Sexta-feira, 27 de Julho de 2012

A dívida maldita

 

Sentei-me ao computador, abri o Excel, defini as variáveis e coloquei-me esta pergunta: como é que se lida com a dívida pública? As principais variáveis são quatro: o quadro orçamental, o crescimento económico, o prazo e a taxa de juro. Mas, por uma questão de simplificação, vou limitar-me ao PIB e aos juros, fixando as duas restantes. O ponto de partida, para um PIB igual a 100, é uma dívida de 110. E pronto: agora é fazer as contas.

 

Pressupostos para um prazo de 10 anos: o PIB nominal cresce 3,5% ao ano (o que inclui 2% da variável preço, idêntica à inflação esperada); a taxa de juro é de 3% ao ano; e o saldo primário é nulo (receitas iguais a despesas sem juros). Efectuados os cálculos, e uma vez que os juros acrescem à dívida, esta cai cinco pontos para 105% do PIB. A melhoria vem do PIB, que cresce um pouco mais do que a taxa de juro (ver gráfico da esquerda).

 

Pressupostos para os 10 anos seguintes: o acréscimo nominal do PIB sobe para 4% ao ano; a taxa de juro sobe dois pontos para 5% ao ano; e o saldo primário passa a ser positivo e de 3% do PIB, a aplicar na amortização da dívida. Feitas as projecções, a dívida cai agora 50 pontos para 55% do PIB, o que já a coloca dentro dos padrões de Maastricht. São o PIB acrescido e a amortização da dívida a fazer a diferença (ver gráfico da direita).

 

A partir daqui, jogando apenas com o PIB e com as taxas de juro, podemos criar tantos cenários quantos quisermos. Hipótese 1: o PIB é acrescido de um ponto percentual ao longo de todo o período; no final, a dívida pesa 45% do PIB. Hipótese 2: a taxa de juro é acrescida de dois pontos ao longo de todo o período; no final, a dívida sobe para 68%. Hipótese 3: juntamos as duas hipóteses anteriores; no final, a dívida cai para os 56%. Etc.

 

Estes números dão-nos uma ideia daquilo com que poderemos contar. O controlo orçamental carece de mão de ferro. Dificilmente se resolverá o problema num qualquer período inferior a 20 anos. E o PIB e as taxas de juro deverão funcionar como irmãos siameses: se o primeiro não tiver um crescimento razoável, dificilmente as segundas serão sustentáveis. Têm a palavra a capacidade do Governo e os humores da ‘troika’ – e seja o que Deus quiser.

 

Há milagres assim.

 

d.amaral@netcabo.pt

 

publicado por ooraculo às 16:09
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Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

A atracção do abismo

O Governo tinha um problema: para atingir o défice orçamental de 4,5% do
PIB em 2012 necessitava de €2.000 milhões. O Tribunal Constitucional veio agora
criar-lhe um outro: em 2013 não poderá contar com os subsídios de férias e de
Natal dos funcionários públicos e dos pensionistas.

Mas já em 2011, se bem se recordam, o mesmo défice só fora cumprido graças
à absorção de €6.000 milhões do fundo de pensões da banca. A coisa começa
bem...

 

Que o objectivo de 2012 não ia sem cumprido só não via quem não queria ver.
O cenário era óbvio. Mas já não é tão óbvia a forma como o Governo vai
descalçar a bota. Incapaz de cortar na despesa, em especial nas
"gorduras" que tanto inspiraram a campanha do PSD, só lhe resta
aumentar os impostos - nas empresas ou nos particulares, no público ou no
privado, vale tudo menos tirar olhos. Como é que as pessoas vão reagir? Depois
logo se vê.

 

Transpondo o actual orçamento para 2013, é claro que continuam a faltar
€2.000 milhões. A que, por violarem o princípio da igualdade, se juntam os
€2.000 milhões agora vetados pelo Tribunal Constitucional. Mas o défice de 2013
terá de cair 1,5 pontos para os 3% do PIB, o que significa um esforço adicional
de €2.500 milhões. Alguém consegue explicar-me onde vai o Governo arranjar os
€6.500 milhões que faltam para tapar tantos buracos?

 

Mas o exercício de 2013 é também importante por outras razões. Em Setembro
vamos voltar aos mercados. E vamos fazê-lo à luz de um filme de terror: em
recessão profunda, com um desemprego caótico e a coberto de uma dívida
explosiva. Só um louco varrido acreditaria em qualquer hipótese de sucesso. O
melhor é apertar os cintos: daqui a um ano estaremos a abandonar o euro - ou
então a discutir o resgate 2, com este nome ou outro qualquer.

 

Como já se percebeu, as contas públicas são hoje ingeríveis, à luz do
modelo em que temos vindo a raciocinar. Se ainda nos resta um mínimo de bom
senso, teremos de exigir um diferimento dos prazos. E não descarto a hipótese
de termos também de reestruturar a dívida. Mas Passos Coelho e os seus mentores
continuam inamovíveis: não, não e não! Confesso a minha dificuldade em
classificar esta atitude: teimosia? Insensibilidade? Submissão?

 

Este Governo ensandeceu.

 

CONTAS PÚBLICAS

Do défice anual...

(Défice, % PIB)

À dívida acumulada

 (Dívida, % PIB)


  
  
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
  
  
  
 
  
 


  
 

Esqueçamos a Grécia, que já não é deste filme. Os países do Sul da Europa
enfrentam problemas semelhantes, embora com enquadramentos diferentes: Portugal
está sob resgate e os outros não. Mas o que é de facto importante é que tanto a
Espanha como a Itália são ‘too big to fail' e, a essa luz, vão precisar de
apoios excepcionais. A nossa missão é estar atentos: queremos exactamente os
mesmos apoios que eles tiverem.

Fonte: Eurostat.

d.amaral@netcabo.pt

 

publicado por ooraculo às 16:57
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Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

A frente anti-alemã

Primeiro a França, depois a Espanha, a seguir a Itália: a
Alemanha imperial, líder incontestada e defensora de uma austeridade sem
regras, lá acabou por ceder um pouco. Vingou o peso das economias. O peso da
Alemanha, sozinha, era igual a cinco vezes o peso conjunto da Grécia, da
Irlanda e de Portugal. Mas a Espanha, a Itália e a França, desta vez unidas, valiam
quase tanto como duas Alemanhas. O euro pode ter iniciado uma nova era.

 

François Hollande, erguendo a bandeira do crescimento
económico e da criação de emprego, terá conseguido a injecção de 120 mil
milhões de euros no conjunto das economias da zona euro, sendo 60 mil milhões
de empréstimos do BEI às PME, 5 mil milhões do orçamento comunitário sob a
forma de ‘project bonds’ e 55 mil milhões através do redireccionamento de
fundos estruturais. Uma gota de água num oceano de carências? Sim, mas foi um
começo.

 

Mariano Rajoy, do lado de Espanha, terá obtido um acordo de
princípio no sentido de os fundos do euro intervirem directamente na
recapitalização dos bancos, evitando desse modo a intervenção dos Estados e,
por reflexo, o agravamento da dívida pública. Claro que esta recapitalização só
deverá ocorrer lá para o final do ano, quando de facto se consumar a união
bancária. Mas o essencial está feito e Portugal irá também beneficiar disso.

 

Mario Monti, em Itália, sem deixar de acompanhar de perto as
reivindicações dos seus homólogos europeus, centrou as suas principais exigências
naquilo a que chamou a “histeria” dos mercados, que acusou de responsáveis
pelas taxas de juro proibitivas que ameaçavam levar o país à falência. E acabou
por ser ele o elo mais forte na procura de uma flexibilização que, tudo o
indica, deverá culminar numa redução efectiva do preço do dinheiro.

 

Claro que nem tudo são rosas. Como seria de esperar, a
Holanda e a Finlândia, eternos aliados da Alemanha, logo se opuseram a que o
novo mecanismo de estabilidade do euro venha a intervir na compra de dívidas
europeias nos mercados secundários para baixar as taxas de juro. E a dúvida
instalou-se. Vamos ter de averiguar se aquela intervenção carece de unanimidade
ou tão-só de uma maioria qualificada. Eu inclino-me para a segunda hipótese.

 

Enfim, será desta?  

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 16:26
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Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

Contas furadas

O Governo, pela mão de Vítor Gaspar, descobriu a pólvora: o
défice orçamental em 2012, no valor de 4,5% do PIB, afinal não vai ser cumprido.
O desvio será de uns dois mil milhões de euros, imaginem só! Pertenço ao número
daqueles que, logo à partida, afirmaram que o objectivo era inexequível sem o
recurso a mais medidas extraordinárias. Daí o meu espanto pelo facto de só agora
o Governo se espantar. Como é que vamos descalçar a bota?

 

Um cenário possível é agravar as medidas de austeridade, de
que Passos Coelho tanto gosta. Vamos às receitas e aumentamos ainda mais os
impostos; pegamos nas despesas e aplicamos mais uns cortes nos salários; e, se
tudo isto não chegar, talvez se arranjem por aí mais uns fundos de pensões. Mas
atenção! O sentimento generalizado vai no sentido de que as pessoas estão à
beira de explodir e esta pode ser a gota que faz transbordar o copo.

 

Outra hipótese possível seria cortar no investimento público.
Fiz umas contas rápidas: durante a última década, o investimento nacional,
público e privado, caiu dez pontos para os 18% do PIB; e o investimento público
ficou reduzido a metade. Usar agora este investimento para salvar o défice
seria o mesmo que eliminá-lo completamente. Enfim, se o objectivo é agravar
ainda mais a recessão, podem ficar descansados: este é o caminho certo.

 

A estes modelos internos poderemos contrapor uma solução
externa: o Governo reconhece que é incapaz de cumprir as metas propostas e
solicita um diferimento do prazo, com ou sem fundos adicionais. A abertura já
admitida para a Grécia poderia servir de argumento. O problema está naquela
máxima a que o primeiro-ministro se agarrou: não queremos mais tempo nem mais
dinheiro! Com que cara iria ele depois aparecer ao lado da generala alemã?

 

Como já se percebeu, este problema não tem soluções boas; teremos
de procurar as menos más. Em minha opinião, deveríamos optar pela solução
externa, malgrado os sapos que Passos teria de engolir. Mas estou convencido de
que o Governo vai preferir a austeridade. E, se assim for, proponho que se
estenda ao sector privado aquilo que já hoje se aplica ao sector público e aos
pensionistas. A injustiça social sempre seria um pouco mais justa.

 

Como é que chegámos aqui?  

  

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 17:12
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