Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Loucos à solta

Aqueles que têm por hábito acompanhar os debates televisivos, invariavelmente sobre a crise, já devem ter reparado que os comentadores de serviço coincidem em regra neste ponto: a solução para os nossos problemas está no crescimento económico. Já é mais raro ver os moderadores a fazer a pergunta seguinte: e como é que isso se faz? Eis o drama português: todos temos as soluções, mas ninguém sabe como aplicá-las. O tema merece reflexão.

Partamos de 2010 e projectemos o final de 2012. A queda acumulada do produto deverá ser da ordem dos 4,6%. Mas, se isolarmos a procura interna, consumo e investimento, assumindo como neutro o valor das exportações líquidas, a recessão atinge o valor arrepiante de 11,4%. Não me recordo de alguma vez isto ter acontecido. E, o que é pior, tudo indica que as projecções estarão subavaliadas. Para o abismo só nos falta o passo em frente.

A procura externa, que se mede pela diferença entre exportações e importações, atenua depois o desastre, ao apontar para um aumento acumulado de 6,8%. É da diferença entre estas variações de sinal contrário que se obtém aquela recessão de 4,6%. Mas fica uma dúvida: sendo a Zona Euro o destino privilegiado das nossas exportações, e com a maioria destes países em crise profunda, qual é o segredo para exportar tanto e importar tão pouco?

Uma medida francamente positiva foi a do novo presidente do BCE, o italiano Mario Draghi, ao reduzir em 0,25 pontos a sua taxa de referência. O efeito será benéfico em todos os domínios. E não me venham com o argumento de que, ao adoptar-se essa medida, a inflação pode subir e o euro desvalorizar-se. Não parece que seja grave. Aliás, num certo sentido, até teríamos vantagens: melhorávamos a competitividade e subíamos o PIB nominal.

Agora a resposta à pergunta que ficou lá atrás: com este orçamento é impossível crescer. Não vale a pena iludirmo-nos. Mas a culpa nem será do Governo, porque foi a ‘troika' que no-lo impôs. Quando muito poderá tentar renegociá-lo, se isso ainda for possível. Entretanto, alguém se lembrou de dividir a Zona Euro entre bons e maus, ricos e pobres, inteligentes e mentecaptos. Objectivo: expulsar os intrusos, que só chateiam. A que Otelo acrescentou: a resposta pode ser um golpe militar.

Andam loucos à solta.

 

O ESTADO DA ECONOMIA

 

Colapso de um lado...

(Procura interna, 2006=100)

...esperança do outro

(Procura externa, 2006=100)

   

Com a procura interna não podemos contar: para além da queda abrupta dos dois consumos, o investimento bate no fundo do poço. Já na procura externa a aposta é enorme: além de um acréscimo substancial nas exportações, admite-se um grande recuo nas importações. Mas fica uma dúvida insanável: com toda a Europa em crise, como é que isso é possível?
Fontes: Banco de Portugal, OE-2012

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 


Comentários:

 
  Fernando , | 18/11/11 15:24
Na minha modesta opiniao, o problema da economia mundial e':
1 - Sistema monetario baseado em fiat money, dinheiro-papel criado por bancos centrais a partir do nada. O dinehiro-papel e' apenas conveniente para o poder politico, pois pode gastar a vontade, mesmo o que nao tenha, porque quando acabar faz-se mais;
2 - Banda frac.cionaria - Do mesmo modo, os bancos criam credito a partir do nada. A economia nao tem de POUPAR dinheiro para investir, como deveria ser. O investimento deve sempre vir de poupancas, de surpluses, de individuos ou empresas. Dinheiro criado a partir do nada so provoca inflaccao que e' em si um imposto e prejudica quem poupa.
3 - Tirar o Estado da direccao da economia. A economia e' um sistema dinamico, onde interveem bilioes de seres humanos com as suas proprias vontades, objectivos e receios. Quando se admitir que nao sao burocratas sentados nos bancos centrais e que acham que fazem uns calculos e sabem quanto e que devem ser as taxas de juros, que devem dirigir

Realista , Porto | 18/11/11 11:21
Reparo que o meu´comentário foi censurado. Quem decide os cortes, o autor ou o jornal? Os neolibs agora falam muito na necessidade de aumentar as exportações e, para isso, aumentar a productividade. Eu penso que se devia pensar primeiro na redução das importações. Até porque algumas são mesmo escandalosas. Por exemplo importamos centenas de milhões em pescado, quando temos a costa e a zona maritima exclusiva que temos. Importamos centenas de milhoes em produtos agrícolas quando, pelo menos em productos horticulas e fruitas até devíamos ser exportadores. Depois....não exageremos: a economia tambem depende e muito do consumo interno. Não o matemos.

joão Ramos , Sintra | 18/11/11 10:35
Sem se reduzirem os preços do dinheiro (banca), da electricidade, dos combustiveis e das telecomunicações para valores abaixo da média desses preços nos países nossos PRINCIPAIS CONCORRENTES, para além da redução dos custos com o Estado, não podemos pensar em desenvolvimento sustentado.

Fernando Pereira , Porto | 18/11/11 10:08
JÁ AGORA, UMA DAS SOLUÇÕES QUE SERVE PARA AUMENTAR O NOSSO CRESCIMENTO... BARRAGEM DO ALQUEVA "Construída para garantir a existência de uma reserva estratégica de água e secundariamente para produzir electricidade e possibilitar a rega agrícola, esta gigantesca barragem criou o maior lago artificial da Europa... O início de vida do maior lago artificial da Europa foi a 8 de Fevereiro de 2002 quando as comportas da barragem foram encerradas." JÁ PASSARAM 9 ANOS DESDE QUE FECHARAM AS COMPORTAS, AS EXPECTATIVAS QUE OS POLITICOS NOS CRIARAM COM O ALQUEVA...

QED , Lisboa | 18/11/11 10:01
Muito estranhos, estes quadros.... e estes números. No ano passado, segundo o INE, Portugal Importou 57 mil milhões e exportou 36, o que deu um défice de quase 21 mil milhões (números corrigidos). Este ano, até Setembro, importámos 43,8 mil milhões e exportámos 31,3. E, destes, importámos 31,7 da UE e exportámos para lá 23,4. OU SEJA, o TOTAL das nossas exportações NÃO CHEGA para cobrir as IMPORTAÇÕES da UE!!! Como é que é possível, ENTÃO, que os quadros mostrem linhas quase paralelas e prevejam a INVERSÃO da tendência??? O que a realidade diz é que há quebra TANTO da procura interna como das exportações, e que as importações AUMENTARAM!!!

Fernando Pereira , Porto | 18/11/11 09:40
Entretanto, alguém se lembrou de dividir a Zona Euro entre bons e maus, ricos e pobres, inteligentes e mentecaptos. Objectivo: expulsar os intrusos, que só chateiam. A que Otelo acrescentou: a resposta pode ser um golpe militar."
EU ACRESCENTO, SE NADA FOR FEITO PARA MUDAR ESTA SITUAÇÃO E CONTINUARMOS NESTE CAMINHO, RELEMBRO AQUI A DECLARAÇÃO QUE FEZ ALMEIDA SANTOS HÁ ANOS SOBRE A GUERRA EM ANGOLA E QUE, NA ALTURA, CHOCOU OS JORNALISTAS: "Angola está condenada a que a guerra dure até que um dos contendores vença o outro". TODOS SABEMOS O QUE ACONTECEU... POR ISSO CHAMEM GUERRA, GOLPE DE MILITAR... É SÓ SOMAREM 2+2=.....
publicado por ooraculo às 17:56
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