Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

Grécia: um 'case study'

O processo de lançamento do euro teve início em 1999, com a entrada de 11 países, entre os quais Portugal. Critérios de convergência que foi necessário cumprir: o défice orçamental e a dívida pública não poderiam exceder 3% e 60% do PIB, respectivamente. A Grécia viria a entrar apenas em 2001, nas mesmíssimas condições. O problema é que, à entrada, a sua dívida pública face ao PIB já excedia os 100%. Quem permitiu que isto acontecesse?

Ainda que nunca assumido expressamente, os critérios definidos tinham implícito um crescimento nominal do PIB da ordem dos 5% ao ano, 3% em volume e 2% em preço. De facto, com aquele défice e aquela taxa de crescimento, os limites da dívida nunca seriam ultrapassados. Mas, se o objectivo da inflação foi cumprido, o crescimento real do PIB ficou-se por um terço: os estrategas do euro falharam rotundamente. E disso a Grécia não teve culpa.

Hoje a Grécia vive numa recessão profunda, o desemprego excede os 16% da população activa, os défices programados vão ser incumpridos e a dívida pública deverá atingir 173% do PIB em 2012. E, com um cenário destes, que propõe a ‘troika' deles? A receita do costume: austeridade, desinvestimento, bloqueio, asfixia. Um filme de terror. Não é preciso um grande esforço para perceber que a Grécia está na antecâmara de um estoiro monumental.

A senhora Merkel e o senhor Sarkozy têm de decidir, uma vez por todas, o que querem fazer da Grécia: ou mantê-la no euro ou correr com ela. Se optarem pela saída, os gregos declaram falência, renunciam aos pagamentos e seja o que Deus quiser. Mas, se a opção for mantê-la, como querem fazer crer, então que o assumam sem rodeios: a dívida terá de ser reestruturada e amputada em pelo menos 50% do total. Preferem perder tudo ou uma parte?

Entendamo-nos. Não estão em causa as reformas, as penalizações, os cortes impiedosos em tudo o que mexe. O que aqui está em causa é um mínimo de realismo e de bom senso: não é possível asfixiar um doente e pretender reanimá-lo logo a seguir. Estes desvarios autistas costumam desabar em tragédia. Do que a Grécia precisa é de quatro coisas: mais tempo para consolidar, mais crédito para financiar, mais apoios para corrigir, mais e melhores mercados para exportar. Alguém lhe dá uma ajuda?

Portugal vem a seguir.

 

BARCO AO FUNDO

 

Recessão temerária...

(PIB, 2006=100)

 ...dívida explosiva

 (Dívida pública, % PIB)

   

Enquanto a Zona euro entrou em recessão em 2008 e começou a inverter em 2010, a Grécia teve um começo idêntico e nunca mais recuperou. As recessões acumuladas deverão atingir 14% do PIB em 2012. E, com a economia a bater no fundo, emergiu a dívida pública, projectada para 173% do PIB. Pretender-se que a Grécia sobrevive sem reestruturação é um insulto à inteligência das pessoas. Os gregos não o merecem...

Fontes: FMI, Eurostat.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

 

Comentários:

Fernando , | 14/10/11 16:12
Concordo com o Joe... Enquanto o povo se "revoltar" com as grandes multinacionais e o poder financeiro de Wall Street, estara o poder politico todo descansado... Sera que nao se percebe que o problema esta no DEMASIADO poder politico que existe no mundo? Quem censura as grandes multinacionais de querer influenciar os politicos? O problema esta no demasiado poder que os politicos tem... Claro que o pdoer financeiro quer que os governos passem a ideia que os bancos sao "demasiado grandes para falharem" porque uns (estados) sustentam-se com os outros (bancos) a custa das pessoas... Os que protestam em Wall Street contra o "demasiado poder das corporacoes" deveriam estar na Casa Branca a protestar contra o demasiado poder dos Governos.
 
JR , | 14/10/11 16:05
Amigo Realista.
Quem criou o monstro foi Guterres.Aliás foi Cavaco que chamou monstro ao 2ºorçamento de Guterres,o orçamento limiano senão estou em erro.Assim é que está correto,mas como dizia Lenine as mentiras ditas muitas vezes,tornam-se verdades,e a comunicação social nada faz para repor a verdade.
 
jOE CARRUSCA , USA | 14/10/11 15:45
A CEE foi formada como zona economica, mas transformou-se numa zona politica devido a alguns lunaticos que decediram fazer os Estados Unidos da Europa sem consultarem o povo.Agora esta o "caldo entornado" porque os eleitores dos paises mais ricos, nao compreedem porque eh que tem de pagar as dividas dos Pigs.Porque se analizarmos bem, paises como Portugal ,Grecia,Irlanda e etc. nunca podiam ser admitidos numa zona economica como a CEE mas foram, porque as decisoes de admiti-los foi politica e nao economica.

LOPES CARLOS , Bélgica | 14/10/11 15:33
1. A Grécia e Portugal , tal como o Sul de Italia, já são estudados como casos de desenvolvimento mal formado.
2. A Grécia não preenchia os requisitos para entrar na Zona do Euro.
3. A Grécia fêz um conjunto de investimentos pouco prudentes ( Jogos Olimpicos, Novo Aeroporto de Atenas, renovação urbana de varios quarteirões de Atenas,metro) e não fêz as reformas estruturais essenciais.
4. Portugal até 2001 andou bem ( entrada na então CEE , fundos estruturais que permitiram à População aproximar-se do nivel de vida médio da Europa, adesão ao Euro,etc).
5. Alguns aspectos da EXPO foram o primeiro grande erro. Mas, o pior foi depois com os 10-ESTADIOS-10 e varios investimentos publicos sem retorno.
6. As SCUTs foram vendidas como um FACTOR de desenvolvimento regional e anos depois quiz-se isentar os Utentes a pretexto que continuavam pobres e não podiam pagar ( era o Povo todo a pagar...mesmo os Peões...).
7. A adesão ao Euro foi vista apenas como uma oportunidade.
Fernando , | 14/10/11 15:28
Eles nao querem admitir que esta crise que se esta a viver e' uma consequencia da "arquitectura" financeira adoptada ha 40 anos: o dinheiro-papel sem ligacao ao padrao-ouro. Os Governos, atraves dos seus economistas-burocratas, querem fazer crer ao povinho que sem o dinheiro-papel que eles produzem a partir do nada, nao haveria "crescimento". O que lhes interessa e' continuar a ter o poder nas suas maos e continuar a servir os seus mestres banqueiros. Muitos culpam o "Capitalismo desregulado" mas o que deveriam culpar seria sim o "Estadismo" em que vivemos, onde mais e mais paises ditos democraticos sao governados por governos com mais poder do que muitas monarquias totalitaristas do passado. O verdadeiro Capitalismo de Mercado Livre implica a existencia de dinheiro (meio de troca) solido e baseia-se na troca VOLUNTARIA de bens e servicos. Estamos longe disso com dinheiro papel que desvaloriza a olhos vistos (A libra-Estrelina perdeu 99% do seu valor quando era equivalente a 1 libra de prata) e estamos longe de ter trocas voluntarias com os Governos a imporem taxas e restriccoes economicas. So um verdadeiro mercado livre, voluntario, entre pessoas e empresas pode gerar riqueza. O que assistimos hoje em dia e' apenas a queda em espiral de um sistema financeiro que nao resulta. O fim esta proximo...

lucklucky , | 14/10/11 15:11
"O MAL ESTÁ AQUI!"
O Mal está na dívida que quiseste e agora não queres pagar.
 
Realista , Porto | 14/10/11 14:22
Agora está na moda dizer mal do passado. Aqui e na Europa. O Portugal de Cavaco não deveria ter gasto os fundos europeus em estradas. A Europa nunva deceria ter deixado entrar a Grecia. TENHAMOS JUIZO! Cavaco fez muito bem em investir em estradas. Lambram-se como era a rede viaria antes de Cavaco? Pois eu sou a favor das estradas, da Expo e até do campeonato europeu (embra concorde que 10 estádios foi demais). O mal de Cavaco e esse sim foi um mal terrivel foi ter criado o mostro. Quanto à UE acho muito bem terem permitido a entrada da grecia. A Grecia é o berço da democracia. O que eu acho mal, muito mal, é esta cambada de neolibs que tem governado o ocidente com Merkel e Sarkosy à cabeça mas tambem Obama. Obama prometeu uma coisa mas fez outra: voltou a dar força a Wall Street e a tolerar o mal que a desregulação do sistema financeiro tem causado. O MAL ESTÁ AQUI!
 
lucklucky , | 14/10/11 13:57
"Quem permitiu que isto acontecesse?"
A Política. A Utopia Europeia.
E as Utopias são sempre mentiras.
Precisam de ser um embrulho bonitos e o lixo debaixo do tapete.
Faz de conta.
"Pretender-se que a Grécia sobrevive sem reestruturação é um insulto à inteligência das pessoas. Os gregos não o merecem..."
É evidente que sobrevivem. O Daniel Amaral assim como os Gregos é que não querem voltar a viver com a riqueza de 1995.

José Moura , Pampilhosa | 14/10/11 13:36
E Portugal vem a seguir...com medidas como as de ontem,é o que nos espera.

  César Palmieri Martins Barbosa , Rio de Janeiro | 14/10/11 02:43
A Alemanha parece já estar decidida a ela sair do euro e voltar ao marco alemão, preservando as suas riquezas, ao invés de sacrificá-las no resgate e financiamento da zona do euro e da União Européia. Nesse sentido é clara a decisão do representante do Deutsche Bank, Josef Ackermann, que ontem se declarou contrário à proposta do Presidente Barroso de resgate à banca européia.
Jakim dos Ossos , | 14/10/11 01:33
A Grécia precisa de mais uma pequena coisa, quase sem importância: POLÍTICOS SÉRIOS E COMPETENTES
publicado por ooraculo às 17:24
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