Terça-feira, 25 de Setembro de 2012

Um país encurralado

 

 

Na semana passada falei aqui da balança corrente, que reflecte o nosso saldo com o exterior, sempre negativo. Hoje vou um pouco mais longe e analisar os valores acumulados pelo Estado, as famílias e os bancos portugueses. No final de 2011 o valor líquido da chamada posição de investimento internacional era negativo e de €177 mil milhões, cerca de 104% do PIB. Falo da nossa dívida externa, uma loucura. Como é que se lida com estes números?

 

O comércio externo, encarado à escala mundial, é um conjunto de soma zero: as exportações de um lado são importações do outro e inversamente. Mas, quando se desce ao pormenor, as coisas não são bem assim. E a balança corrente da zona euro é um bom exemplo. Ainda que globalmente equilibrada, há excedentes significativos na Alemanha, na Holanda e na Áustria, ao mesmo tempo que se registam enormes défices em Espanha, em Itália e em Portugal.

 

É exactamente aqui que Portugal destoa. Quando se juntam os valores acumulados, a dívida externa da Europa do euro é de uns 12% do PIB, facilmente geríveis. Mas há um problema cá em baixo, nos países do sul: sempre em percentagem do PIB, a Grécia atinge 80%, a Espanha 92% e Portugal 104%. Portugal, à sua escala, é um dos mais endividados do mundo. Se me perguntam como é que se lida com uma situação destas, a resposta é simples: não sei.

 

Terá sido este número louco que levou Passos Coelho à TSU. Mas o resultado foi trágico: os parceiros sociais zangaram-se porque não foram ouvidos; os empresários de topo ergueram-se em bloco contra a medida; o CDS ameaçou romper com a coligação; os protestos de rua terão atingido a sua maior dimensão de sempre; e, sem dar por isso, o país viu-se encurralado numa crise gravíssima para que não se vislumbra solução. Pior era impossível.

 

Olha-se para tudo isto e só nos resta uma saída: recorrer ao investimento, de modo a promover o crescimento económico e a criação de emprego. Mas esta “única saída” esbarra num muro de betão: a ‘troika’, que nos controla e nos financia, acha que devemos submeter-nos a uma austeridade cega e sem limites, cavando uma recessão que nos asfixia e nos há-de levar à miséria extrema. A mensagem é clara: portámo-nos mal; esta é a punição devida.

 

Quem nos acode?   

 

                                                                                                                                                                                            d.amaral@netcabo.pt

 

publicado por ooraculo às 15:35
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Terça-feira, 18 de Setembro de 2012

O buraco das contas externas

No trimestre terminado em Julho, as exportações subiram 8,3% para os €11.986 milhões e as importações desceram 6,5% para os €13.983 milhões, atingindo uma cobertura de 86%. É uma boa notícia. Mas estes números valem pouco: primeiro, porque apenas contemplam os bens, ignorando os serviços; depois, porque passam por cima dos rendimentos e das transferências, de que se alimenta a balança corrente. A nossa dependência externa joga-se aqui.

 

Em 2011, a variação real do comércio externo foi de 7,4% para as exportações e de -5,5% para as importações, o que deixa implícita uma clara melhoria das quotas de mercado. A estes números não deverão ser estranhos o colapso da procura interna e a queda abrupta dos custos unitários do trabalho. E a balança corrente pôde respirar um pouco: o saldo, ainda que negativo (-5,2% do PIB), ficou reduzido a metade da média dos anos anteriores.

 

O principal fluxo das exportações portuguesas vai para a União Europeia, que abarca 75% do total, com destaque para a Espanha, a França, a Alemanha e o Reino Unido. E o mesmo bloco é responsável por 76% das importações que entram em Portugal. Percentualmente estamos quites, mas é óbvio que em termos absolutos a vantagem vai para as importações. Precisamos de melhorar este indicador, o que só se consegue com uma competitividade acrescida.

 

Voltando à balança corrente, o equilíbrio na zona euro é quase total: prevê-se um excedente de 0,4% do PIB em 2012, contra um défice de 3,2% do PIB nos EUA. Mas, quando se desce ao pormenor, é como se entrássemos num filme de terror: os países do norte (Alemanha, Bélgica, Holanda, Áustria) esmagam completamente os do sul (Portugal, Espanha, Itália, Grécia). Já repararam como, a haver um mínimo de solidariedade, seríamos todos felizes?

 

Discute-se muito a dívida pública e com razão. Mas a dívida externa, bem mais importante, é praticamente ignorada. No final de 2011, em Portugal, ela atingia €177 mil milhões, um valor que na zona euro só era excedido pela Espanha, pela França e pela Itália; já em percentagem do PIB (104%) éramos o país mais endividado de todos. A mensagem é clara: nós não precisamos apenas de exportar mais; precisamos de uma balança corrente positiva.

 

O Governo tem consciência disso?

 

 

d.amaral@netcabo.pt

 

publicado por ooraculo às 16:56
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

O colapso do investimento

Do último Agosto, tradicionalmente de férias, retive dois momentos. Um projecto de construção de seis fábricas de painéis fotovoltaicos em Abrantes foi inviabilizado pelo mesmo Governo que o aprovara. E um complexo turístico no Alqueva classificado de interesse nacional teve o mesmo destino. Não vou entrar nos porquês, que de resto conheço mal. Limito-me a registar o óbvio: aos milhares de postos de trabalho implícitos ninguém ligou.

 

Sucede que estes não são casos isolados. No mês anterior, a anglo-australiana Rio Tinto desistiu da exploração das minas de ferro de Moncorvo, alegando falta de apoios. Em finais de 2011, a Nissan abandonou a construção da fábrica de baterias em Cacia, porque não tinha mercado. E o mesmo já sucedera com a brasileira Odebrecht, que em Abril do mesmo ano mandara às malvas o seu "empreendimento turístico inovador" no sotavento algarvio.

 

O que está aqui em causa é uma realidade muito mais grave: o investimento em Portugal colapsou. Há duas maneiras de analisar este fenómeno. Um é medir o peso do investimento no conjunto do PIB: era de 27% no início do século, passou a 23% em 2008 e hoje não passa de uns meros 16%. O outro é medir as sucessivas variações do investimento face ao período homólogo anterior: nos últimos três anos ele caiu ao ritmo de 9% em média por ano.

 

Como seria de esperar, os reflexos no emprego foram terríveis. De acordo com o INE, a taxa de desemprego no segundo trimestre era de 15%, equivalente a 827 mil desempregados, com tendência a subir. Mas o que mais choca é a sua evolução: de apenas 3,9% em 2000, esta taxa subiu para 7,6% em 2008 e deverá atingir os 16% no final do ano. Triste ‘performance' a nossa: numa Europa a 27, apenas somos ultrapassados pela Espanha e pela Grécia.

 

Parece então óbvio que a superação da crise passa pelo investimento, coisa que esta ‘troika' nunca entendeu. Mas há aqui um problema. O investimento privado bloqueou, à míngua de financiamento. E o investimento público, para ser alternativa, teria de passar por cima do cadáver ultraliberal do CDS e do PSD. Eis a triste realidade que nos espera: sem soluções, e sem ninguém que se preocupe, a economia portuguesa vai a caminho do abismo.

 

Até quando?

 

 

O BURACO NEGRO

Do desinvestimento...

(% PIB)

...ao caos social

(% população activa)

 O investimento, mola real do desenvolvimento económico, caiu a pique: 9% em média por ano no triénio 2009-11, um valor só superado pelos da Grécia e da Irlanda. A consequência deste colapso só poderia ser a que foi: um aumento brutal do desemprego, cuja taxa se aproxima dos 16% da população activa - o dobro da de 2008, quatro vezes a que existia no início do século. Um buraco negro que nos levou ao caos social.

Fontes: INE, Banco de Portugal

____

Daniel Amaral, Economista

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 14:46
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Regresso ao futuro

. Passos perdidos

. 2013: A vertigem

. O Estado "social"

. O declínio da Europa

. Chover no molhado

. O Estado vampiro

. A escapatória

. OE/2013: a ruptura

. Um país destroçado

.arquivos

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds