Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

O colapso social

Tenho à minha frente os gráficos que o leitor pode ver em baixo. À esquerda, a variação do PIB: em dois anos, a queda deverá exceder os 5%, a maior recessão de que há memória no Portugal democrático. À direita, a evolução do desemprego: em dois anos, vamos perder mais 124 mil postos de trabalho, elevando aquele número para 727 mil, 13,4% da população activa: é uma situação arrepiante. O Governo pensou nisso quando propôs este orçamento?

Quando pedimos ajuda externa e nos submetemos aos humores da ‘troika', foi-nos sugerido que o corte no défice de 2012 se dividisse em três partes iguais: um terço seria acrescido às receitas; dois terços seriam reduzidos às despesas. E ficou implícito que por despesas se entenderia "gorduras" do Estado. Mas a opção foi muito mais simples: as "gorduras", afinal, eram salários, pensões e acções sociais. Isto não é brincar com as pessoas?

Com o investimento deprimido e este corte brutal no rendimento das famílias, era óbvio que a procura interna iria bater no fundo. E, para estimular o crescimento, só nos restava o aumento das exportações. Foi então que o Governo se lembrou de acrescer meia hora à prestação diária de trabalho. Azar dos Távoras: com a capacidade produtiva já subutilizada, esta medida só vai aumentar a subutilização. E nós continuamos a dar tiros nos pés.
A cereja no topo do bolo vai para todos aqueles que estão a caminho de perder o emprego, aproximando-se do limiar da pobreza. Já vimos que, na passagem de 2010 a 2012, o número de desempregados vai subir de 603 mil para 727 mil, mais 21%. Mas, no mesmo período, as dotações para subsídio de desemprego vão cair 8%. Chamem-lhe o que quiserem: ignorância, insensibilidade, má-fé. Este é um episódio de que o Governo deveria envergonhar-se.

Que me lembre, nunca um OE foi tão duramente criticado por tanta gente. E também não me recordo de alguma vez o Presidente da República o atacar em público, em vez de o fazer no recato do seu gabinete. Penso que o Governo deveria reflectir sobre isto, mesmo que confirme as suas opções, em nome de uma dignidade que só lhe fica bem. Já no que toca à economia, admito que não faça nada, simplesmente porque não é capaz. Fica o meu protesto: este orçamento vai levar-nos ao colapso social.
Tinha mesmo de ser assim?

 

Daniel Amaral
Economista

 

 

 Comentários:

 

CARLOSREB , | 28/10/11 17:35
Precisamente!!!
Mas o que é que estávamos á espera?
Tudo a viver á grande, ninguem produz nada...
Vamos empobrecer a olhos vistos...
Não há governo nenhum que governe algo ingovernável...
Todas estas medidas e as que virão, são apenas para evitar o "default"!
 
Ricardo Salgado , Praia da Comporta | 28/10/11 17:13
Caro Daniel Carvalho
Não há meios termos... temos que penar primeiro para depois crescer.
Vai ser duro, mas não há alternativa. Ou há?
 
Mas o que é que estávamos á espera? , | 28/10/11 15:38
Tudo a viver á grande, ninguem produz nada....
 
Jose , Lisboa | 28/10/11 13:59
A verdade da economia é que não há verdade nenhuma. Estamos a viver uma situação previsível, desde que o Eng. Sócrates ganhou as primeira eleições. Também a alternativa seria o lunático do Dr Santana Lopes, o homem que se julga um iluminado, mesmo quando defende as ideias mais disparatadas. Estávamos mal de escolhas. Depois, na segunda vitória do Eng Sócrates, já foi diferente, o povo teve medo da Dra Ferreira Leite, que ia tentar equilibrar o barco. O eleitorado preferiu a banha da cobra do PS, ao realismo do PSD. Havia a certeza que estávamos a ser mal governados, no entanto, preferiu-se adiar o momento de enfrentar a realidade. Agora, sem fuga possível, cá temos a fatura dos desmandos governativos: choques tecnológicos: PPP; formação para Europa ver e utilidades afins, que serviram para enriquecer alguns próximos do círculo do poder. O dinheiro fácil da Europa, o crédito facilitado pelo Euro, deu-nos a tentação de gastar sem ver em quê. É preciso é gas.
 
Realista , Porto | 28/10/11 12:58
Estou de acordo com o autor. Este OE além de brutalmente injusto, é perigoso e vai levar à deterioração do estado.
1- Um professor ou um polícia que têm que trabalhar muito longe da sua residencia para ganhar 1000 euros vão ter uma quebra no seu rendimento de mais de 20%. Um quadro medio de uma empresa privada, para já não falar dos gestores que ganham centenas de milhares de euros, ficam na maior. É JUSTO?
2- O corte dos subs dos fp e pensionistas vai provocar uma divisão grosseira na sociedade. Atenção aos propestos de rua. Na Grecia os manifestantes revoltam-se sobretudo contra os políticos, devido á sua incompetencia e injustiça. ACHAM QUE NÃO? PENSEM NISSO!"
3- Mas o corte brutal nos fp vai levar sobretudo à degradação do sector estado. Vão aumentar as saídas de medicos do público para o privado, agravando ainda mais o SNS. Vai haver fugas de quadros do público para o privado. NÓS DEVIAMOS APONTAR PARA UM SECTOR PÚBLICO MENOR MAS BEM QUALIFICADO. 
Couceiro , Coimbra. | 28/10/11 12:51
A dureza das palavras é sem dúvida paralela á realidade que nos espera.Entretanto vão-nos dividindo e nós vamos disparando em todos os sentidos, cavando uma maior distancia entre nós, pessoas,cidadãos deste País..E pensando que não podemos fugir, que é este o nosso fado.Mas será? Por uma vez mais não seremos capazes de esquecer as diferenças e enaltecer o que nos une? Agigantar-mo-nos e colocar estes políticos e esta politica á mercê do país em vez de contribuirmos para o status quo e continuidade deste degradar permanete e roubo da esperança?
 
justino , | 28/10/11 12:51
Ainda há pessoas lúcidas neste país e que olham para o conjunto da sociedade e para os reflexos sociais de medidas desastrosas.
Quando for altura de lhes dar razão, vai ser tarde...
alberto , lisb | 28/10/11 12:41
O Portugal democrático é responsável pelo salto qualitativo do país, com especial relevância na saúde e educação ( apesar de tudo ), mas é também responsável por ter gerado o ambiente que, combinado com a ignorância e irresponsabilidade política, pôs o país de joelhos e mão estendida perante a comunidade internacional. O nível de despesa do país-público e privado- tem mesmo de ser ajustado, e graças à negação socratina agora só pode ser à bruta, o resto é wishful thinking.
Rosendo Jose , Lisboa | 28/10/11 12:23
Ok, aceitem-se as críticas todas, têm lógica mas alguém que nos explique quais as alternativas. Já agora, com a mesma ênfase e detalhe das críticas feitas.
Orçamento expansionista? Privilegiando o investimento que leve à recuperação da economia e aumento do consumo? Lindo, mas com que dinheiro?
Casa onde não há pão...
LOPES CARLOS , Bélgica | 28/10/11 12:14
1. Não estou a ver gráficos nenhuns.
2. Desde 2/2/2006 TODOS OS DECISORES sabiam que a " saída" seria o DESEMPREGO LD para resolver o reajustamento.
3. E fosse qual fosse a "cor" do Governo que recebesse o Poder , haveria SEMPRE recurso a uma MIX POLICY ( aumento da carga fiscal, redução dos beneficios sociais, aumento geral das tarifas e preços) !
3. Fingir agora que se ignorava isto , releva da pura hipocrisia !!!
4. Estaremos durante anos a tentar mudar o paradigma. Os custos para as Novas Gerações serão muito pesados. TODOS O SABIAM !!!!!!!
5. Se Portugal abandonasse o Euro , então seria o regresso directo ao nivel de vida de 1950 .
José Moura , Pampilhosa | 28/10/11 12:05
Aqui está uma análise em que devemos meditar,mesmo para os apaniguados deste governo.
publicado por ooraculo às 18:02
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