores e lançou um debate na Internet. Que me recorde, as opiniões eram unânimes: sim à uniformização. Depois, como é normal nestes casos, o assunto morreu.

Em apresentações das grandes empresas portuguesas, habituadas a lidar com números acima dos nove dígitos, indicadores como vendas, resultados ou capitalizações bolsistas são de há muito identificados através da escala curta, ou seja, usando o modelo tradicional. E ninguém se dá ao trabalho de explicar porquê: 100 mil milhões de euros são €100b e é tudo. O que não deixa de ser estranho. A convenção a que aderimos não é a da escala longa?

Eu sei que, à luz desta crise medonha que atravessamos, este não é um tema prioritário. Prioritários são o crescimento e o emprego, o défice e a dívida, os salários e as pensões. Mas, num mundo globalizado como é o nosso, os números não podem ser descurados. Temos de dar o mesmo nome às mesmas coisas! E, a haver mudanças, o normal é que sejam os europeus a fazê-las: a escala curta é a mais fácil, a mais prática e a mais frequentemente usada nos grandes acontecimentos internacionais.

Alguém quer pegar neste assunto?

 

NÚMEROS E CONVENÇÕES

 

Da escala longa...

(U: €Mil milhões)

 ...à escala curta (U: €Biliões)
   

 À esquerda temos a evolução do PIB nominal, que deverá atingir €171 mil milhões no final de 2011. E à direita temos a evolução da dívida pública, que no mesmo período deverá atingir €170 biliões. Os dois números são semelhantes, mas, se não nos explicarem as escalas, parece que o segundo é mil vezes superior. A decisão tomada na 9ª Conferência de Pesos e Medidas tem de ser corrigida - ou ninguém se entende.

Fontes: INE, Banco de Portugal

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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

Comentários:
 
jc , coimbra | 23/09/11 14:50
(cont.)... assim, numa sequência lógica, matemática, harmoniosa e simples, com início na unidae e tendente para infinito, onde os conceitos de unidades, dezenas, centenas, milhares e milhões são comuns nos EUA e na Europa, deixam de o ser a partir dos milhões naquele país, como se de uma aberração matemática se tratasse, sendo adulterada essa sequência, para dar lugar a "charadas com códigos e avisos prévios". Quer dizer, conceitos bem definidos e bem diferenciados como milhares de milhões, milhares de biliões etc, utilizados universalmente pela ciência, são suprimidos nos EUA essencialmente quando aplicados às questões económicas??!, suprimindo as vantagens de uma linguagem intuitiva e universal.
Haverá ainda alguém que, numa perspectiva puramente cientifica e das vantagens recíprocas - que é o que mais interessa - tenha dúvidas de quem deve mudar com vista `a uniformização?!

 
JSilva , Holanda | 23/09/11 14:05
Em Engenharia à seria os termos ambiguos são facilmente evitados.
Kilo (ou quilo), Mega, Giga, Tera,Peta (10E15), até Yota (10E24).
A designação kilobyte não sofre de nenhuma ambiguidade pois só se aplica a memorias de computadores binários onde efectivamente vale 1024. Quanto aos Gigas de discos duros por exemplo, deve confirmar pois é uma manobra de marketing curiosa, sem ser enganadora, dizer que 1Gbyte são 1000'000'000 bytes (basicamente "roubam-lhe" 73'741'824bytes).

 
kota , Pentilhão | 23/09/11 13:57
Em matemática não há "falsas questões". Estas falsas questões eternizam-se quando se lhes quer fugir.
Só devido ao peso anglo-saxónico no estabelecimento da sua visão (algo "criacionista") é que o Comité Internacional de Pesos e Medidas condescendeu em manter a Escala Curta, algo que nunca devia acontecer. A escala tem de ser única, múltipla de três e sem "terminologias criativas".
O hábito da denominação em Escala Curta (anglo-saxónica) é muito usada dado o peso mediático dos seus mentores, porém, como é contra-natura, isto é, não tem uma correspondência lógica com a notação científica, acabará por carecer de recurso matemático e, assim, ser ela própria a perguntar à Escala Longa quantos são... "um pentilhão"!
Aliás ouvi, com muita graça Eduardo Catroga, a usar o "pintelho", quiçá um seu submúltiplo de expoente negativo, para anular a importância de querelas orçamentais.
 
Nuno , | 23/09/11 13:31
Não admira esta opinião por parte do articulista. Esta malta agora acha que a economia é a ciência de Deus. Pois, mas é que não só não é uma ciência (e está cada vez mais longe de o ser...), como é uma simples subordinada da Matemática, de que faz uso do mais elementar que existe. Tal como já foi dito, o sistema de potências múltiplas de 3 é consagrado no Sistema Internacional de Unidades. Por isso, esta coisa do milhão-bilião (ou bilhão, conforme os gostos)-trilião é tão anacrónica como o Sistema Imperial, que nem sequer é decimal.

 
jc , coimbra | 23/09/11 13:26
É o que se chama a tempestade no copo de água( consequência da obsessão por um protagonismo exacerbado, mas destituido de lógica ou qualquer utilidade funcional).
Muito antes dos EUA existirem como nação, já se conhecia na generalidade dos países mais evoluidos da Europa, Arábia, Ásia etc, forma comum, matematicamente definida para designar números muito extensos,
Ora, como as divergências com o sistema americano só começam a partir dos milhões, concentremo-nos aí: o que é um milhão? É um número que, pela sua dimensão já não cabe dentro da órbita dos milhares, a não ser que se quisesse designar por "mil mil's", mil milhares, etc o que seria uma designação fastidiosa, havendo outra mais simplificada. Matematicamente - e isto é o mais importante - significa o produto de (mil), por si mesmo. De forma análoga, o produto de um milhão por um milhão deverá designar-se um bilião(um milhão de milhões), da mesma maneira, que um bilião por um bilião.
Standard , | 23/09/11 10:38
O que é necessário é que se cumpra de vez as convenções internacionais. O Sistema Internacional de Unidades (SI) prevê isso tudo e os anglo-saxónicos têm é que se alinhar com os standards internacionais que actualmente não usam. Até com satélites estoiraram porque a equipa multinacional usou em simultâneo metros e pés! No Reino Unido os pints e pounds já são apenas usados para medidas tradicionais (cerveja a copo por ex.) no resto é litros e kilograma. Quantos aos G ou Gigas também não servem pois sofrem de um problema ainda maior: 1k são 1000 (10^3) ou 1024 (2^10)?

 
Biliões de euros triliões de dólares , | 23/09/11 10:22
Penso que esta é uma falsa questão, atendendo também à diversidade de moedas/divisas. Assim podemos sempre referirmo-nos a biliões de euros e triliões de dólares... para além do efeito psicológico do Euro assim se assemelhar ainda mais forte que o Dólar!
 

kota , Escalas de Prefixos | 23/09/11 06:36
É uma questão estabelecida na Metrologia, que prevê PREFIXOS associados às grandezas do Sistema Internacional de Unidades (SI).
No caso vertente da contagem de dinheiro ou de outras grandezas adimensionais contáveis, como o dinheiro, o peso da "cultura" anglo-saxónica faz sentir o seu pragmatismo, nem sempre muito lógico ao "impôr" a Escala Curta.
A Escala Longa assenta numa lógica de potências múltiplas de três, que é a notação científica usada na Física e na Engenharia.
Ao usar este sequenciamento lógico, a Escala Longa torna a linguagem mais robusta contra interpretações dúbias. Além disso é a terminologia usada mais frequentemente pela cultura europeia.
Em gráficos, nada melhor que usar as potências múltiplas de três.
publicado por ooraculo às 17:55
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

A crise dos ricos

A última capa de The Economist, com fundo negro, juntava a Europa à América e falava de gerações perdidas. Já no interior, os dois blocos eram depois analisados em separado. No que toca à Europa, vemo-nos a caminhar estrada fora, em fila indiana, até que surge uma bifurcação e a pergunta implícita: viramos à esquerda ou à direita? Vamos em frente - sem ideias nem horizonte, perdidos no nada, em terras de ninguém. É isto o que nos espera?

Situemo-nos em 2009, quando o mundo entrou em recessão. Se tomarmos como referência as principais economias avançadas e as projectarmos até 2012, o panorama é desolador. Os EUA não atam nem desatam, a Europa do euro cai a pique e o Japão chega a entrar no vermelho - aqui por outras razões: o terramoto, o tsunami, a tragédia nuclear. Uma nova recessão em perspectiva? Talvez não. Mas só porque as economias emergentes continuam pujantes.

Que aquelas projecções não asseguram um mínimo de estabilidade social provam-no as altíssimas taxas de desemprego que se vão registando por aí. Os EUA aproximam-se dos 10%, duplicando os valores anteriores à crise. E a média da Zona euro é semelhante, se bem que associada a um pico explosivo em Espanha (21%) e a valores bem acima da média nos três países intervencionados: a Grécia, a Irlanda e Portugal. Só o Japão continua abaixo dos 5%.

Mas a função dos políticos é corrigir estas tendências e para isso se lhes exige que tomem as medidas certas. E que vemos nós? O Japão já está a reconstruir o que a Natureza lhe levou. E a América sempre disse que privilegiava o crescimento económico, tendo como instrumentos as políticas financeiras e orçamentais. Só a Europa parou no tempo: Angela Merkel e Nicolas Sarkozy continuam a discutir o sexo dos anjos enquanto o barco se afunda.

É aqui que entra Portugal, também ele um país "rico". Fruto de uma política suicida que se prolongou por uma década, e não tendo mais ninguém para nos emprestar dinheiro, saiu-nos em rifa uma ‘troika' que não cede um milímetro à sua própria obsessão: cortar, cortar, cortar - até à asfixia.

Exactamente o oposto do que deveria ser feito! Preparem-se então para o pior: recessão profunda, desemprego explosivo e, no final de 2012, uma produção inferior àquela que já atingíramos 10 anos antes.

Como é que se sai disto?

 

OS FANTASMAS

 

Treme o crescimento...

(PIB real, 2006=100)

 ...sobe o desemprego

 (Desemprego, % pa)

   

 A recessão económica, que teve o seu ponto mais alto em 2009, foi mais intensa na Europa do que nos EUA. E, depois disso, os americanos também reagiram melhor do que os europeus. Já a situação portuguesa é de colapso total: o PIB projectado para 2012 vai ser inferior ao de 2002. Os reflexos desta crise no mercado de trabalho vão ser terríveis, e em Portugal ainda mais do que em todos os outros. Pior era impossível...

Fontes: FMI, The Economist.

 

Daniel Amaral, Economista.

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 16:32
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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

A dívida externa

Há dois conceitos de dívida, em parte sobrepostos, que estrangulam o crescimento e impedem o bem-estar social: a dívida pública, que pode ser interna ou externa; e a dívida externa, que pode ser pública ou privada. São ambas brutais e, de acordo com o Banco de Portugal, deverão andar próximas de 106% e 117% do PIB, respectivamente. Mas, se da primeira falamos todos os dias, a segunda é quase ignorada. Centremo-nos então nesta última.

Um bom indicador para medir o défice externo é a balança corrente, e o saldo desta, sempre negativo, não deixa dúvidas: era de 10% do PIB em 2000 e, com ligeiras flutuações pontuais, assim se manteve até hoje. Daí que não surpreendam aqueles 117% de dívida acumulada que se prevêem para o final de 2011. Como a parte de leão está no comércio externo, exportações e importações, fica lançado o desafio: qual a melhor forma de as optimizar?

Alguns agentes políticos mais directamente ligados a este fenómeno têm vindo a realçar o desempenho das exportações - acréscimo de 9% em 2010, contra um decréscimo de 12% no ano anterior -, sugerindo a ideia de que já estamos no caminho certo. Não é verdade: o que se passou neste ano foi uma recuperação económica generalizada, seguida de um aumento significativo do comércio mundial, de que todos beneficiámos. A situação não é repetível.

Se olharmos para os principais países da Zona euro, para onde exportamos mais de dois terços das nossas mercadorias, o que sobressai são problemas de endividamento externo. Exceptua-se a Alemanha, com uma balança assaz positiva mas que se recusa a partilhar. Sendo assim, quaisquer medidas no sentido de aumentar as exportações esbarram em medidas de sinal contrário de todos quantos procuram fazer o mesmo: as forças anulam-se entre si.

Por muito que isto nos custe, do que precisamos mesmo é de aumentar a quota de mercado, coisa que até hoje nunca soubemos fazer. Os números não deixam dúvidas: no período 2000-09, as exportações mundiais aumentaram 75% e as portuguesas apenas 53% - um sinal claro de que a nossa quota diminuiu. E como é que invertemos esta situação? Sendo melhores do que os outros. Deixo aqui alguns alvos: redução dos custos de fabrico, escolha dos investimentos certos, melhoria de toda a organização.

Acham que somos capazes?

 

QUADRO EVOLUTIVO

 

Dos défices anuais...

(% PIB)

 ...à dívida acumulada

 (% PIB)

   

 Há muito que a balança corrente vem registando défices da ordem dos 10% do PIB. A balança de capital, de sinal positivo, corrige depois este valor, aliviando a pressão da componente a financiar. Ainda assim, a dívida externa acumulada, sempre crescente, já vai nos 117% do PIB, uma situação explosiva. É difícil imaginar como vamos gerir esta dívida, mas uma coisa parece segura: aqueles défices terão de ser eliminados.

Fonte: Banco de Portugal 
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

 Nuno , | 10/09/11 21:59
Mais um excelente artigo. Muito útil para alguém que, como eu, completamente leigo em economia. Oxalá o "economês" dos papagaios que aparecem diariamente na TV fosse assim tão esclarecedor.
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publicado por ooraculo às 15:56
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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

O compromisso

Confesso que ainda não percebi muito bem o que é que nos mercados financeiros se entende por “reestruturar” uma dívida. Mas o bom senso sugere que seja pelo menos uma de três coisas: diminuição do montante, alongamento do prazo ou redução da taxa de juro.

Daí a minha surpresa pelo compromisso que o Governo assumiu numa cimeira recente: "Exclusão total de qualquer cenário de reestruturação da dívida". Será que avaliou as consequências?

Para efeitos de raciocínio, vou tomar como referência o último reporte do INE e o ano de 2012, em que a um PIB igual a 100 corresponde uma dívida de 104, sendo o PIB de €170 mil milhões. Admitamos um saldo primário nulo. Se, no ano seguinte, a taxa de juro for de 5% e o PIB nominal crescer apenas 2,6% (previsão do Banco de Portugal), uma de duas: ou a dívida sobe para 106,4 ou ajustamos as contas de modo a obter um saldo primário de 2,4%.

Sucede que um cenário de aumento de dívida é inviável. Ninguém o vai tolerar. Admitamos um corte ligeiro, do índice 104 para o índice 100, com os mesmos 2,6% de crescimento nominal. O excedente primário terá agora de ser de 6,4%! O problema é que, para isso, terá de haver cortes brutais na despesa, o que arrasta na onda o já frágil produto. E o círculo vicioso nunca mais pára: apostamos na redução da dívida ou no crescimento económico?

Agora a cereja no topo do bolo. Quando chegarmos ao final de 2012, com o país envolto em recessão e caos social, ninguém vai satisfazer-se com aqueles níveis de endividamento, sejam eles de 100 ou 104 na sua relação face ao PIB. Vão exigir muito mais. Vão exigir que, a um prazo de ‘n' anos que eles hão-de fixar, aquele número caia para os 60% que limitaram a entrada no euro. Se forem 10 anos, serão 4% do PIB em cada ano - uma loucura.

Com isto volto ao ponto de partida: assumir o compromisso de que jamais faremos uma reestruturação da dívida é uma tontice. A reestruturação é inevitável e o lapso só pode ter uma de duas explicações: ou o Governo não percebeu ou decidiu empurrar com a barriga e depois logo se vê. Receio o pior: quando o momento da reestruturação chegar, alguém vai lembrar-nos de que o compromisso existe e deve ser respeitado; se não o fizermos, a alternativa é o caminho da porta - e a saída do euro.

Que pensa disto Vítor Gaspar?

 

CONTAS PÚBLICAS

 

Dos défices anuais...

(Défice, % PIB)

 ...às dívidas acumuladas

 (Dívida, % PIB)

   

 Ainda que os problemas de natureza orçamental sejam extensivos à generalidade dos países da Zona Euro, Portugal especializou-se em ter défices acima da média do conjunto. Vai continuar a ser assim, pelo menos até ao final de 2012. O reflexo óbvio está na dívida pública acumulada, que é hoje da ordem dos 100% do PIB em Portugal e de apenas 82% do PIB no conjunto dos 17. A dívida portuguesa terá de ser reestruturada.

Fontes: INE, Banco de Portugal, Eurostat.

 

Daniel Amaral, Economista

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:49
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