Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

O compromisso

Confesso que ainda não percebi muito bem o que é que nos mercados financeiros se entende por “reestruturar” uma dívida. Mas o bom senso sugere que seja pelo menos uma de três coisas: diminuição do montante, alongamento do prazo ou redução da taxa de juro.

Daí a minha surpresa pelo compromisso que o Governo assumiu numa cimeira recente: "Exclusão total de qualquer cenário de reestruturação da dívida". Será que avaliou as consequências?

Para efeitos de raciocínio, vou tomar como referência o último reporte do INE e o ano de 2012, em que a um PIB igual a 100 corresponde uma dívida de 104, sendo o PIB de €170 mil milhões. Admitamos um saldo primário nulo. Se, no ano seguinte, a taxa de juro for de 5% e o PIB nominal crescer apenas 2,6% (previsão do Banco de Portugal), uma de duas: ou a dívida sobe para 106,4 ou ajustamos as contas de modo a obter um saldo primário de 2,4%.

Sucede que um cenário de aumento de dívida é inviável. Ninguém o vai tolerar. Admitamos um corte ligeiro, do índice 104 para o índice 100, com os mesmos 2,6% de crescimento nominal. O excedente primário terá agora de ser de 6,4%! O problema é que, para isso, terá de haver cortes brutais na despesa, o que arrasta na onda o já frágil produto. E o círculo vicioso nunca mais pára: apostamos na redução da dívida ou no crescimento económico?

Agora a cereja no topo do bolo. Quando chegarmos ao final de 2012, com o país envolto em recessão e caos social, ninguém vai satisfazer-se com aqueles níveis de endividamento, sejam eles de 100 ou 104 na sua relação face ao PIB. Vão exigir muito mais. Vão exigir que, a um prazo de ‘n' anos que eles hão-de fixar, aquele número caia para os 60% que limitaram a entrada no euro. Se forem 10 anos, serão 4% do PIB em cada ano - uma loucura.

Com isto volto ao ponto de partida: assumir o compromisso de que jamais faremos uma reestruturação da dívida é uma tontice. A reestruturação é inevitável e o lapso só pode ter uma de duas explicações: ou o Governo não percebeu ou decidiu empurrar com a barriga e depois logo se vê. Receio o pior: quando o momento da reestruturação chegar, alguém vai lembrar-nos de que o compromisso existe e deve ser respeitado; se não o fizermos, a alternativa é o caminho da porta - e a saída do euro.

Que pensa disto Vítor Gaspar?

 

CONTAS PÚBLICAS

 

Dos défices anuais...

(Défice, % PIB)

 ...às dívidas acumuladas

 (Dívida, % PIB)

   

 Ainda que os problemas de natureza orçamental sejam extensivos à generalidade dos países da Zona Euro, Portugal especializou-se em ter défices acima da média do conjunto. Vai continuar a ser assim, pelo menos até ao final de 2012. O reflexo óbvio está na dívida pública acumulada, que é hoje da ordem dos 100% do PIB em Portugal e de apenas 82% do PIB no conjunto dos 17. A dívida portuguesa terá de ser reestruturada.

Fontes: INE, Banco de Portugal, Eurostat.

 

Daniel Amaral, Economista

d.amaral@netcabo.pt

publicado por ooraculo às 15:49
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