Sexta-feira, 19 de Março de 2010

O PEC político

 

 As finanças públicas entraram em rota de colisão e é preciso desviá-las a todo o custo. Só há duas maneiras de o fazer: crescendo bem ou sacrificando muito. Sucede que o crescimento é uma utopia, pelos menos nos anos mais próximos. Restam-nos então os sacrifícios, que podem ser de mais impostos ou menos acção social. O problema são os conflitos de interesses: como vamos dirimi-los?

O primeiro é um conflito de classes. Os contribuintes dominam a economia, têm acesso ao poder político e não hesitam em ameaçar com eventuais deslocalizações do dinheiro. Os beneficiários não dominam coisa nenhuma, gritam mas ninguém os ouve e acabam à míngua do que lhes quiserem dar. Na hora de apertar o cinto, a tendência é para reduzir as despesas. Mas não havia necessidade: as nossas receitas só pesam 40% do PIB, bem abaixo da média europeia.

O segundo é um conflito de gerações. Os trabalhadores no activo odeiam descontos, estão-se nas tintas para a poupança e a reforma é um problema longínquo que alguém há-de resolver. Os que entretanto se reformaram, amargurados com as doenças e com pensões de miséria, vivem a angústia do dia seguinte. O resultado é conhecido: com cada vez mais dependentes e com as despesas públicas a atingirem os 49% do PIB, a sustentabilidade da Segurança Social pode estoirar a qualquer momento.

O terceiro conflito é de natureza partidária. Governos mais à direita privilegiam o crescimento, a optimização, o lucro: os ajustamentos devem ser feitos nas despesas. Governos mais à esquerda privilegiam a distribuição, a solidariedade, a moral social: os ajustamentos devem ser feitos nas receitas. E aqui entra o PEC: não querendo chatices, o actual Governo optou por um ajustamento ‘fifty-fifty', numa postura claramente centrista. Mas então o PS não é um partido de esquerda?

Esta postura reflectiu-se depois no investimento público e no sector empresarial do Estado, dois instrumentos que a esquerda idolatra e a direita abomina. Aqui o PEC é claríssimo: o fim último das empresas públicas é serem privatizadas - com a eventual excepção da Caixa, não sei bem; e o investimento público, que já é o mais baixo de sempre, prepara-se para descer ainda mais.

 O PS precisa de uma reflexão urgente.

 

A GRÉCIA E NÓS

 Mais desequilíbrio... (Défice,% PIB)  ...mais endividamento (Divida,% PIB)
 
   

 

A Grécia e Portugal são países muito semelhantes: a mesma população, o mesmo desemprego, o mesmo desequilíbrio com o exterior. Mas, no que se refere às finanças públicas, as diferenças são abissais: o nosso défice é de 9,4%, o deles é de 12,7%; a dívida grega é de 113%, a nossa de apenas 77,2%. Mais importante do que isso: Portugal tem sido um país credível, a Grécia não...

 

 

 Fonte: Eurostat

 

publicado por ooraculo às 16:06
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