Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Regresso às aulas

Questionado sobre a opinião de um gestor de empresas, no quadro da última greve geral, o líder da CGTP, Carvalho da Silva, reagiu deste modo: “[Ele] é licenciado em gestão e marketing. Eu acho que o deviam levar à universidade e retirar-lhe o diploma. Porque há uma coisa que está demonstrada até à exaustão: o aumento das horas de trabalho não aumenta a produtividade". Será mesmo assim? Eis um tema interessante, que vale a pena debater.

Consideremos a produtividade/hora de um empregado e atribuamos-lhe o valor de ‘x', para um horário de trabalho de 8 horas por dia. Se, em determinada altura, o horário passar para 9 horas por dia, o que é que acontece? Presumivelmente, a produtividade/hora mantém-se. Mas se formos acrescentando sucessivamente mais horas, o mais provável é que a média vá diminuindo, que mais não seja por cansaço. A produtividade marginal é decrescente.

Passemos agora ao conceito de produtividade/pessoa, continuando a atribuir o valor de ‘x' a cada hora das 8 horas de trabalho por dia. Se, em determinada altura, o horário for acrescido de uma hora, parece claro que a produtividade/pessoa aumenta, passando de 8x para 9x em cada dia. Aliás, aumentará tanto mais quanto mais horas de trabalho houver. E só não será assim a partir do momento em que a hora adicional tenha produtividade nula.

Quando Carvalho da Silva diz que "o aumento das horas de trabalho não aumenta a produtividade", atenção! Depende do conceito escolhido! E o da produtividade/pessoa é bem mais importante. Agora as estatísticas. Produtividade/hora, com EUA igual a 100: a Europa produz 85 e Portugal 49. Produtividade/pessoa, com EUA igual a 100: a Europa produz 75 e Portugal de 54. Conclusões a reter: na Europa trabalha-se menos do que na América; em Portugal trabalha-se mais do que em qualquer das duas.

Com isto chegamos à famosa meia hora que o Governo tanto insiste em acrescer ao actual horário de trabalho. As comparações atrás mencionadas não deixam dúvidas: a produtividade/hora é tendencialmente decrescente e a produtividade/pessoa já tem horas a mais. Ou seja, se queremos mesmo aumentar a produtividade, o alvo não deve estar nos trabalhadores mas nas empresas que os contrataram. Dito de outro modo: precisamos de mais investimento e de melhor organização. Já tinham pensado nisso?

Esta lição é de borla.

 

QUE PRODUTIVIDADE?

 

Dos índices por hora...(Produt./hora, UE=100)  ...aos índices por pessoa (Produt./pessoa, UE=100)
   

Há dois conceitos de produtividade, por hora e por pessoa, e em qualquer deles Portugal está a uma distância abissal das médias dos Estados Unidos e da Zona Euro. Mas há um elemento a ter em conta: a distância por pessoa é menor do que a distância por hora, o que significa que em média trabalhamos mais horas do que os outros. O mal não está nos trabalhadores mas nas empresas, que precisam de investir mais e melhor.
Fonte: Eurostat.

 

Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt

 

publicado por ooraculo às 17:51
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