Sexta-feira, 29 de Junho de 2012

Verdade inconveniente

O economista António Borges, conselheiro do Governo,
entendeu dever emitir a seguinte opinião: a diminuição dos salários não é uma
política, é uma emergência. Borges, que veio de um desempenho polémico na Goldman
Sachs e no FMI, aparece hoje associado aos dois sectores, o público e o privado,
numa mistura explosiva que aconselharia recato. Por isso subscrevo a tese que
circula por aí: ele fala de mais. Feito o reparo, vamos aos factos.

 

Se atribuirmos ao PIB dos países da zona euro o valor de
100, o peso das remunerações naquele PIB, salariais e outras, incluindo as
contribuições patronais para a Segurança Social, é em Portugal de 50,2, o que
compara com 51,2 na Alemanha e 48,9 na média do conjunto. E esta relação tem
sido mais ou menos constante ao longo do tempo. Ou seja, tomando como
referência a riqueza produzida, Portugal é dos países que paga salários mais
altos.

 

O problema está aqui, na tal riqueza produzida. É que, num
outro plano, se tomarmos como referência o rendimento ‘per capita’ dos
diferentes países, já corrigido da paridade do poder de compra, a um valor de
100 na União Europeia correspondem 120 na Alemanha e apenas 77 em Portugal. Não
que os nossos trabalhadores sejam piores do que os outros: o mal está na formação
de base e, já nas empresas, nos meios que estas põem à sua disposição.

 

A juntar a tudo isto, as famílias portuguesas têm gasto de
mais. A prova está nas duas dívidas, a pública e a externa, com ambas a
excederem o próprio PIB. Ainda que a distribuição injusta deva também ser
ponderada. O contraponto a este despesismo terá de ser, no futuro, gastar de
menos, de modo a repor o equilíbrio – algo que, a meu juízo, vai envolver um
período não inferior a dez anos. E, a esta luz, a redução salarial é
inevitável.

 

Com isto chegamos às famosas declarações de António Borges,
conselheiro influente e figura de proa de um Governo que, até hoje, mais não
fez do que aumentar os impostos, diminuir os salários, facilitar os
despedimentos e elevar a taxa de desemprego até níveis insuportáveis. Borges
foi conivente – e inconveniente. Eu posso dizer o que ele disse. Ele não. O que
ele disse é verdade. Mas há verdades que o pudor recomenda que não se digam.

 

Tenho dito.

  

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:31
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Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

O outro desemprego

A mensagem consta do Documento de Estratégia Orçamental
2012-16, mas terá passado despercebida à generalidade dos leitores. O nosso “desemprego
estrutural” está a crescer de forma muito pronunciada, tendo passado de uma
média de 5,5% na década de 1990 para os 11,5% actuais. E o que é que isto
significa? Que há de diferente neste conceito, face ao desemprego ‘tout court’
com que nos habituámos a raciocinar? O tema carece de definições.

 

Comecemos com o “PIB potencial”, de que muito se falou a
propósito do pacto fiscal, hoje em fase de ratificação. O PIB potencial é o
nível de produto no qual os recursos disponíveis estão empregues na sua
totalidade; ou, mais precisamente, no qual a taxa de desemprego é igual à sua
taxa natural. E, associado a este, temos o “hiato do produto”, que é igual à
diferença entre o PIB efectivo e o PIB potencial, em percentagem deste último.

 

Por analogia com o “hiato do produto”, temos o “hiato do desemprego”, que é igual à diferença entre a taxa de desemprego ‘tout court’ e a taxa de desemprego natural. Pois bem, o “desemprego estrutural” não passa de uma variante deste desemprego natural: ele ocorre quando existe um desequilíbrio permanente entre a oferta e a procura de trabalho, seja por insuficiência da procura de bens e serviços, seja por inadequação do investimento.

 

Um olhar sobre os números do INE referentes ao primeiro
trimestre de 2012 revela uma taxa de desemprego de 14,9% da população activa, a
que correspondiam 819 mil desempregados. Pior do que isto só mesmo em Espanha e
na Grécia. Acresce que 416 mil eram de longa duração, 247 mil tinham mais de 45
anos e 116 mil tinham um curso superior – tudo indícios de que a maioria deste
desemprego é de facto estrutural, nos termos em que o definimos.

 

Se pedirmos a uma entidade especializada que avalie esta
situação, ela dir-nos-á que vamos a caminho do abismo. E é também essa a
opinião dos economistas independentes. Mas, de cada vez que nos visita, a
‘troika’ faz-nos os mais rasgados elogios, elevando o ego de quem governa e
apontando-nos ao mundo como um exemplo a seguir. É um facto muito estranho. E
eu só vejo duas hipóteses: ou passaram-se da cabeça ou decidiram gozar
connosco.

 

Ao diabo a escolha.

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 14:58
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Sexta-feira, 15 de Junho de 2012

Depois da Grécia

O primeiro grande teste foi nas eleições de 6 de Maio: a
Grécia falhou e não conseguiu formar governo. O próximo teste será a 17 deste
mês e o mais provável que venha a suceder o mesmo: teremos então a insolvência,
a desolação, o caos social. Antecipando o cenário, já há quem fale da saída
“controlada” do euro, seja lá o que isso for. Eu sinto o mesmo, embora prefira
não revelar pormenores. Vou apenas suscitar esta pergunta: e depois?

 

O que a lógica sugere é que a próxima vítima seja Portugal.
Daí que todos os olhares passem a incidir sobre nós: uma recessão profunda, um
desemprego galopante, uma dívida pública ingerível e uma dívida externa para
que não se vê solução. Nada de grave, se atendermos a que há uma ‘troika’ que
nos controla mas também nos financia. Sucede que essa mama vai acabar em
Setembro de 2013: como é que, depois disso, irão reagir os mercados?

 

Há duas hipóteses a considerar. A primeira é a ‘troika’
deixar-nos entregues a nós próprios: os mercados dizem não ou, em alternativa,
propõem-nos uma taxa de juro proibitiva. A segunda é a ‘troika’, antecipando a desgraça,
decidir apoiar-nos por mais algum tempo: aqui já não há uma solução mas apenas um
adiamento. Quer dizer, o nosso problema não é sair ou não sair do euro; é sair
logo ou um pouco mais tarde. A diferença é irrelevante.

 

O regresso ao escudo será acompanhado de uma desvalorização
externa porventura não inferior a 50%, o que provocará uma queda brutal do
nível de vida. E aqui as famílias serão divididas entre as que têm e as que não
têm dívidas: as não endividadas talvez sobrevivam; as outras estão feitas,
porque as dívidas continuarão em euros. Os pensionistas, na melhor das
hipóteses, manterão a pensão nominal em vigor – cerca de metade do valor
real.

         

 Agora a boa notícia.
A desvalorização do escudo vai levar a um acréscimo das exportações e a um
decréscimo das importações, o que se traduzirá por uma dupla melhoria da nossa
balança comercial. E, com o tempo, a sermos bem-sucedidos, os actuais défices
serão transformados em excedentes até ao equilíbrio total. Mas não se pense que
tudo isto é para amanhã. Um ajustamento deste tipo nunca será exequível a um
período inferior a dez anos.

 

Apertem os cintos.  

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

 

 

 

publicado por ooraculo às 14:55
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Sexta-feira, 8 de Junho de 2012

Grécia: a vertigem

A Grécia aderiu ao euro no início de 2001, tendo sido o 12º
país a fazê-lo. E, como os outros, assumiu o compromisso de não exceder 3% do
défice orçamental nem 60% da dívida pública, ambos em percentagem do PIB. Nunca
o conseguiu. Mais: no final de 2011, o défice estava em 9% e a dívida em 165%,
praticamente o triplo dos limites máximos a que se comprometera. Percebe-se a
crítica que hoje lhe fazem: melhor fora que não tivesse aderido.

 

A Grécia foi objecto de um primeiro resgate em Maio de 2010,
beneficiando de um crédito de €110 mil milhões para resolver os seus problemas.
O que sucedeu foi que todos os problemas se agravaram. Indicadores do final de
2011: o PIB caiu 7%; a taxa de desemprego pulou para os 18% da população
activa; e o défice da balança comercial afundou-se em 13% do PIB. Em paralelo
eram também resgatados a Irlanda e Portugal. A ajuda só desajudou.

 

A Grécia obteve um segundo resgate em Julho de 2011, no
valor de €210 mil milhões, ao mesmo tempo que beneficiava de um perdão
voluntário (?) de 50% das dívidas a entidades privadas, no valor de €103 mil
milhões. Como contrapartida aceitou introduzir o seguinte plano de austeridade:
congelamento dos salários, extinção dos subsídios de férias e de Natal e
eliminação de 150 mil empregos do Estado até 2015. O resgate dava lugar à
asfixia.

 

A Grécia assinou de cruz o chamado pacto fiscal, aprovado
por 25 países da UE em Março de 2012 e que está a ser objecto de ratificação.
Este documento, que entrará em vigor no início de 2013, envolve os seguintes
compromissos: o défice não poderá exceder 0,5% do PIB e a dívida que for além
de 60% do PIB terá de ser eliminada em 20 anos, através de prestações anuais e
iguais. Mas nenhum deles vai ser respeitado e a Europa sabe disso.

 

A Grécia submeteu-se a eleições em 6 de Maio, mas não
conseguiu formar governo. E não me surpreenderia se viesse a suceder o mesmo a
17 deste mês. O que nos leva a duas conclusões, ambas más. A primeira é que os
gregos se estão nas tintas para os compromissos assumidos. A segunda é que os
senhores do euro são suficientemente hipócritas para imporem o que não é
exequível, para depois lavarem daí as mãos. Um golpe perfeito – e execrável.

 

A Grécia do euro termina aqui. 

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

 

 

 

 

publicado por ooraculo às 15:58
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Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Ode às 'eurobonds'

Eu sei que a Alemanha não quer. E a Alemanha pode muito. Mas
as pressões são tantas, e de tantos lados, que não é possível evitar a
discussão sobre a emissão de ‘eurobonds’, que envolvem a dívida soberana dos 17
membros da Eurolândia, qualquer coisa como oito biliões de euros. O objectivo é
baixar as taxas de juro, mas há quem ganhe e quem perca, o que dificulta o
debate. Vou procurar reflectir sobre o que se tem discutido até agora.

 

Os cenários constam de uma edição recente de ‘The Economist’
e continuam actualizados. A primeira ideia era limitar a emissão de ‘eurobonds’
a países que de facto necessitassem dela e para aplicar em investimentos
seleccionados e por um curto período de tempo. Que países seriam esses, e de
que investimentos se tratava, confesso que não entendi muito bem. Mas uma coisa
parecia óbvia: entre fazer isto ou nada a diferença não era grande.

 

A segunda hipótese remetia para o Tratado de Maastricht, que
esteve na génese do euro. As dívidas soberanas seriam divididas em dois blocos:
até 60% do PIB pertenceriam a uma “zona azul” e, enquanto tal, beneficiariam da
emissão de ‘eurobonds’ e seriam objecto de uma garantia conjunta; acima de 60%
do PIB pertenceriam a uma “zona vermelha” e seriam geridas pelos respectivos países.
Não sendo perfeito, este cenário já fazia sentido.

 

O terceiro modelo também assentava no princípio das cores, mas com a sua aplicação invertida: haveria emissão de ‘eurobonds’ apenas para as dívidas acima dos 60% do PIB. O que nos remetia para uma espécie de quadratura do círculo. De facto, 12 dos 17 países da zona euro têm dívidas superiores a 60% do PIB; e os cinco restantes, o grupo dos resgatados mais a Bélgica e a Itália, excedem mesmo os 100%. Como é que se gerem situações destas?

 

A posição de Angela Merkel face às ‘eurobonds’ sempre foi
muito clara: não, não e não! O que, em certa medida, se compreende. Se a
Alemanha pode endividar-se a uma taxa de juro na vizinhança de zero, parece não
fazer sentido optar por uma outra taxa que reflicta o risco médio da zona. É
verdade. Mas o problema também pode ser visto por outro ângulo: se a Europa
entrar em colapso, para onde vai a Alemanha canalizar as suas exportações?

 

A palavra ao bom senso.

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

 

 

 

publicado por ooraculo às 16:46
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