Terça-feira, 30 de Outubro de 2012

A escapatória

O leitor já deve ter reparado. A ‘troika’, que de há muito nos controla e financia, é composta por elementos da Comissão Europeia (CE), do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas este trio não faz um conjunto homogéneo. Enquanto a CE e o BCE são fanáticos pela austeridade, o FMI vai deixando mensagens no sentido de que a austeridade já é excessiva. Com uma excepção: o membro do FMI que integra a ‘troika’ coloca-se ao lado dos europeus. Afinal, o que é que se passa?

 

O que se passa é que a Europa e o FMI fazem leituras diferentes do que deve ser um ataque à crise. Do lado da CE e do BCE, há uma postura obsessiva pelo controlo do défice orçamental, fazendo depender disso todos os apoios financeiros que nos concedem. E a cegueira é de tal ordem que nem sequer vêem o óbvio: o Governo promete tudo e não cumpre nada; o pouco que se ganha em défice perde-se em recessão; e a economia portuguesa, mais a sua legião de desempregados, vão a caminho do abismo.

 

Já o FMI, ao contrário, defende a tese do crescimento. E, para isso, considera que a melhor via é a do comércio externo, para o que devemos proceder a um corte brutal dos salários e com isso melhorar a competitividade. Sem o dizer expressamente, o que o FMI está a sugerir é que abandonemos o euro, para que o escudo seja depois objecto de uma profunda desvalorização. Mas há aqui um problema. Se desvalorizarmos, por hipótese, 50%, a dívida externa, que se mantém em euros, passa para o dobro: como é que se paga?

 

Como já se percebeu, da conjugação destes modelos resulta um beco sem saída. Precisamos de uma escapatória. Como a dívida pública anda pelos €200.000 milhões (120% do PIB), de todo ingerível, a solução passa por diferir o seu pagamento. O que eu proponho é amortizar metade, a um prazo de 20 anos – €5.000 milhões em média por ano –, com uma taxa de juro simbólica e o apoio do BCE. Mesmo não sendo fácil, esta solução permitiria um crescimento razoável, através do qual a própria dívida que resta se iria diluindo.

 

Adivinho o que estão a pensar: e se os credores recusarem? A resposta é simples: se recusarem, o problema não tem solução. Com a agravante de alguns destes credores serem bancos nacionais. Eu sei que os investidores têm direitos que devem ser respeitados. Mas insisto na minha tese: uma intransigência em receberem tudo pode levar esses investidores a não receberem nada. Não há ninguém no mundo que consiga extrair de um país aquilo que, objectivamente, esse país não lhe pode dar.

 

É agora ou nunca.

 

d.amaral@netcabo.pt

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Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

OE/2013: a ruptura

Números recentes do INE apontam para que o PIB nominal caia 2,7% em 2012. O PIB nominal reflecte uma dupla variação, em volume em preço, face ao ano anterior. Como o Governo assume que o PIB real vai cair 3%, a variável preço só pode subir 0,3%. Mas o deflator do produto tem como principal componente o consumo privado, por que se mede a inflação, que anda pelos 3%. Como é que se reduz este valor a um décimo? Creio que já todos perceberam: a aposta do Governo não é realista.

 

O défice de 2012 sem medidas extraordinárias seria de 6% do PIB. Mas o mau desempenho da economia e o acréscimo da dívida elevaram-no para 7,7%. Como o Governo se comprometeu a reduzi-lo para 4,5% em 2013, houve que financiar os 3,2% restantes. E assim nasceu o plano de austeridade mais violento de que há memória em Portugal: entre mais receitas (impostos) e menos despesas (despedimentos e cortes nos salários e nas prestações sociais) o Governo propõe-se usurpar-nos €5.338 milhões. Deve ter enlouquecido.

 

Sucede que esta loucura tem custos, que o Governo não deveria ignorar. E nem sequer vou recorrer aos famosos multiplicadores do FMI, onde os “sábios” se atropelam uns aos outros. Limito-me a olhar para os cortes brutais a que vai ser submetida a procura interna, entre consumo e investimento: com aquela machadada de €5.338 milhões, é óbvio que a economia vai bater no fundo. Ou seja, quando o Governo afirma que a recessão em 2013 será de apenas 1% do PIB só pode estar a brincar connosco. Mas não tem graça nenhuma.

 

Creio que salta aos olhos de toda a gente que este modelo não é sustentável. E a ruptura poderá acontecer a qualquer momento. Num plano meramente teórico, ainda poderíamos admitir que ele vigorasse até ao final de 2013. Mas, com esta brutalidade sempre acrescida, seria objectivamente impossível transpô-lo para os anos seguintes. E não falo da vontade de A ou B; falo de impossibilidade ‘tout court’. Enfim, não sei quando é que este Governo vai cair, mas tenho para mim que não chegará ao Verão.

   

Falemos então de saídas. A mais óbvia seria o Governo convocar uma reunião com a ‘troika’ e propor-lhe uma renegociação da dívida, hoje ingerível. Mas Passos Coelho é suficientemente teimoso para não o fazer. E a bola vai direitinha para Cavaco Silva, que só tem duas soluções: ou promove um Governo de iniciativa presidencial ou convoca novas eleições legislativas. Como ambas as soluções são más, teremos de escolher a menos má. Eu penso que a solução menos má é ir directo para eleições.

 

Este Governo é para esquecer.

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:29
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Terça-feira, 16 de Outubro de 2012

Um país destroçado

Números recentes do INE, no âmbito do Procedimento dos Défices Excessivos, apontam para que o PIB nominal caia de €170.909M em 2011 para €166.341M em 2012 (-2,7%). E a inflação actual anda pelos 3%. Pressupondo que o deflator implícito no produto seja idêntico à inflação, e que esta se mantenha até final do ano, a queda do PIB em 2012 vai atingir os 5,5%. Consultei estatísticas até aos últimos 40 anos e não encontrei uma recessão assim.

  

 Em 2013 o défice orçamental vai cair 0,5 pontos para 4,5% do PIB, coisa de somenos. Mas o Governo respondeu com o plano de austeridade mais violento de que tenho memória, como se não existisse amanhã. Quando, em 2014, tivermos de reduzir 2 pontos para 2,5% do PIB, quatro vezes mais, que resposta terá? Enfim, os disparates são tantos, e de tal ordem, que eu tenho para mim que o Governo enlouqueceu. E é óbvio que a recessão vai prosseguir.

 

Em Setembro de 2013 está previsto o regresso ao mercado primário para nos financiarmos. Estaremos então com uma dívida pública da ordem dos €200.000M. Mas, com a economia de pantanas, as populações revoltadas e as agências de ‘rating’ a classificarem-nos como “lixo”, alguém acredita num cenário destes? Alguns ingénuos ainda olharam para o BCE como uma saída possível no mercado secundário. Mas Mario Draghi foi claríssimo: ou reconquistamos o “acesso total” ao primário ou não há nada a fazer.

 

A gestão de uma dívida envolve dois pagamentos: o capital e os juros. Sobre o capital, estamos conversados. Mas vale a pena reflectir um pouco sobre os juros. Não conheço a estrutura da nossa dívida, e muito menos a taxa de juro implícita. Mas admitamos que é da ordem dos 5% ao ano: com uma dívida de €200.000M, os juros sobem para os €10.000M anuais. Ou seja, o endividamento é de tal ordem que não nos deixa espaço para excedentes orçamentais. Lamento dizê-lo, mas nem os juros vamos conseguir pagar.

 

Com isto chegamos ao actual modelo de gestão. Parece evidente que o modelo da ‘troika’ – massacrar primeiro para aliviar depois – é de uma estupidez sem limites. Mas também é verdade que o Governo achou óptimo, propondo-se mesmo ir além do que a própria ‘troika’ exigia. Nunca ocorreu a estas cabecinhas tontas o que, nesta fase, seria realmente prioritário: investir, empregar, crescer. O resultado está aí, nesta monstruosidade social. A imagem que me ocorre é a de um país destroçado gerido por um bando de loucos.

 

Por amor de Deus, parem!

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:43
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2012

Euro ao fundo

Li a notícia no “Público” há um mês e fiquei a matutar: já existe um guia prático para se sair do euro. Criado no final de 2011 pelo empresário britânico e membro do Partido Conservador Simon Wolfson, os seus responsáveis analisaram cerca de 400 projectos e seleccionaram o do economista britânico Roger Bootle, da Capital Economics, a quem coube um prémio de 250 mil libras pelo feito. Eis um tema sedutor: como sair do euro sem doer muito?

 

Separemos as águas. A zona euro não é um todo homogéneo. Há, a Norte, países como a Alemanha, a Áustria, a Holanda e a Finlândia – o grupo dos “senhores”. E há, a Sul, países como a Espanha, a Itália, a Grécia e Portugal – o grupo da “ralé”. Parecendo óbvio que os “senhores” prefeririam não misturar-se, quem deve sair? Os do Sul, afogados em dívidas? Ou os do Norte, cansados de emprestar? Admito que sejam os do Sul, mas nunca se sabe.

 

Resolvido este imbróglio, há que seleccionar o primeiro país a sair do euro e escolher a moeda substituta: chamemos-lhe o país “X”, que regressa à moeda “y”. Numa sexta-feira à tardinha, depois do fecho dos mercados, serão suspensas as transacções electrónicas e encerradas as caixas Multibanco. E, na segunda-feira seguinte, é o próprio “X” a anunciar a todo o mundo: deixámos o euro e voltámos a “y”. As rotativas podem começar a funcionar.

Numa primeira fase, euro e “y” mantêm a mesma paridade. Mas “y” entra de imediato em desvalorização contínua. Era esse, de resto, o objectivo: a desvalorização torna as exportações mais baratas e as importações mais caras, melhorando a balança comercial. E a inflação que se segue, mais a ilusão monetária, tornam o país mais competitivo. Já a dívida externa, que se mantém em euros, vai crescer em flecha: quem a paga? O estudo não diz…

  

Acabemos com o suspense. O país “X” é a Grécia e a moeda “y” é a dracma: o estudo assume sem rodeios que a Grécia vai sair do euro até final deste ano. Mais: o seu autor admite que venha a acontecer o mesmo com Portugal. E até defende que isso seja melhor para todos, “apesar de os efeitos de curto prazo decorrentes da saída serem negativos”. O resto já se sabe: a dracma e o escudo serão objecto de uma desvalorização não inferior a uns 40%.

 

 Estamos preparados?

 

d.amaral@netcabo.pt

 

 

publicado por ooraculo às 15:22
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Terça-feira, 2 de Outubro de 2012

Keynes revisitado

Peguemos em 2011, último exercício completo. Para um PIB igual a 100, o consumo é de 86 e o investimento de 18; os 4 em excesso correspondem à diferença entre importações (39) e exportações (35). Admitamos ainda que a dívida pública é de valor idêntico ao do PIB. Se, a determinada altura, o Estado decidir lançar um projecto de investimento no valor de “x”, tanto o produto como a dívida sobem para 100+x e o envidamento relativo mantém-se.

 

Mas o processo não pára. Este investimento gera emprego, que dá lugar ao pagamento de salários, que por sua vez são canalizados para consumo, poupança e ainda mais investimento. O que reinicia o processo – uma vez, outra vez, mais outra… O efeito multiplicador adquire uma dinâmica que tende para o infinito. Se atribuirmos a este efeito o valor de “y”, o PIB sobe para 100+x+y e a dívida mantém-se nos 100+x: o seu peso relativo baixou.

  

Num outro plano, importa considerar a componente preço. Não tenho nada contra a política do BCE ao projectar uma inflação da ordem dos 2% ao ano, sem exceder este valor. Parece-me um número razoável. Mas, na actual situação de endividamento louco em que se encontram alguns países, creio que faria sentido deixá-la deslizar. E uma inflação da ordem dos 4-5% cairia como sopa no mel: o PIB nominal aumentava e a dívida face ao PIB regredia.

 

Claro que teríamos sempre a oposição dos credores. Em períodos de alta inflação os créditos desvalorizam. Mas o fenómeno da dívida suscita outras leituras: primeiro, uma inflação mais alta compensaria as taxas exorbitantes que os agiotas nos têm cobrado até agora; e, depois, os próprios agiotas deveriam ponderar sobre se, na sua ânsia de cobrar tudo, não se arriscam a ficar sem nada. Há países com dívidas que jamais conseguirão pagar.

 

Dito isto, só nos resta seleccionar o investimento a fazer. Quero crer que ficarão de fora as auto-estradas, que já foram longe de mais. E também não imagino mais rotundas sem nexo nem os fatídicos estádios de futebol. No fundo, a definição já ficou lá trás: precisamos de um investimento que crie emprego, que pague os devidos salários, que se transformem em mais consumo e mais investimento. Numa palavra: precisamos de um bom multiplicador.

 

Ó ‘troika’, tu não vês isto?

 

 

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:04
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