Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

A dívida externa

Há dois conceitos de dívida, em parte sobrepostos, que estrangulam o crescimento e impedem o bem-estar social: a dívida pública, que pode ser interna ou externa; e a dívida externa, que pode ser pública ou privada. São ambas brutais e, de acordo com o Banco de Portugal, deverão andar próximas de 106% e 117% do PIB, respectivamente. Mas, se da primeira falamos todos os dias, a segunda é quase ignorada. Centremo-nos então nesta última.

Um bom indicador para medir o défice externo é a balança corrente, e o saldo desta, sempre negativo, não deixa dúvidas: era de 10% do PIB em 2000 e, com ligeiras flutuações pontuais, assim se manteve até hoje. Daí que não surpreendam aqueles 117% de dívida acumulada que se prevêem para o final de 2011. Como a parte de leão está no comércio externo, exportações e importações, fica lançado o desafio: qual a melhor forma de as optimizar?

Alguns agentes políticos mais directamente ligados a este fenómeno têm vindo a realçar o desempenho das exportações - acréscimo de 9% em 2010, contra um decréscimo de 12% no ano anterior -, sugerindo a ideia de que já estamos no caminho certo. Não é verdade: o que se passou neste ano foi uma recuperação económica generalizada, seguida de um aumento significativo do comércio mundial, de que todos beneficiámos. A situação não é repetível.

Se olharmos para os principais países da Zona euro, para onde exportamos mais de dois terços das nossas mercadorias, o que sobressai são problemas de endividamento externo. Exceptua-se a Alemanha, com uma balança assaz positiva mas que se recusa a partilhar. Sendo assim, quaisquer medidas no sentido de aumentar as exportações esbarram em medidas de sinal contrário de todos quantos procuram fazer o mesmo: as forças anulam-se entre si.

Por muito que isto nos custe, do que precisamos mesmo é de aumentar a quota de mercado, coisa que até hoje nunca soubemos fazer. Os números não deixam dúvidas: no período 2000-09, as exportações mundiais aumentaram 75% e as portuguesas apenas 53% - um sinal claro de que a nossa quota diminuiu. E como é que invertemos esta situação? Sendo melhores do que os outros. Deixo aqui alguns alvos: redução dos custos de fabrico, escolha dos investimentos certos, melhoria de toda a organização.

Acham que somos capazes?

 

QUADRO EVOLUTIVO

 

Dos défices anuais...

(% PIB)

 ...à dívida acumulada

 (% PIB)

   

 Há muito que a balança corrente vem registando défices da ordem dos 10% do PIB. A balança de capital, de sinal positivo, corrige depois este valor, aliviando a pressão da componente a financiar. Ainda assim, a dívida externa acumulada, sempre crescente, já vai nos 117% do PIB, uma situação explosiva. É difícil imaginar como vamos gerir esta dívida, mas uma coisa parece segura: aqueles défices terão de ser eliminados.

Fonte: Banco de Portugal 
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

 Nuno , | 10/09/11 21:59
Mais um excelente artigo. Muito útil para alguém que, como eu, completamente leigo em economia. Oxalá o "economês" dos papagaios que aparecem diariamente na TV fosse assim tão esclarecedor.
.
publicado por ooraculo às 15:56
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