Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

Depois da Grécia

A Europa lá conseguiu que os privados aceitassem perdas de 50% da dívida grega, o que a Grécia quer agora referendar. Está tudo doido. Mas este é um bom pretexto para reflectir sobre a dívida portuguesa, onde a palavra "reestruturação" é hoje tabu. Num esforço de simplificação, vou assumir o seguinte para o final de 2012: a dívida pública é igual ao PIB; o saldo primário é nulo; e a taxa de juro implícita é 5% ao ano. Como sair daqui?

Seja então Dívida=PIB=100 e projectemos 2013. Como a taxa de juro implícita é igual a 5%, a dívida sobe para 105. E, para que o peso relativo se mantenha, é preciso que o PIB nominal também suba 5%. Mas o BCE insiste em limitar a inflação a 2%, o que significa que o PIB real teria de crescer 3%, um cenário irrealista. Então, para que a dívida relativa não aumente, terá de haver excedentes orçamentais. E nunca mais saímos da recessão.

Ao problema da dívida, que terá de ser reduzida não se sabe como, junta-se o problema do financiamento. Em 2013 vamos ter de financiar duas parcelas: a dívida vincenda nesse ano e que terá de ser substituída e o défice de 2012 que acresce à dívida global. Agora imaginem-nos no mercado a negociar este pacote: não é óbvio que não nos financiam, porque somos "lixo", ou que apenas o farão a taxas proibitivas? E lá teremos de pedir ajuda...

Quem diz ajuda diz ‘troika', e já estou a ver o sorrisinho deles a apontar-nos a solução: do que nós precisamos é de mais austeridade e, no limite, de trazer a dívida face ao PIB para os 60%, como mandavam as regras que nós furámos ao entrar no euro. Admitamos que nos dão 20 anos para fazer isso: serão dois pontos do PIB em cada ano, algo como €3,4 mil milhões a preços de hoje, uma loucura. Cortamos onde? Vivemos como? A fazer o quê?

Tenho uma ideia. Peguemos na nossa dívida, de €170 mil milhões, e dividamo-la em duas partes: uma de 40% e outra de 60%. Os 40% ficarão congelados num veículo qualquer durante 20 anos. Os 60% serão geridos pelo nosso ministro das Finanças, com a incumbência de jamais os ultrapassar. Os credores daqueles 40% não assumirão contabilisticamente quaisquer perdas, mas também não receberão quaisquer juros. E, depois, em 2032, logo se vê. Ponto de honra: nunca chamar a isto uma reestruturação!

Agora rezem: Ave-maria, cheia de graça...

 

NÓS E OS OUTROS

 

Saldos negativos...

(Saldo orçamental, % PIB)

...acrescem à dívida

(Dívida pública, % PIB)

   

 Os pressupostos de adesão à moeda única eram muito claros: o défice orçamental e a divida pública face ao PIB não poderiam exceder 3% e 60%, respectivamente. Mas, uma vez no clube, o incumprimento passou a ser regra e ninguém se incomodou. No caso português, o défice chegou aos 10% em 2009 e a dívida aos 100% em 2011. E a Zona Euro no seu conjunto não se portou muito melhor. De que estavam à espera?

Fontes: OE-2012, Eurostat.

____

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

Comentários:

 

 

 JR , Alcobaça | 04/11/11 16:55
Em princípio concordo com o autor,como aliàs com quase todos os seus artigos,mas terà pernas para andar?

Jakim dos Ossos , | 04/11/11 12:56
Há alguma lei no universo que nos impeça de ter excedente primário?
O Estado não pode é viver acima das possibilidades da economia que o suporta, o resto é conversa de político!

atipiku , maia - porto | 04/11/11 11:24
Gabo a lucidez deste articulista neste artigo, como é habitual, aliás. Esta é a solução. É este o caminho, para que nos possamos continuar a considerar HONRADOS. Não podemos perder a HONRA. Mas para isso, tem que existir um caminho possível, sem que tal signifique facilitismo/laxismo. Caro Sr. Ministro das Finanças. P.F. amadureça esta ideia!

Realista , Porto | 04/11/11 09:18
A tese do autor está obviamente correcta, mas....incompleta. Falta acrescentar que este problema da dívida é comum à maioria dos paises da zona euro, aos EUA e ao UK. Então não estamos sós. E a solução não está apenas nas nossas mãos e terá que ser uma solução global ou, pelo menos, mais global. ATÉ QUE UMA SOLUÇÃO GLOBAL SEJA ENCONTRADA DEVEMOS COMER A SOPINHA TODA E PORTARMO_NOS BEM. NADA DE MEDIDAS BRUTAIS COMO A DE CORTAR OS 2 SUBDIDIOS APENAS A METADE DA POPULAÇÃO. Vamos estar unidos, ser pacientes e aguardar. Reparem que os gregos (e a Grecia é o exemplo a evitar) não estão propriamente contra o euro ou mesmo a Alemanha. Estão sobretudo contra os seus políticos, pela estupidez e facciosismo que têm demonstrado.

LOPES CARLOS , Bélgica | 04/11/11 06:55
1. Excelente Artigo dum Excelente Autor !
2. Os anos de 2012 e 2013 vão ser duros. Mas, 2014 vai ser pior, a não ser que que surja um evento extraordinario, da categoria dos Milagres .
3. Se se fizerem "diagnosticos" às contas de certas Camaras Municipais e de certas Empresas Publicas , como se fêz à Madeira, os numeros agravam-se. Para, não falar dos suaves " riscos orçamentais".
4. A justiça é retratada pelos casos Isaltino Morais , Padre Frederico,Casa Pia,Cabeça roubada no I. M. Legal de Lisboa e tantos tantos outros que nunca mais acabam. Perante a indiferença de TODOS ! Sem justiça "normal" não subsiste Estado de Direito e sem este não funciona uma verdadeira Democracia.
5. Sem Economia, sem Finanças e sem Justiça para onde vamos ??
publicado por ooraculo às 17:39
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