Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

OE-2012: a vertigem

Aí está o OE-2012, de uma brutalidade inaudita, o mais violento que alguma vez se publicou em Portugal. Percebe-se que não vai ficar pedra sobre pedra: aumento generalizado dos impostos, cortes nos salários e nas pensões, ataques impiedosos aos direitos dos trabalhadores, amputações terríveis em todo o Estado Social. É um autêntico dilúvio a desabar sobre o país. Com a bonança a seguir? Olho à distância para 2013 e não acredito nisso.

Comecemos com 2011, em que o défice não poderá exceder €10.020 milhões, 5,9% do PIB. Um objectivo pacífico? Quando a ‘troika' fez as contas, parecia que sim. Mas sobrevieram três desgraças numa só: a execução ficou aquém da estimativa, a recessão foi ainda pior do que o previsto e o senhor da Madeira fez o resto. Desorientado e sem ideias, o Governo foi à banca e absorveu o fundo de pensões. E a sua credibilidade foi ao fundo do poço.

Para 2012 sabíamos que o défice estaria limitado a €7.557 milhões, 4,5% do PIB. Como? O PSD deu a resposta em plena campanha eleitoral: cortando nas "gorduras" do Estado. Eles até já tinham uma lista de cortes pronta a entrar em acção. Sabe-se agora que era mentira: primeiro, aumentaram todos os impostos; e, depois, só cortaram nos rendimentos e nas acções sociais. Exactamente o inverso do prometido. Passos Coelho consegue dormir bem?

É óbvio que, com este orçamento, a recessão vai agudizar-se. E nem sequer imagino quando é que a economia poderá recuperar. Veja-se o caso do investimento: em 2000, investíamos 27% do PIB; em 2010, descemos para 19%; e, em 2012, vamos ficar-nos pelos 16%. É um cenário dramático. E, em situações como esta, mandaria o bom senso que fosse o Estado a fazer a compensação. Esqueçam: o investimento público vai situar-se na vizinhança de zero.

Poderia ser de outro modo? Quando pedimos ajuda, não: era a ‘troika' ou o caos. Mas, quando se tornou consensual que o modelo era asfixiante, deveríamos ter ensaiado uma renegociação que nos permitisse respirar um pouco. O Governo optou pelo inverso, e decidiu ir muito além do que a própria ‘troika' exigia. Deixou-nos atados de pés e mãos. Se nada de novo acontecer até lá, no final de 2012 vamos ter um país sem crescimento, sem emprego, sem dinheiro e sem horizonte - à beira do abismo.

Quem pára a vertigem?

 

A ARTE DE INCUMPRIR

 

Incumpre-se o défice...

(Défice, % PIB)

 ...incumpre-se a dívida

 (Dívida, % PIB)

   

As regras eram muito claras: para entrar no euro, o défice orçamental e a dívida pública não poderiam exceder 3% e 60% do PIB, respectivamente. Mas, pelos vistos, as regras não eram para cumprir. Hoje, dos 17 países que integram o euro, apenas 6 cumprem o critério do défice e 5 o da dívida. E, a cumprirem ambos, apenas 3: a Finlândia, a Estónia e o Luxemburgo. Portugal não cumpre nenhum. Como foi possível chegar a isto?

Fontes: OE-2012, Eurostat, Banco de Portugal.
____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 


Comentários:

MR , | 21/10/11 14:31
Nestes próximos orçamentos o que vai faltar é fazer um ajuste de contas com o PS, mais própriamente com o Sr.Sócrates.
Governar não é apenas deixar o País em roda livre e dizer que está tudo bem e quew até (pasme-se!) esávamos a sair da crise....
 
Fernando , | 21/10/11 13:17
Esta crise e' mundial. Ne realidade representa o fim do regime Estadista que cresceu descumensuradamente na Europa e nos EUA durante a segunda metade do Sec. XX: O estado "controla", o estado, "protege os pobrezinhos", o esta "redistribui a riqueza", o estado "subsidia" desde o nascimento ate a morte. Ahh, o estado (e os afilhados bancos) tem de ter o monopolio da criacao de um dinheiro-papel que todos temos de aceitar como de valor e o estado e' que deve dirigir a economia. E' este modelo que comeca a desmoronar e que vai acabar, dentro de pouco tempo. E o Bing-bang vao vai deixar ninguem de fora...
 
LOPES CARLOS , Bélgica | 21/10/11 10:35
1. Senhor Realista , esta crise tem raizes globais , europeias e nacionais ( muito nossas !!!). Por isso, as respostas terão de ser globais E europeias E nacionais.
2. Este OE 2012 ( qualquer que seja a sua versão final , para acomodar o PS) é muito duro. Mas, as Pessoas Sérias sabem que os OE 2013 e 2014 ( independemente dos campos de apoio ) serão MAIS DUROS, porque a divida externa aumentará e os tais desvios colossais aumentarão ( por "fases").
3. Portugal está em REGIME DE TORNEIRA UNICA ( BCE), por isso está como a Blanche do ELECTRICO CHAMADO DESEJO ( versão de TEODORAKIS).

Realista , Porto | 21/10/11 09:23
Concordo com o artigo. Eu não me canso de repetir que esta crise é europeia, não é só nossa. E a nossa solução está mais nas mãos da UE que nas nossas. Por isso devemos agir com cuidado e, sobretudo, ir ganhando tempo. Sem dúvida que o proximo OE terá que ser duro. Mas não sejamos mais "troikos" que a propria troika. E sobretudo: SEJAMOS JUSTOS NOS SACRIFICIOS E NÃO ESQUEÇAMOS A NECESSIDADE DE CRESCIMENTO. Ora este OE não faz nada disto. Com a ideia de dividir os portugueses entre públicos e privados este OE é mesmo um aborto. 

disto. Com a ideia de dividir os portugueses entre públicos e privados este OE é mesmo um aborto.

publicado por ooraculo às 17:56
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. Regresso ao futuro

. Passos perdidos

. 2013: A vertigem

. O Estado "social"

. O declínio da Europa

. Chover no molhado

. O Estado vampiro

. A escapatória

. OE/2013: a ruptura

. Um país destroçado

.arquivos

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

blogs SAPO

.subscrever feeds