Sexta-feira, 23 de Março de 2012

Grécia, resgate 2

Partamos de 2008, quando a crise começou. A Grécia entrou em recessão, o trivial para a época, mas a taxa de desemprego ainda era gerível.

Já a dívida pública parecia descontrolada, ao atingir 113% do PIB, a maior da UE. Com a economia em queda livre, todos se lembram do que se passou a seguir: a Grécia foi objecto de uma operação de resgate e viria a arrastar na onda a Irlanda e Portugal. Mais de três anos depois, que é feito da Grécia?

 

Tenho à minha frente os indicadores de 2011 e a imagem é desoladora. O PIB, em recessão permanente, chegou aos -7%, batendo no fundo do poço. A dívida pública disparou para os 163% do PIB, um número sem paralelo na Europa. E a taxa de desemprego, da ordem dos 20% da população activa, já se aproxima da lendária Espanha. Se o objectivo era salvar a Grécia, temos de concluir que o objectivo falhou: ninguém salva ninguém através da asfixia.

 

O colapso grego levou ao resgate 2. Síntese do plano: com uma dívida global de €355 mil milhões, €206 dos quais ao sector privado, obteve-se um perdão "voluntário" de €103mM e, a partir daqui, assumiu-se que a dívida baixaria para 120% do PIB até 2020. As contrapartidas do Governo seriam, para além do mais, o congelamento dos salários, a extinção dos subsídios de férias e de Natal e a eliminação de 150 mil empregos do Estado até 2015.

 

Não sei como é que se chegou àqueles 120% do PIB, nem isso é importante. Queria apenas recordar que, de acordo com o pacto fiscal recentemente aprovado, os estados-membros da UE comprometeram-se a isolar a parte da dívida que excedesse 60% do PIB e eliminá-la nos próximos 20 anos, através de 20 prestações anuais e iguais. Como é que tudo isto se articula com o plano anterior? Como é que uma Grécia falida vai cumprir? E se não o fizer?

 

Volto à minha tese: por detrás disto tudo está uma enorme hipocrisia. Claro que a Grécia não vai cumprir nada, porque nada daquilo é exequível. E a Europa sabe disso. Do que ela está à espera é apenas do momento ‘x' - aquele momento em que a Grécia reconhecerá isso mesmo e, em face disso, pedirá ela própria para sair do euro. A que se seguirá, por parte da Europa, o habitual elogio fúnebre: "Que pena! Eram tão simpáticos, os gregos!"

 

Quem vem a seguir?

publicado por ooraculo às 17:08
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Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Regresso ao futuro

Partamos de 2012, admitindo um PIB de
€173 mil milhões (mM) e uma dívida pública de €190 mM, igual a 110% do PIB, e
projectemos estes números a 20 anos.

Se os orçamentos estiverem sempre
equilibrados, sem défices nem excedentes, e o PIB crescer à taxa de 2% ao ano
em volume e outro tanto em preço, em 2032 o PIB sobe para €382 mM e a dívida
mantém-se nos €190 mM, agora reduzida a 50% do PIB. Falamos de algo exequível
ou de mera utopia?

 

Comecemos com a actual estrutura. Para
um PIB igual a 100, consumimos 85 e investimos 18; os 3 a mais correspondem a
défice externo e traduzem a diferença entre importações (37) e exportações
(34). Este desequilíbrio já foi maior, situando-se ao longo de vários anos à
volta de 7-10% do PIB. Ainda assim o esforço deve ser prosseguido,
transformando estes défices em excedentes, até eliminar o endividamento
acumulado. Não vai ser fácil.

 

Projectemos agora para 2032 uma
estrutura idêntica à que tem hoje a Alemanha. Nesta caso, para um PIB igual a
100, o consumo é igual a 77 e o investimento igual a 18; os 5 em falta
correspondem ao excedente externo e traduzem a diferença entre exportações (46)
e importações (41). A alteração é profunda: vai de um cenário de endividamento
a um outro de acumulação de reservas. E o que é necessário fazer para se
atingir um resultado destes?

 

Comecemos com a procura externa. O peso
das exportações no PIB é hoje de 34% e terá de passar para 46%, o que pressupõe
uma taxa de crescimento anual média de 5,6%, 1,6 pontos acima do crescimento do
produto. Sucede que o acréscimo de exportações arrasta consigo um acréscimo de
importações, embora a uma taxa que se admite mais baixa. O seu peso no PIB terá
de passar de 37% para 41%, o que pressupõe um crescimento médio anual de 4,6%.

 

Passemos à procura interna. O peso do
investimento no PIB é de 18%, antes e depois, sugerindo uma taxa de crescimento
igual à do PIB, 4% ao ano. Já o consumo cai de 85% para 77% do PIB, fazendo
descer aquela taxa para 3,5%. Estes 3,5% deverão estar alinhados com os
acréscimos conjuntos do emprego e dos salários, o que é de uma enorme violência
para os trabalhadores. Mas não sabíamos já que era assim, com este modelo ou outro
qualquer?

 

Este futuro vai doer.

 

Gráfico:

 

ESTRUTURA DO PIB

Da procura interna...

...à procura externa


  
  
  
 
  
  
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
  
  
  
 


  
  
  
 

Portugal precisa de crescer. E de
alterar a estrutura do produto. Pontos fortes a introduzir no modelo: melhorar
a qualidade do investimento e substituir consumo por exportações. O ponto de
partida (2012) reflecte a actual situação portuguesa; o ponto de chegada (2032)
corresponde ao que é hoje a estrutura alemã. O objectivo envolve enormes
sacrifícios e não parece exequível a um prazo mais curto. Estaremos
disponíveis?


____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.p

 

publicado por ooraculo às 17:49
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Sexta-feira, 9 de Março de 2012

A crise ao espelho

Com a procura interna a cair a pique, é hoje consensual entre os analistas que a saída para a crise passa pela procura externa, através do aumento das exportações líquidas. Mas, para exportar mais, precisamos também de produzir mais, o que significa melhorar a produtividade. E, assegurada a produção, teremos também de vendê-la, melhorando a competitividade, em qualidade e o preço, nos mercados internacionais. Como é que se faz tudo isto?

 

Situemos o problema. Para uma produtividade/hora nos EUA igual a 100, a zona euro produz 84 e Portugal apenas 48. Mas se medirmos a produtividade/pessoa, com os EUA de novo igual a 100, a zona euro baixa para 76 enquanto Portugal sobe para 53. Leitura óbvia: os europeus trabalham menos do que os americanos, mas os portugueses trabalham mais do que quaisquer dos outros. Por que é que em Portugal se trabalha tanto e se produz tão pouco?

 

Estamos a falar de produtividade e não se vislumbra uma resposta fácil. Uma hipótese possível é sermos menos competentes: um confronto entre os diferentes níveis de escolaridade aponta nesse sentido. Outra hipótese é estarmos menos bem organizados: a ausência de investimento e a fraca qualidade de certas empresas podem ser uma justificação. De uma coisa podemos estar certos: não é por falta de horas trabalhadas que Portugal não produz.

 

Daqui passamos para a competitividade. Se o nosso objectivo é exportar mais, só temos uma saída: é ser competitivos em qualidade e em preço. E, assumindo que a nossa qualidade é pelo menos igual à dos outros, os preços só podem ser reduzidos de duas maneiras: com uma melhor organização das empresas e com salários mais baixos dos trabalhadores. Lamento dizê-lo, mas prevejo um ataque impiedoso aos custos salariais unitários de produção.

 

É aqui que tudo se complica. Como se sabe, os salários nominais não podem ser reduzidos. No limite, podem ser congelados, o que significa uma queda real igual à inflação. Mas isto não chega. E mais do que isto só é possível abandonando o euro, recuperando uma moeda própria e procedendo depois à sua desvalorização. Eis o drama: se a saída do euro é uma tragédia e precisamos de melhorar a competitividade, como é que melhoramos a competitividade sem sair do euro?

 

Gráfico:

PRODUTIVIDADE

Uma tragédia...

(P/hora, EUA=100)

...sem fim à vista

(P/pessoa, EUA=100)

 

A produtividade/hora da zona euro não chega a 84% da dos EUA e, em termos relativos, tem vindo a descer. E a equivalente portuguesa não chega a 50% e tende a estabilizar. Já a produtividade/pessoa agrava o cenário da zona euro, mas melhora o português. Conclusão: os europeus trabalham menos do que os americanos e os portugueses mais do que quaisquer deles. Sendo assim, por que é que produzimos tão pouco?

Fonte: Eurostat.

Daniel Amaral Economista
d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:49
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Sexta-feira, 2 de Março de 2012

Ainda o desemprego

Voltemos ao tema do momento, que é também o mais grave que hoje em dia se coloca  à sociedade portuguesa: o desemprego. No último trimestre de 2011, a população residente era de 10,6 milhões de pessoas, das quais 5,5 constituíam a população activa e 5,1 a população inactiva. E, dentro da população activa, 771 mil estavam desempregadas, o equivalente a 14% do total. É a taxa mais alta de que há memória no país. E tem tendência a subir.

 

Sucede que estes números estão subavaliados. Desde logo, a população empregada, de 4,7 milhões de pessoas, incluía 633 mil com emprego a "tempo parcial". E a dúvida é legítima: parcial como? Metade do tempo? 30%? 70%? Se, por hipótese, admitirmos um emprego a meio tempo, isso significa que, na prática, 316,5 milhares estavam de facto desempregadas. Logo, a taxa de desemprego era da ordem dos 20% e incluía mais de um milhão de pessoas.

 

Mas há mais. Ao desdobrarmos os 5,1 milhões da população inactiva, vamos encontrar 203 mil "disponíveis" para trabalhar, mas que não conseguem arranjar emprego. E mais 83 mil "desencorajados", que nem sequer o procuram porque lhes falta motivação. Também aqui a dúvida é legítima: estes 286 mil indivíduos são "inactivos" ou "desempregados"? Se optarmos pela segunda hipótese, a taxa de desemprego sobe para 24% e envolve 1,4 milhões.

 

Observemos agora os diferentes grupos. Mesmo assumindo como boa a taxa de desemprego de 14% no quarto trimestre de 2011, há situações mais chocantes do que outras. Por exemplo: 53% dos desempregados estão nessa situação há mais de um ano; nos jovens de 15-24 anos, a taxa é de 35,4%; e 10,6% dos desempregados têm um curso superior. Sejamos frontais: as classes políticas que nos últimos anos nos governaram deveriam corar de vergonha.

 

O problema é que, entretanto, os centros de decisão saíram de Portugal e transferiram-se para os controladores do euro, em especial a Alemanha. São eles que ditam as leis. E a ‘troika' que nos impingiram adora a asfixia - com o apoio entusiástico do primeiro-ministro português. Se exceptuarmos o crónico problema espanhol, as situações mais graves de desemprego estão hoje nos países que eles "ajudaram" - a Grécia, a Irlanda e Portugal.

 

Até quando?

 

Gráfico:

 

SEMPRE A SUBIR

Jovens ou idosos...

(Desemprego)

...homens ou mulheres

(Desemprego)

 A taxa de desemprego média anual atingiu 12,7% em 2011, mais do triplo da que se registou dez anos antes. Já o desemprego jovem, numa escalada semelhante, chegou a 2011 com uma taxa superior a 30%. Numa análise por sexos, a taxa de desemprego nos homens foi multiplicada por quatro, bastante acima do múltiplo das mulheres, que, não obstante, têm uma taxa de desemprego mais alta. Parece um filme de terror.

Fontes: INE, Banco de Portugal

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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt




publicado por ooraculo às 15:31
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