Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Filme de terror

Peguemos no PIB de 2008, quando a crise começou, e projectemo-lo para 2012, à luz das projecções mais recentes do Banco de Portugal. Aquele valor vai cair cerca de 6%. Razões para o descalabro: o colapso da procura interna, consumo e investimento, com este último a cair a pique. É o resultado das violentas políticas de austeridade que nos impuseram, que ainda se mantêm e que ameaçam destruir-nos. Não há memória de uma recessão assim.

 

Façamos o mesmo com a área laboral. Em 2008, com uma população activa de 5.625 milhares de pessoas, o desemprego atingia 427 mil, 7,6% do total. Mas, de acordo com as referidas projecções, entre 2008 e 2012 serão destruídos mais 365 mil postos de trabalho, que se juntam aos 427 mil anteriores. E, dependendo da evolução da população activa, a taxa de desemprego será sempre superior a 13%. Não há memória de um cenário tão injusto. Com a dívida pública passa-se algo de semelhante. Fruto de políticas suicidas que já levam mais de uma década, a dívida pública em 2008 era de €123 mil milhões, quase 72% do PIB, quando o nosso limite não poderia exceder os 60%. Mas, quatro anos volvidos, preparamo-nos agora para atingir os 111% do PIB, algo como €188 mil milhões, uma dívida ingerível e para a qual ninguém vislumbra solução. Não há memória de uma asfixia tão brutal.

 

Com isto chegamos às respostas do actual Governo. Primeiro, foi a Taxa Social Única: falhou. Depois, foi a meia hora de trabalho a mais: também falhou. E, não desejando correr mais riscos, optou então por um daqueles modelos que todos sabíamos infalíveis: cortou nos salários, aumentou os impostos e absorveu e gastou mais uns fundos de pensões. Como é que no futuro vai pagar aos pensionistas é um tema que não lhe interessa discutir.

 

Resta-nos falar do último acordo de concertação social, que na óptica dos trabalhadores se pode resumir assim: vão trabalhar mais, receber menos, ter menos direitos e ser mais facilmente despedidos. E como isto acontece num fase de grande subutilização da capacidade produtiva, é óbvio que o desemprego só pode disparar em flecha. Mensagem implícita: afinal, nós não temos produção a menos; o que nós temos são trabalhadores a mais. Que País é este?

 

Gráfico

Entre 2008 e 2012 o PIB vai cair 6%: é a maior recessão de que há memória em Portugal. Na sua origem está o colapso da procura interna, em especial o investimento, que cai a pique. E o desemprego, que já era arrepiante, vai agravar-se ainda mais. A juntar a tudo isto, vamos a caminho de uma dívida pública de 111% do PIB, quaseo dobro do limite máximo, e depois encarar a fúria dos mercados a partir de 2013. Apertem os cintos...

 

Daniel Amaral Economista d.amaral@netcabo.pt

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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

O desperdício

Em economia, chama-se PIB potencial ao valor que uma economia consegue produzir num determinado período de tempo se todos os recursos disponíveis forem utilizados de forma plena e eficiente. A este conceito está associado um outro, o de hiato do produto, que é igual à diferença entre o PIB efectivo e o PIB potencial, medido em percentagem deste último. E o nosso PIB potencial andará próximo da estagnação.

O que é que isto significa?

Admitamos uma situação em que o produto efectivo excedesse o potencial. Neste caso, o aparelho produtivo estaria em sobreaquecimento e os trabalhadores teriam de recorrer a horas extra para satisfazer a procura. A consequência imediata seria uma enorme pressão sobre os preços, a exigir políticas contraccionistas. Isto é o que diz a teoria económica. O que nós temos é uma pressão sobre os preços em paralelo com a maior das recessões.

Admitamos agora que o produto efectivo era inferior ao potencial. Neste caso, o aparelho produtivo estaria subutilizado e, a essa luz, precisaríamos de políticas expansionistas para combater a recessão e o desemprego. Sucede que, uma vez mais, o que está a suceder é o inverso: a nossa economia está de pantanas e, como resposta, praticamos a austeridade mais violenta de que há memória em Portugal.

A teoria económica já não é o que era.

Esta imagem caótica que hoje em dia reflecte a economia portuguesa levou-me a alargar a análise ao conjunto da zona euro e também aos EUA, o que o leitor poderá acompanhar através dos gráficos abaixo. Até meados de 2008, quando a crise se iniciou, o PIB efectivo e o PIB potencial eram de valor mais ou menos equivalente, o que parecia correcto. Mas a seguir foi o caos: hoje, a Europa e a América estão abaixo do potencial, Portugal está à beira da ruptura e a Grécia não tem solução.

É um mau prenúncio. Com um PIB potencial que há vários anos não cresce, o nosso PIB efectivo deverá situar-se este ano 5% abaixo daquele potencial, o que reflecte uma enorme subutilização da capacidade produtiva. Em condições normais, o que faria sentido era estimular a procura, interna e externamente, através de políticas que nos levassem a utilizar toda a capacidade disponível. Mas aquilo que nos impuseram foi ainda mais austeridade, o que vai levar a economia a bater no fundo.

A quem serve o desperdício?

 

O HIATO DO PRODUTO*

Dos grandes blocos...

 (PIB potencial=100)

...aos países assistidos

 (PIB potencial=100)

 Até meados de 2008, o PIB efectivo e o PIB potencial pareciam caminhar de mãos dadas, tanto na Europa como nos Estados Unidos, o que parecia correcto. Mas o que veio a seguir estragou tudo, em especial na Europa. A Zona Euro está a actuar 2% abaixo do potencial; a Grécia está ligada à máquina e à espera de que desliguem; e Portugal é apenas a vítima seguinte. Se era este o objectivo da dupla Merkel-Sarcozy - ganharam!

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Daniel Amaral Economista
d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:59
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

A dívida nacional

Nos últimos tempos quase só se falou de dívida pública, ou soberana, reflectindo aquela dívida que o Estado assumiu interna e externamente e que ninguém sabe como vamos pagar. Mas há uma outra, porventura ainda mais importante, que continua ignorada. Refiro-me à dívida externa, de âmbito nacional, em que estão envolvidos o Estado, as empresas e as famílias. Apesar de alguma sobreposição, é sobre esta dívida que me proponho reflectir.

Os números são de 2010, mas não creio que tenham tido grandes alterações. A Zona Euro no seu conjunto está relativamente equilibrada, mas os respectivos países dividem-se em dois grupos antagónicos: os que geram excedentes - casos da Alemanha, da Bélgica, da Holanda e do Luxemburgo; e os que geram défices - casos da Espanha, da Itália, da França e de Portugal. Admitindo que haveria vontade política, como corrigir este desequilíbrio?

Uma hipótese seria aumentar a procura interna dos países excedentários. Como as importações de um país são exportações dos outros, esta medida levaria a um aumento da procura externa nos países deficitários e, por reflexo, a uma melhoria da produção global. Por exemplo: metade dos excedentes da Alemanha dava para pagar a quase totalidade das dívidas de Portugal, da Irlanda e da Grécia. Só que a vontade política não existe, ponto final.

A outra hipótese é aumentar a competitividade dos países deficitários. O que significa pelo menos uma de duas coisas: ou mais investimento e melhor organização do lado das empresas ou salários mais baixos do lado dos trabalhadores. Mas nada disto é fácil. Tomemos como exemplo o caso português. As empresas estão hoje descapitalizadas e não há ninguém que as financie; e os salários nominais, independentemente da injustiça, não podem sequer ser objecto de redução. Como sair disto?

A minha opinião é que o Governo deveria pegar neste cenário caótico e tentar convencer os países excedentários a mudarem de política, numa perspectiva da melhoria do conjunto. Mas confesso que nem eu próprio acredito nisso. Ou seja, o nosso problema vai ter de ser resolvido internamente. Como? Um dia destes, a ‘troika' chama o Governo e diz-lhe que a solução está em sair do euro, regressar ao escudo e proceder a uma brutal desvalorização. Os salários caem no mínimo para metade.

É o fim da linha.

 

DEPENDÊNCIA EXTERNA

Dos valores anuais...

(Balança corrente, % PIB)

...aos valores acumulados

(Saldo exterior*, % PIB)

*Medido através da PII - Posição de Investimento Internacional.

A balança corrente do conjunto da Zona Euro está praticamente equilibrada, mas os desequilíbrios entre países
são colossais. Por exemplo: o nosso défice é idêntico ao da Grécia, ambos da ordem dos 10% do PIB, o que configura uma situação explosiva. Já a nossa dívida acumulada excede o valor do PIB e é, em termos relativos, o mais alto de toda a Zona Euro. A imagem que prevalece é a de que o país não tem solução...

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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt


publicado por ooraculo às 17:18
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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

Beco sem saída

Agora que entrámos num novo ano, com o país assustado, vale a pena recuar um pouco. O défice orçamental de 2011 aproximou-se dos 4% do PIB. E Passos Coelho sorriu de orelha a orelha: foram 1,9 pontos abaixo dos 5,9% do PIB que a ‘troika' nos impusera como limite. É obra! Sucede que estes números escondem uma mentira: sem os 6.000 milhões de euros dos fundos de pensões da banca, o défice subiria para os 7,5% do PIB. Haverá razões para sorrir?

Vale a pena fazer as contas. Para um PIB estimado de 170.000 milhões de euros, aquele défice de 4% equivale a cerca de 6.800 milhões, o que parece um número excelente. Mas não se pense que existe aqui qualquer mérito. O que de facto devemos atribuir ao Governo é um défice de 12.800 milhões de euros, que correspondem a 7,5% do PIB, já depois dos cortes nos salários e do aumento dos impostos. É um dos piores desempenhos de que há memória em Portugal.

O recurso a fundos de pensões para cobrir os défices sempre foi uma tentação. Começou em MF Leite, passou por Bagão Félix e Teixeira dos Santos e acabou em Vítor Gaspar: 3 a 1 para o PSD. Mas não consta que alguém se tenha preocupado com o outro lado da equação, que é pagar as pensões àqueles que para isso contribuíram. Parafraseando um jovem deputado do PS, este Governo, como os anteriores, está-se "marimbando" para os pensionistas.

Como já tive oportunidade de referir, o PIB nominal de 2012 vai ser inferior ao de 2011, dado que a queda em volume excede o deflator do produto. E, sendo assim, se excluirmos a almofada dos impostos e dos subsídios que o Governo já acautelou, as receitas de 2012 serão inferiores e as despesas no mínimo iguais às de 2011, o que coloca o défice acima dos 7,5% do PIB. Como aquela almofada não chega, nem de longe, para o fazer regredir até aos 4,5%, percebe-se que a festa está estragada.

O cenário é complexo, porque sugere a ideia de que o Governo não nos tem dito a verdade. É um facto que se comprometeu com a ‘troika' a um défice não superior a 4,5% do PIB em 2012, sem recurso a medidas extraordinárias. E é óbvio que, sem medias extraordinárias, este objectivo não será exequível. Então, para o Governo, uma de três: ou falha o compromisso; ou recorre ao que não deve; ou ataca uma vez mais os contribuintes, à revelia do que sempre prometeu. Entrou num beco sem saída.

Como é que vai descalçar a bota?

 

CONTAS PÚBLICAS

 

Dos défices anuais...

(Défices, % PIB)

...às dívidas acumuladas (Dívidas, % PIB)
   

A crise teve início em 2008, mas foi apenas a partir do ano seguinte que as contas públicas sentiram o seu efeito devastador. Os défices orçamentais chegaram então aos 10% do PIB, um número arrepiante. E em 2011 surgiu o inevitável: o recurso à ajuda externa, a coberto de um dos mais violentos programas de austeridade de que há memória em Portugal. A dívida tornou-se ingerível. Ficou a dúvida: que virá a seguir?

 
Fontes: OE-2011, Banco de Portugal

 

Daniel Amaral, Economista

d.amaral@netcabo.p 

publicado por ooraculo às 16:50
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